A teoria da venda pelos semáforos.

Faz muitos anos que fui apresentado pra uma questão que não parou de me intrigar. Sempre fomos acostumados a ver vendedores pelos semáforos da cidade, oferecendo balas ou coisas similares. Nunca me passou pela cabeça que isso pudesse ser algo muito lucrativo, pois eu imaginava que se alguém estava buscando uma atividade em meios aos carros, debaixo de sol, sem muita estrutura e com produtos simples, talvez isso fosse necessidade e não opção. Mas surgiram com uma teoria pra mim de que na verdade essa frequência com que vemos pessoas nessas atividades estava relacionada à algo que pouca gente notava que era o potencial de altos lucros.

Eu não tenho como endossar totalmente essa teoria, pois não conheço os pormenores que possa estar por trás de certos detalhes. Não há como prever exatamente como as coisas são e quais pessoas estão neste modelo de trabalho por altos lucros ou por necessidade, pois a teoria informa até que há uma simulação eficiente da postura dos vendedores pra parecerem mais necessitados do que são, como estratégia de venda e como parte essencial do plano maior. E, de certa forma, isso faz sentido, pois se algo realmente dá muito lucro e a pessoa não quer concorrência, ela vai tentar passar a imagem de que aquilo não é um trabalho tão viável. E, dessa forma, ninguém desconfiaria de que essas vendas não são por necessidade, pois se descobrissem, provavelmente deixariam de comprar, pois o grande foco dessas vendas é a ajuda e a oportunidade rápida durante a pausa no semáforo e não exatamente a demanda concreta por tais produtos.

Mas será que isso procede? Fiquei um pouco cético, especialmente porque como o Brasil é um país cheio de pessoas em situações difíceis, seria mais provável que, como muitos outros vendedores de rua, os vendedores dos semáforos fossem trabalhadores por necessidade. Temos tantos moradores de rua ou pessoas em pobreza que parte pras ruas tentando levantar um pouco de dinheiro que eu criei certa resistência em aceitar tão facilmente isso. E por isso simular algumas contas rápidas foi importante. E foi mais ou menos isso:

Aqui em São Paulo, os semáforos variam de duração dependendo da localidade, pois são ajustados pra um fluxo supostamente melhorado de acordo com cada trecho. Alguns semáforos em avenidas retas e longas, são de certa forma sincronizados pra que o motorista consiga cruzar vários deles no ritmo provável que o carro chegará à cada farol aberto. Em ruas onde o trânsito é menos ágil, os vendedores de semáforo aproveitam  a pausa dos carros pra oferecer alguma coisa. Apesar da variação de tempo dos semáforos, tirando uma média, o farol fica 1 minuto fechado com os carros parados. E vamos supor que quando o farol abre, permanece aberto por uns 2 minutos. Então, de cada 60 minutos (1 hora), cada ciclo tem 3 minutos (2 minutos abertos e 1 minuto fechado). Portanto são possíveis 20 desses ciclos por hora. Como em cada ciclo de 3 minutos apenas 1 minuto é usado pra vendas, se tiverem 20 ciclos por hora, serão 20 minutos de vendas nessa hora, no total.

E quantos carros será que ficam parados durante cada minuto de venda? Alguns vendedores percorrem entre duas fileiras de carros, distribuindo os pacotinhos pelo retrovisor para uns 20 carros, sendo 10 de cada lado. Sendo 20 minutos por hora, são, então, 20 carros x 20 minutos = 400 carros alvos por hora. Mas, claro, nem todo motorista compra as balas oferecidas. Vamos supor que a cada 20 daqueles carros enfileirados no minuto possível de venda, apenas 2 carros comprem. Isso é 10% do público. Então, na verdade dos 400 carros alvos em 1 hora, são apenas 10% de compradores, o que resulta em 40 carros que efetivamente compram as balas. E em termos de dinheiro, o que isso significa?

As balas são vendidas à R$ 1,00 e imagino que, se compram as balas pra revenda, elas devem ser pelo menos a metade do preço ou 1/3 do preço de venda, senão não seriam lucrativas. Sejamos pessimistas e pensemos que as balas são compradas por R$ 0,50 e vendidas pro R$ 1,00 aos motoristas. Se são 40 compradores por hora, são, então, 40 x R$ 0,50 = R$ 20,00 por hora. Vamos supor que o vendedor siga o padrão de 8 horas de trabalho por dia. Isso representa 8 x R$ 20 = R$ 160,00 de lucro por dia. Se ele trabalhar por 22 dias por mês (folgando em todos os sábados e domingos), ele lucra 22 x R$ 160,00 = R$ 3.500,00 por mês.

Que tal? É uma boa renda? E isso porque fomos pessimistas na quantidade de compradores e no preço de compra e venda dos produtos. Imagine se esses números fossem melhores. Por exemplo, se existisse uma espécie de grupo que compre as balas em atacados, pra obter preços mais baixos, eles poderiam ter o dobro de lucro nas vendas, indo pra R$ 7.040,00 por mês.

Seja qual dos dois salários mensais for, são bons salários pra algo que nem imaginávamos que fosse lucrativo. É um trabalho relativamente simples na estrutura, que exige um certo pique pra correr entre os carros e disposição física e emocional pra permanecer todo dia naquele mesmo contexto. Vamos lembrar também, que às vezes, tem impossibilidades de trabalho, como os dias de chuva ou situações onde o fluxo de carro esteja alterado por algum motivo incomum como acidentes ou evasão dos moradores pela cidade por motivo de viagens em feriados e coisas similares.

Agora vem um trunfo. Se o vendedor quiser burlar o desperdício de tempo nos semáforos, ele não precisa ficar parado durante aqueles 2 minutos que os carros circulam. Ele pode partir pro farol que se opõem com aquele e é como se, na prática estivessem sempre pegando faróis abertos pra vendas. Mas sendo generoso, vamos deixar ele descansar 1 minuto a cada 1 minuto trabalhado e faremos então só proveito de vendas em mais 1 minuto ao invés de mais 2. Então ele teria o minuto principal mais outro minuto de venda, virando então 1 x a mais de R$ 7.040,00, dando um total de R$ 14.080,00. Bom salário mensal? E se ele resolvesse trabalhar os 30 dias no mês, ao invés de apenas 22 dias? Ele lucraria R$ 19.200,00 pelos 30 dias de trabalho no mês.

Mas, conversando outro dia com algumas pessoas, me abriram outras questões sobre isso, sugerindo que existem fatores que não percebemos de primeiro momento e que podem alterar esses dados pra baixo, inclusive do ponto de vista do custo dos produtos, viabilidade de se conseguir vender sempre pra 10% dos motoristas em todos os ciclos e outras coisas assim. O que você pensa disso?

Certa vez eu estava em um espaço que dava visão clara pra duas grandes avenidas aqui em São Paulo e fui surpreendido por um rapaz que desceu de um carro super luxuoso, pegou uns itens no porta-malas do carro, pegou uma cadeira-de-rodas, sentou-se e foi pro semáforo vender balas. Era 5h40 e ele certamente ia pegar uma multidão de carros de gente que estava indo para o trabalho. Isso me fez pensar ainda mais na validação dessa teoria. Eu não estou dizendo, porém, que todos os vendedores de semáforo tem a mesma situação. Sei perfeitamente que muitos (senão a maioria ou até mesmo todos) os que estão oferecendo produtos no semáforo, estão pelo menos em condições financeiras difíceis e tantos outros são, essencialmente, moradores de rua, sem nada, que tentam tirar alguns poucos reais com essas pequenas tentativas de vendas, que às vezes se misturam com os pedidos de doação / ajuda. Mas diante de teoria tão curiosa e esses cálculos todos, não podia deixar de compartilhar a ideia pra ficarmos aqui pensando e tentar desvendar esse suposto mistério.

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Rodrigo Meyer

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