O Brasil atual: muito além da pobreza financeira.

A imagem que ilustra este texto é uma adaptação de parte das gravuras de Gustave Doré em “A Divina Comédia” (1861-1868), onde vê-se Charon chegando para transportar almas través do rio Acheron para o Inferno.

Estamos nos aproximando das próximas eleições do Brasil e, devido aos acontecimentos dos últimos anos na política nacional, estamos atualmente num cenário cada vez mais deplorável, enquanto alguns fingem que querem arrumar tudo isso, porque são covardes demais pra dizer o que realmente querem, ao lado estão os corruptos nadando solto, não investigados ou completamente ignorados pela pseudo-Justiça que passou os olhos por estes, rindo da cara dos apoiadores cegos e/ou cúmplices do crime, usando a velha estratégia de apontar pra qualquer inimigo convenientemente inventado, pra desviar a atenção de si mesmos e de seus atos criminosos. De um lado está o brasileiro médio de direita, o clássico racista, xenófobo, machista, analfabeto político, viciado em dinheiro e violência, se masturbando mentalmente diante do caos. Do outro lado, diametralmente oposto, está uma esquerda cansada de tanto tentar um caminho que, pelo menos, seja tolerável pra todos. Tal tarefa, nada fácil e, por vezes, nada coerente, espantou muitas pessoas pra fora das políticas convencionais e abriu portas para um celeiro de problemas que estavam encubados na sociedade.

O Brasil sempre foi um país de péssima qualidade de ensino e estrutura social. Mesmo nos tempos áureos de quando ‘ensino público’ significava ensino de melhor qualidade que o ensino particular, já se tinha uma defasagem brutal sobre o necessário. Não atoa, nos tornamos o que nos tornamos. Estamos caindo de um abismo dia após dia, tentando nos enganchar em alguma pedra que nos freie um pouco ao menos, porém caímos com velocidade suficiente pra levar até mesmo as pedras do caminho pro fundo do abismo.

Em algum momento, no final de 2015 e 2016, o Brasil se deparou com um teatro que já estávamos à espera de acontecer. A direita brasileira, inconformada em não ter mais espaço pra agir na corrupção com tanta liberdade, começou a forçar este espaço, removendo à força as barreiras. Deu-se início a derrubada do governo que mais investiu em mecanismos de investigação e combate à corrupção. Foi exatamente isso que culminou na cartada final de recusa do governo de Dilma Rousseff e também da candidatura da próxima figura provável a substituí-la em uma eleição, Lula. Assim que os corruptos encontraram algum pretexto para a derrubada desta barreira, vestiram-se de péssimos atores e se posicionaram como heróis pra uma classe de pessoas que ou não compreendiam absolutamente nada de política ou eram perfeitamente cúmplices dos crimes ali praticados em nome da pseudo-necessidade de combater uma má gestão política ou os rumos do país. Atrelados a discursos que transbordavam chavões e frases decoradas criadas pelos seus ventríloquos, os bonecos manipulados se tornaram muitos. Foi basicamente como ver um aglomerado de moscas encontrando fezes em abundância com respaldo forjado da constituição, a mesma constituição que foi rasgada na ocasião do golpe político nomeado de ‘Impeachment’, para dar um ar de legalidade ao feito e dar algum alívio pras marionetes que, de tão covardes, não conseguiriam admitir as verdadeiras intenções, ideologias e modus operandi na vida, já que, pra estes, a fachada é muito mais importante que a realidade. Pra este tipo de gente, não há problema algum em racismo, homofobia, machismo, xenofobia, ódio de classes, corrupção e falsa religiosidade, pois só o que os incomoda é ter que nomear todas essas características com estes reais nomes, ao invés de máscaras inúteis que nem eles e nem os opositores acreditam ou se importam. No fim, só estão tentando completar algum capricho diante do próprio medo de se classificarem como realmente são. De maneira análoga (e isso inclui até mesmo muitos dos já citados), ocorre com os pseudo-cristãos que, na hipótese de retorno de seu suposto ídolo central (Jesus Cristo), o odiariam e o perseguiriam até a morte por tudo que ele é e representa. Ironicamente, as pessoas que mais abominam a ideologia de Cristo, estão entre os que se dizem cristãos. Essa aparente contradição, na verdade se explica pelo fato de que todos estes, na verdade, são completamente ateus, mas encontraram um esconderijo parcialmente conveniente atrás dessas etiquetas, como uma forma de continuar a exercer de forma compulsiva a hipocrisia.

Mesmo que você alegasse à eles que estes rótulos falsos são desnecessários, eles não teriam a minúscula coragem de abandoná-los na hora de forjar um igualmente desnecessário personagem social. Para eles, esse joguete de palavras, bordões, máscaras, etiquetas, nomes e denominações, são puro prazer. É como o prazer de ter algo simples que não exige complexidade de pensamento algum. É o prazer obtido em não precisar pensar uma senha de 8 dígitos segura, enquanto ainda puderem usar uma senha altamente insegura de 2 dígitos. É o mesmo prazer de só terem que se preocupar com a primeira e única definição do dicionário sobre um determinado verbete e, assim, não terem que lidar com a complexidade de significados que ‘fobia’ traz como sufixo de palavras. São as mesmas pessoas que gostam de polir a ignorância com cera de demência, ao tentar dizer que hidrofobia é somente ‘medo de água’, quando na verdade, um material hidrofóbico pode ser, por exemplo, também um material que repele a água. Para os menos esclarecidos, por pura conveniência em continuarem ignorantes e simplistas, um tecido hidrofóbico seria um tecido que tem medo de água, pois tudo que eles aceitaram convenientemente aceitar é que ‘fobia’ só pode representar medo, pois assim facilita a tentativa de inventar argumentação para a ‘homofobia’, por exemplo, bastando citar, pateticamente, que não possuem medo algum de homossexuais, portanto não sendo homofóbicos. Este foi um simples exemplo da estrutura de pensamento que percorre as mentes bizarramente fracas e/ou desonestas dessa massa de manobra que espuma ódio e tristeza, cujos membros continuam deprimidos e infelizes tanto em ver a si mesmos longe de qualquer plenitude, como por ver que suas presenças só visam destruir a conquista alheia. Cientes de que nunca ganham por lado nenhum, precisam, constantemente, compensar essa insatisfação, inventando metas constantes de “vitória”. Para alguns, vencer é ver o opositor atacado, é ver uma feminista estuprada, é ver um pobre morto, é ver um libertário agredido, é ver um opositor preso ilegalmente, é todo mundo odiado por exporem as feridas da sociedade que os frouxos não possuem coragem e/ou competência de resolver.

Atualmente passamos vergonha internacional, por figurar em todos os noticiários  estrangeiros como o país que chafurda no terrível contexto absurdo de ter que escolher se elege pessoas tentando um plano de governo ou elegem uma figura que, sozinho, por conta própria, se orgulha em dizer que não tem nenhuma capacidade de governar, nenhum conhecimento sobre política e que só estará presente em entrevistas e debates para responder estritamente o que achar conveniente, já que notou que passou vergonha imensa ao não saber sequer responder perguntas simples e banais sobre a realidade política do país e as metas e/ou pensamentos para o suposto governo pretendido com estas Eleições de 2018.

Enquanto o brasileiro conquista novos níveis de recusa em vários países da Europa e do mundo, por conta das insanidades ditas, apoiadas e replicadas dentro e fora da internet, os próprios indivíduos que são o motivo desses problemas, estão tão cegos sobre sua própria condição de ignorantes que jamais teriam como parar, sentar e refletir o quanto são inaptos a opinar, pensar, planejar, decidir ou votar sobre qualquer assunto que envolva a realidade. Antes fosse isso uma mera ofensa, dessas que se joga em cima do balcão de um boteco. Seria menos trágico. A realidade é que, ter que dizer essas verdades, não me agrada em nada. É deplorável e desesperador ter que constatar que o brasileiro médio é uma fábrica tragicômica de problemas. E é tão real, que o simples fato de eu explicar isso, faz brotar pessoas argumentando que eu só digo isso pra tentar atacá-los ou adjetivá-los. Mal sabem que, o meu maior sonho, assim como de muitos outros é justamente não precisar mais descrever o brasileiro médio da forma como ele tem sido até hoje. Quisera eu poder escrever um texto ainda em vida, com a grata oportunidade de descrever o brasileiro como alguém que verdadeiramente recusa corrupção, que tem autonomia de pensamento, que consegue argumentar com lógica e se abstém do uso de falácias, bordões, frases fabricadas / frases de efeito, que consegue interpretar um texto ao invés de se transformar numa máquina veloz de deturpação, dedução rasa, equívocos e desprezo pela Literatura, Filosofia, Sociologia, Economia, Política, Ciência, etc.

No ritmo que as coisas estão, eu não tenho muita esperança de que eu verei o Brasil melhorar nos aspectos mais urgentes. Continuaremos a ver as pessoas voltarem pra antes da Idade Média, onde ainda se discutia se a Terra era plana ou não. Estamos cercados de pessoas odiosas, que não somam absolutamente nada em setor nenhum, que pesam imensamente nas costas de todo e qualquer outro ser vivente, ainda que pesem mais em uns que em outros, conforme o nível de contraste de prática e pensamento. Vivemos em tempos onde as pessoas ainda precisam de rótulos e, pior que isso, de rótulos que expressam o oposto do que são. A humanidade cruzou tantas e tantas eras e parece que, de tempos em tempos, regredimos ao passado remoto. Talvez seja isso que explique como tardamos a descobrir estrelas que as civilizações antigas já conheciam bem. Talvez esse seja o motivo de tecnologias antigas precisarem ser redescobertas por já terem ficado perdidas e desaprendidas. Idiomas são mortos, livros se perdem, habilidades são esquecidas e, no final das curtas contas, parece que o ser humano não sabe mais usar a única parte do corpo que verdadeiramente teria algum potencial especial: o cérebro. Estamos abrindo mão da nossa melhor ferramenta de construir um mundo decente que nos provenha conforto e facilidades, em detrimento do nosso vício de continuarmos sendo usados, feito as pessoas com distimia que são carregadas pelas situações, sem um posicionamento marcante ou autônomo. O ser humano parece estar dopado, sendo levado pelas asneiras de meia-dúzia de infelizes que querem o dinheiro e a disposição deles gastas em propagandas “espontâneas” e gratuitas, tal como ocorre na vítima de Síndrome de Estocolmo, que se dispõem a falar bem de seu próprio opressor, simplesmente por estar completamente incapacitada de enxergar sua própria realidade e condição. Na ausência de sensores que lhes acusem a realidade, as pessoas boiam nesse mar de sangue e ignorância, sentindo-se no controle de tudo e dando como “prova” desse controle, as linhas que não partem de suas mãos, mas das mãos dos ventríloquos que lucram (e muito) às custas dos apoiadores. Mais intrigante do que ser um ignorante desonesto rico é ser um ignorante desonesto pobre. Meia dúzia ocupa as pseudo-lideranças e o restante da massa de manobra continua ocupando a base da pirâmide, longe de qualquer verdadeira qualidade de vida.

Não é de se espantar que, nos últimos anos, houve uma onda imensa de migração de brasileiros reacionários, pseudo-patriotas, tentando a vida no exterior, bem longe da imundice que ajudaram a disseminar no Brasil, mesmo sabendo que lá fora teriam condições deploráveis de trabalho e ainda teriam que se contentar calados com governos expressamente contrários a sua ideologia. Os mesmos brasileiros que gritavam contra o projeto “Bolsa Família” no Brasil, simplesmente por este ter sido ampliado pelos governos opositores, desejam ardentemente receber similares benefícios nos países alheios, sem nenhuma objeção ou constrangimento. Isso reflete que a questão nunca foi sobre um verdadeiro posicionamento sobre política ou administração, mas simplesmente o resultado randômico de serem papagaio de piratas a vida inteira, marionetes em território nacional, em um contexto específico forjado que evidenciou que eles foram jogados a vida inteira contra um país deteriorado, contra monstros imaginários, para gastarem o tempo guerreando ao invés de notarem que estavam sendo saqueados e tendo seus direitos e valores eliminados. Com o tempo, se deram conta que andar pra trás não ajudava a chegar em objetivo nenhum e que, na verdade, muitos que se achavam ricos, eram tão pobres quanto os demais a quem eles insistiam em desprezar, odiar e enxergar como inimigos.

Hoje, de forma tragicômica, figuram no exterior, pessoas que largaram seus títulos, diplomas,  faculdades, carros, casas e salários, pra ir viver com rendas mais baixas do que os piores salários praticados no Brasil, simplesmente pra poder ostentar mais uma etiqueta estúpida e ilusória de “morador da Europa”. Será que sabem estes que entre os próprios europeus existe a fuga massiva em busca de outras possibilidades na vida, que não aquelas migalhas que o brasileiro está idolatrando? Em Portugal, por exemplo, os jovens, há muito tempo, saíram pra outros países da União Europeia em busca de trabalho, estudo e outros cenários de existência que lhes parecessem um pouco mais dignos ou de acordo com seus ideais. Ironicamente, nos destinos pra onde estes portugueses normalmente iam, estão os jovens nativos que, igualmente, optaram por sair dali e ir pra outros destinos. A migração em si não é problema algum. As pessoas estão sempre em busca de encontrarem-se em algum canto do mundo. O triste mesmo é a hipocrisia de muitos brasileiros que, vão ser imigrantes na casa alheia, mas despejam ódio e xenofobia contra os imigrantes que chegam no Brasil. Muitas vezes, são os mesmos que aplaudem a expulsão de imigrantes em todos os países, mas se cagam nas calças de serem eles mesmos deportados pra fora, por estarem ilegais em terra alheia, desempregados, implorando pela ajuda e atenção de outras pessoas, apesar de, eles mesmos, nunca terem ajudado ninguém no próprio país em que nasceram. Os mesmos que fechavam os vidros dos carros quando se aproximava um vendedor ou morador de rua, agora sentem-se rejeitados quando um estrangeiro não lhes dá plena confiança se notarem que trouxeram de fora a imundice do fascismo, da falta de educação, do desrespeito, do “jeitinho brasileiro” de descumprir o certo, do machismo, da arrogância, da corrupção e da, já famosa, posição de povo mais mal-educado de toda a internet. O que será que espera esse povo, que não consegue administrar a própria contradição e quer decidir sobre a administração de um país inteiro? Como querem conquistar coisas melhores na vida, se tudo que fazem é cuspir mensagens prontas de teor motivacional, sem que acreditem ou pratiquem uma única vírgula daquilo? Como querem colher salários melhores, se estão lutando pra destruição da própria educação? Como esperam se integrar em uma cultura e sociedade lá fora, se carregam vícios primariamente incompatíveis com o que lá se desenvolve como valor mínimo? Como podem querer emplacar seus diplomas escolares, se, ao mesmo tempo, querem contestar a própria Alemanha sobre o fato do Nazismo ter sido um movimento de direita? Que tipo de terraplanistas são estes que vão querer ocupar cargos de astrônomos em terras alheias sem serem vistos como uma falha social bizarra e aleatória? O que esperam estas pessoas somar se o máximo que fazem é procurar ignorantes do mesmo naipe e grau de distúrbio, pra disseminar seus ódios e preconceitos em manada?

O brasileiro médio não é levado a sério nem dentro e nem fora do Brasil. E se não mudar de postura imediatamente, não vai ser levado a sério nem dentro da Terra. No Brasil faltam muitas coisas, mas o dinheiro é apenas uma delas e, nem de longe, a maior.

Rodrigo Meyer

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O que significa ser libertário?

Ser libertário é ter o pensamento ou a ideologia voltada para a busca e/ou preservação da liberdade dos indivíduos. Exatamente por ter essa premissa de liberdade, que ser libertário não significa deixar livre as pessoas que privam a liberdade alheia. Às vezes, algumas pessoas lançam a ideia de que fascistas ou pessoas em geral que privam a liberdade dos outros, deveriam ter a mesma liberdade de serem e fazerem o que quiserem. E essa tentativa falha de argumento só reforça do porquê fascismo e ignorância são indissociáveis. O fato estrito, simples e direto é que ser a favor de liberdade é exatamente não compactuar com os que se posicionam contra essas liberdades. Fascistas não passarão!

Ser libertário é fruto de uma visão de mundo que nos cobra, automaticamente, uma conduta social bem definida. Uma vez que se entende aquilo que o mundo é, vê-se, também, o que é aceitável e inaceitável em um convívio entre os seres. Sendo o mundo muito diverso, há também diversidade nas composições familiares, na personalidade das pessoas, na formação escolar e educacional, na influência de parentes e amigos, na cultura local, na política, no nível de intelectualidade e de compreensão da realidade e dos assuntos, assim como inúmeros outros fatores que podem transformar um indivíduo em uma pessoa diferente das demais. A única coisa que há em comum em indivíduos mentalmente saudáveis é o desejo natural de manter-se livre. Qualquer desvio do desejo de liberdade já é reflexo de um desvio psicológico, podendo ser originado de algum trauma, complexo ou mesmo confusão decorrente da incompreensão da realidade ou do tema.

Fomentar um pensamento consistente de respeito e bem-estar aos seres, depende, sobretudo, de como as pessoas se apercebem da importância e do significado da própria existência de cada ser e do convívio com outros. Se o indivíduo não estabelece uma conexão mínima de empatia com outro ser, diverge do que é natural e saudável, tanto psicologicamente quanto sociologicamente. Todo estudo que já se tenha feito sobre as relações dos seres, passa, necessariamente, por esse senso de preservação da dignidade, da liberdade, do bem-estar, do direito a vida e ao desfrute de seus potenciais. Qualquer pensamento ou ação que prive os seres dessas realidades natas, compõem uma opressão, um desvio das premissas básicas. Algumas pessoas entendem isso por extensão direta da empatia que possuem e outras, às vezes, tardam a admitir esse impulso natural, precisando do reforço, às vezes, do embasamento lógico e técnico. Mas, de toda forma, ambos chegam a mesma conclusão, pois isso não é questão de opinião individual, mas sim uma premissa natural intrínseca a todos os seres. Exatamente por isso que, indivíduos que figuram em fascismo e opressões em geral, são indivíduos com perturbações e desvios de conduta, de ordem psicológica, podendo ter a origem dessa visão ou conduta em uma variedade de fatores.

Muitas vezes o ser humano adoece de algo chamado ‘hipocrisia’. Podendo se resumir, grosseiramente, como sendo o vício em mentir, a hipocrisia é responsável pela contradição de pessoas que, por exemplo, dizem gostar de animais, ao mesmo tempo em que podem aceitar matá-los para um raso benefício próprio. Nesse caso em específico, entende-se que fatores culturais podem forjar uma naturalidade nesses hábitos coletivos, dando uma falsa sensação de “normal” e “correto” dentro do julgamento que o indivíduo faz de si mesmo naquele contexto. Isso fica ainda mais claro quando olhamos pra história do mundo e vemos que as práticas sociais deploráveis que eram propagadas como “válidas” por determinados grupos, épocas ou governos, só se mantiveram aceitas por outras pessoas, devido a extensa propagação desse modelo artificial como se fosse natural. É exatamente esse o caso de episódios como os raptos de crianças que eram filhos de presos políticos, para serem adotadas por famílias que eram simpatizantes da ideologia dos raptores em questão. Dessa forma, essas crianças eram nutridas com o mesmo vício de pensamento, as mesmas ignorâncias e falácias, preservando, assim, a perpetuação dessa sucessão de adoentados.

É como diz aquela frase: “uma mentira dita mil vezes, se torna uma verdade”. Essa frase refere-se a ideia de que aquilo que se torna tão comum nos ouvidos e na sociedade, acaba não sendo mais refletido pelas pessoas. Tudo aquilo que soa como natural, deixa de ser raciocinado. Ninguém para pra contar quantas vezes piscou os olhos ou qual é o processo específico que faz pra respirar. Tudo isso, por ser natural e intrínseco ao ser humano, é feito de forma automática pelo corpo, não demandando nenhuma interferência do indivíduo. De maneira similar, nas práticas sociais, muita coisa é replicada inúmeras vezes até se tornar tão comum que é vista e aceita sem resistência, sem filtro, sem análise.

Do que conhecemos da conduta humana e da própria história vivida e registrada, o ser humano é facilmente moldado a uma realidade diferente, bastando que seja inserido nesse contexto desde sempre e em um coletivo relativamente fechado e abrangente onde todos ou quase todos seguem, basicamente, o mesmo padrão de “realidade”. Isso é o que explica, por exemplo, as diferenças culturais entre países. Se crescemos em uma família e país onde vestir meias com chinelo é o hábito em comum de todos, provavelmente uma criança nascida nesse cenário seguirá a mesma prática, a mesma tradição. Mas isso não significa, de maneira nenhuma, que as pessoas tenham alguma razão individual pra decisão de usar as meias. Elas podem estar apenas seguindo a tendência coletiva e a tradição desse ato, sem questionar, já que todos que o fizeram, também não questionaram. Mas pra quem não nasceu num ambiente com a mesma influência, o uso das meias com chinelo pode parecer incomum, estranho ou até desconfortável. Tudo é uma questão de hábito e aprovação coletiva.

Sob essas mesmas premissas, um passarinho preso em uma gaiola desde sempre, pode ser levado a acreditar que aquele é o padrão de vida, o ápice de seus potenciais como pássaro. Se ele tem as asas cortadas e é engaiolado, não terá noção do que é expressar-se livremente em voo, pra ser aquilo que ele nasceu pra ser: um pássaro livre, que voa e que expressa seu potencial e sua característica própria. Para o ser humano, não é diferente. Os modelos sociais que privam o indivíduo de sua dignidade, liberdade e potencial, estão transformando esse indivíduo em alguém que pode vir a se acostumar com o padrão estabelecido pra si de pouca valorização. Mas, como o ser humano é um ser inteligente e permeia sociedades próprias que ele mesmo constrói, inclusive em subgrupos dentro de cada sociedade, ele acaba por disseminar reflexões e ideias que recondicionam os indivíduos a refletir sobre suas realidades, seus direitos, suas dignidades, seus valores e potenciais. As ideologias e políticas libertárias carregam exatamente esses objetivos para reforçar os princípios humanos em geral.

Em sociedades adoentadas, “comandadas” e arrastadas por políticos e membros mais convencionais da população, é comum vermos as pessoas desenvolverem uma certa desmotivação, perda da autoestima ou da esperança, sentindo que algo não está tão bem quanto elas acham que deveria estar, apesar de estarem, de certa forma, “acostumadas” com a escassez de vida que lhes cabe. Na verdade essa percepção de incômodo ou de incompletude é justamente a fagulha na memória e no instinto básico humano da busca natural e essencial de valores humanos como a dignidade, liberdade, bem-estar, etc. Se um indivíduo nota que na sociedade existem classes diferentes de pessoas, cabe a este refletir e esmiuçar as origens e motivos dessa diferenciação social. Porque algumas pessoas cometem crimes e ficam impunes e outras são presas? Porque algumas pessoas são mais aceitas nos espaços públicos e outras menos? Porque algumas pessoas recebem mais credibilidade no que falam do que outras? Porque algumas pessoas figuram massivamente nas mídias como exemplo de beleza, sucesso e “positivismo”, enquanto outras não? Enfim, qualquer que seja o viés da observação, é preciso questionar essa distinção e separação de grupos humanos. Quase sempre a origem e motivo disso está justamente nesse padrão de opressão plantado e perpetuado, tentando reduzir certos indivíduos, grupos, ideias ou características, para enaltecer aqueles que fabricam esse modelo artificial de separação.

Da mesma maneira, quando alguém aprisiona um pássaro na gaiola, está fazendo exatamente a mesma coisa, segregando um ser por conveniência própria, para desfrutar de maneira bastante egoísta e sádica, da servidão do pássaro em troca de seu canto ou exposição controlada de sua aparência. Além disso o ato do confinamento reforça a ideia de poder e posse, uma vez que o animal subjugado em uma gaiola é fruto de uma visão distorcida onde a o animal humano exerce domínio sobre outro animal, aproximando pra si um falso crachá de importância, de poder, de posição hierárquica, etc. Há uma frase de Mahatma Gandhi (apesar das polêmicas envolvendo seu nome) que traz uma boa reflexão sobre essa analogia e correlação entre a conduta diante dos animais e os conflitos sociais de humanos contra humanos:

“A grandeza de um país e seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata seus animais.”

A abstenção da violência, da injustiça e do cumprimento cego das regras e tradições forjadas em sociedade, encaminha o ser humano, naturalmente, pra uma visão de coletividade e liberdade, onde as pessoas possam se tornar aquilo que nasceram pra ser. Mas, como já vivemos em um modelo social que replica muitos equívocos a tanto tempo, precisamos reconstruir na mente das pessoas, essa lembrança do que de fato é real ou não, o que é justo ou não, o que é natural ou não, o que é aceitável ou não. Uma das primeiras coisas que me vem na mente, quando falo nessa reconstrução, é o extenso trabalho que tem sido feito na moderna cultura da Alemanha, para varrer quaisquer possibilidades do retorno do trágico histórico de nazismo no qual o país figurou. O evento mundial que se tornou icônico pela organização, sistematização e frieza das práticas, deixou os próprios alemães envergonhados com o tema. Diante dessa percepção do absurdo, a própria comunidade se organizou para se posicionar de forma eficiente contra o fascismo, o nazismo e os preconceitos em geral. As crianças são ensinadas desde pequenas, nas escolas, sobre as mazelas desse período histórico, além de conviverem com inúmeras políticas públicas de combate e punição a qualquer fagulha de propagação relacionada a esse período nefasto. Determinadas expressões ou gestos, podem conferir prisão aos indivíduos. Felizmente, em um levante épico, a Alemanha pós-guerra conseguiu se reconstruir em um modelo de sociedade altamente receptivo a diversidade, sendo um dos países com maior expressão desse senso de respeito a individualidade humana. Essa mudança de postura em toda uma sociedade, só foi possível graças ao extenso trabalho de combate ao fascismo e a reeducação das novas gerações desde pequenas. Se hoje eles desfrutam de um espaço completamente diferente do período nazista, é justamente pela decisão consciente dos grupos de indivíduos de agir para frear esses desvios de conduta e pensamento das gerações anteriores.

Ironicamente, os Estados Unidos, apesar de ter sido o principal destino de milhões de fugitivos da era nazista, hoje acomoda na sua sociedade uma descontrolada proliferação de grupos racistas, xenófobos e nacionalistas, incluindo a expressão declarada de neonazistas ou de grupos específicos como a Ku Klux Klan. Essas contradições culturais  talvez se expliquem exatamente pela ação e inação a cada um dos países. Enquanto na Alemanha pós-guerra se tentou combater os problemas, nos Estados Unidos, parece ter havido uma ação menos engajada e mais flexível, provavelmente devido ao modelo de leis que dá brecha para disseminação de discursos e ideologias de ódio, na tentativa ilusória de que essa liberdade de expressão inclui qualquer expressão. Esse equívoco básico com um desfecho prático trágico, demonstra exatamente porque ser libertário não significa, de maneira nenhuma, ser permissivo com quem é contra a liberdade. O combate aos opressores e aos que lutam por ideologias de combate a liberdade humana, não podem estar livres para tal. Se queremos liberdade, devemos apoiar a liberdade e não o oposto dela. Ser permissivo ao fascismo e as demais opressões, não é reflexo de liberdade, sendo, apenas, o oposto deste objetivo. Entender essa lógica básica foi o que ajudou determinadas culturas e países a praticamente extirparem do seu meio os conflitos e preconceitos humanos, criando um ambiente mais próximo da liberdade e do bem-estar, afinal era esse o objetivo sincero por trás da iniciativa e é esse o desejo humano em essência, desde que ele esteja mentalmente saudável.

A luta pelo avanço das mídias e ideologias de combate ao fascismo ainda tem um longo percurso pela frente, mas já está bastante estruturada no mundo inteiro, de forma muito bem embasada e com amplo apoio popular. A cada dia que passa há menos espaço para o fascismo e ecoa cada vez mais alta a ideia de que fascistas não passarão! Diferente das divergências mais superficiais de gostos ou preferências, o combate ao fascismo é uma premissa que toca a essência do ser e, por isso mesmo, é algo que abrange facilmente todas as culturas e indivíduos, pois para a vida dos seres não há fronteira. Princípios humanos continuam sendo princípios em qualquer lugar do mundo. Aqueles que ainda figuram em opressão e desvio de conduta nesse sentido, enquadram-se tão somente em uma fatia social já classificada, já compreendida como falida, fracassada, adoentada e estúpida. O único caminho que o mundo saudável e instruído propõem a estes grupos adoentados é o remédio da reeducação pela informação e/ou a demonstração clara e objetiva de que tais indivíduos não serão tolerados livremente nos meios de convívio, enquanto insistirem na propagação dessas fraquezas. O mundo é daqueles que evoluem. Quem se acomoda na ignorância, colhe os efeitos disso, permanecendo marionete de outros, passando vergonha, perdendo tempo, felicidade e bem-estar. O que pode ser mais doentio do que atirar no próprio pé e sentir orgulho disso? Reflita.

Rodrigo Meyer

Nossas prioridades dizem muito sobre nossos valores e sentimentos.

Não é preciso ir muito fundo na observação pra saber que as pessoas tem prioridades diferentes. E os motivos por trás disso podem ser variados. Algumas pessoas priorizam o trabalho ao invés de relacionamentos, por exemplo. Outras pessoas, priorizam aparência sobre conteúdo. Há quem priorize o prazer acima das responsabilidades, há quem faça o inverso e há quem tente dar igualdade pra esses aspectos. Mas de que forma essas características podem contar algo sobre os valores e sentimentos das pessoas?

Se duas pessoas estão hospitalizadas e escolho visitar uma delas, crio uma prioridade. Se ambas estão na mesma gravidade de situação, a escolha pode ser baseada no valor ou sentimento que conferimos a estas pessoas. Priorizamos as pessoas e momentos a quem gostamos mais ou que nos dá aquilo que queremos mais. Pessoas interesseiras, por exemplo, podem, eventualmente, priorizar a companhia de quem lhe oferte dinheiro.

Outro dia, conversando com uma senhora sobre trabalho e relações sociais, ela me contava do descontentamento de receber convites para eventos que não tinha grande potencial de traçar contatos profissionais. Em resumo, se o evento não fosse recheado de pessoas influentes que pudessem lhe abrir alguma porta no âmbito profissional, ela simplesmente não tinha tempo, interesse ou paciência pra ir. Reclamava, inclusive, de quem prestava o convite a tais festas que ela julgava serem inúteis, afinal, sua prioridade naquele momento estava em trabalho e não em pessoas, amizades e diversão.

Deveria eu ter dito, com todas as letras, que a postura dela espantava as próprias oportunidades de trabalho. Costumo dizer que ‘suscitar trabalho exige não falar de trabalho.’ e que a melhor maneira de ser convidado para atividades profissionais é mostrar-se bom amigo, sincero e sem interesses. É muito mais sensato que as pessoas te valorizem como pessoa primeiro e que, por isso, estejam abertas a te incluir nas questões de trabalho. Quem vive por interesse, raramente percebe que nem todas as pessoas ao redor são como ela e que, muitas vezes, ela já foi desmascarada a tanto tempo que, por isso mesmo, há tempos não é convidada pra nenhum dos eventos que ela priorizava em razão dos potenciais contatos profissionais.

As pessoas precisam distinguir ‘relações de amizade’ de ‘relações profissionais’ ou, pelo menos, entender que relações profissionais, quando através de amigos, surgem depois da amizade preestabelecida. Logo, se quiserem ter benefícios advindos de qualquer relacionamento, precisam compreender melhor quem são as pessoas com quem estão lidando e quais as verdadeiras possibilidades ou prioridades que estão em jogo.

As prioridades das pessoas, apontam o que é que elas valorizam mais. Conto por experiência própria que as pessoas, geralmente, pouco se importam com as outras. Somos uma sociedade materialista e egoísta. As pessoas estão muito mais centradas em seus próprios interesses financeiros e bem-estar pessoal temporário do que em construir relações com o mundo, com as pessoas e com os valores que ajudam a mais gente viver melhor. Não é preciso ser um gênio pra ver isso.

Centenas de vezes estabeleci convites pra que as pessoas me visitassem, desde que mudei de casa. Queria que os amigos dividissem comigo meu momento de alegria pelo meu novo espaço de trabalho e moradia. Algumas pessoas se prestaram a isso e vieram olhar nos meus olhos novamente. Outras, pra evitar o desprazer de visitar quem elas pouco se importavam, simplesmente ignoravam a situação e seguiam suas vidas. Por vezes, entediadas em suas casas, mostravam que bufar de tédio ainda era menos ruim do que convidar um amigo pra sair, afinal, pra elas, esse “amigo” aí era qualquer coisa menos isso. Assim você descobre, facilmente quem são as pessoas que estão ao seu lado de verdade e as que só fingem proximidade enquanto você oferece o que elas queriam de fato. Por vezes queriam apenas dinheiro, bebida ou suas habilidades profissionais.

Pergunte-se onde estão as pessoas quando você está pobre, doente, morando longe, solitário, deprimido. As pessoas que queriam somente o oposto disso tudo e não a sua amizade, elas somem automaticamente. As que queriam sua amizade, sem interesses, continuam por perto, mesmo se você estiver na pior. E quando estamos felizes, saudáveis, atraentes, bem resolvidos financeiramente, as pessoas interesseiras brotam até dos bueiros para tentar uma reaproximação. Quando temos o que elas querem, elas aceitam cruzar metade do planeta só pra ir buscar essas migalhas. Triste.

Independente de como estejamos na vida, precisamos filtrar com cautela as pessoas com quem nos relacionamos. A maioria delas estão pelo mundo usurpando umas às outras, da forma que conseguem. Terminam sempre infelizes, acompanhadas de pessoas igualmente falsas em relações superficiais que não entregam nada além daquela pequenez que elas aspiravam desde o começo como prioridade. Essas pessoas descobrem, às vezes, quase sempre tardiamente, que essa prioridade delas não era a melhor das prioridades pra se ter.

Sempre vou me lembrar de quantas vezes me procuraram apenas pra pedir ajuda financeira. Pra algumas pessoas eu só tinha serventia pra isso e elas jamais pensariam em dividir uma atividade, uma saída pra beber uma cerveja ou uma conversa. Para essas pessoas, o dinheiro é prioridade. Se sobrar tempo elas fazem amigos reais. Para mim, a prioridade é fazer amigos. Se sobrar tempo penso em dinheiro. E com certeza, pessoas interesseiras não tem espaço na minha checklist. Qualquer coisa que eu faça no mundo é mais importante do que atender aos anseios de pessoas interesseiras. E ria comigo, por saber que muitas dessas pessoas buscavam migalhas, pois eu não era uma pessoa bem-sucedida. Pra essas pessoas, qualquer troco de pinga valia mais que uma amizade sincera. Pobre dessas pessoas que agora ficam sem o troco de pinga e sem a amizade.

Prioridades são grandes reveladores de nossos valores. As pessoas se mostram por dentro, quando, por exemplo, preferem namorar uma pessoa bonita por fora e feia por dentro. Mostram que se importam mais com a embalagem do que com o conteúdo. O prejuízo é todo delas, ao terem que conviver com um entulho embrulhado em papel de presente. Pra mim, vale mais encontrar uma pessoa bonita por dentro, independente de como seja sua embalagem. O benefício se torna todo meu.

As pessoas também se revelam interiormente, quando preferem perder um emprego do que serem coniventes com um preconceito, uma postura errada, uma fraude, etc. Quem se cala diante de um ato errado para manter seu emprego está dizendo que seu emprego vale mais que a honestidade e o respeito, por exemplo. Cada um é que sabe quais são suas prioridades. O mundo certamente seria um paraíso se as pessoas não tivessem essas podres prioridades. Eventualmente, problemas surgiriam, claro, mas seriam lidados sem conflito, sem desprazer, sem pisar ou usar os outros e sem colocar dinheiro, poder ou influência social na frente do respeito humano, do bem-estar físico e psicológico das pessoas.

E você? Quais são suas prioridades? Você atira no próprio pé apenas pra não deixar de atirar? Ou você é daqueles que valoriza mais a integridade de seu pé do que um banal e desnecessário disparo, ainda mais se for contra si mesmo? Pense sobre isso e vai ver que, todo aparente benefício passageiro e superficial, não leva ninguém a desfrutar de momentos realmente bons. Existe uma ilusão de vitória e bem-estar nas pessoas que tentam extrair somente benefícios egoístas das relações. No final das contas elas terminam sempre vazias, tristes e cercadas de pessoas que não as valorizam por dentro. Além disso, viver e propagar esse modelo, só faz com que o ambiente ao redor seja igualmente tóxico e completamente desinteressante. Em qual realidade você quer viver? A sociedade é apenas a soma dos indivíduos. Se a sociedade não é interessante, a culpa está em cada indivíduo dela. Se cada pessoa mudar a si mesma, o mundo mudará automaticamente.

Rodrigo Meyer

O círculo vicioso da autoestima.

A autoestima é a valorização que damos a nós mesmos. É a nossa percepção de que somos alguém bacana, útil, interessante ou importante. Nos sentir bem com nós mesmos é o resultado de ter amor-próprio, é o gosto de ser quem somos e de ter confiança nos nossos próprios potenciais e características. E quando não nos enxergamos assim, é porque temos baixa autoestima.

Geralmente a baixa autoestima é uma visão distorcida da própria realidade, fruto de complexos e traumas, mas, às vezes, pode ser uma análise realista sobre nossas falhas e incapacidades. Porém, independente de qual seja o caso, podemos sempre fazer algo à respeito. Se você, por exemplo, tem potencial, mas não acredita ter, devido a influência de complexos e traumas, precisa buscar reconectar-se com a realidade, superando essas interferências que distorceram sua visão de si mesmo ou da vida. Já para os que de fato estão em defasagem de potencial, devem buscar contornar a situação de forma a tirar o melhor proveito de suas outras características ou até mesmo aprimorar os pontos fracos pra que se tornem pontos mais fortes.

Uma frase diz que se você avaliar um peixe pela capacidade de subir em árvore, acreditará que ele não tem potencial. Cada pessoa tem características próprias e um histórico de vida único e, por isso, cada pessoa precisa descobrir quais são seus talentos pra se encontrar no que faz. Se você tiver baixa autoestima e permanecer em postura pessimista sobre seus potenciais, acabará como o peixe que, por não subir em árvores, sente-se incapaz, sem valor. Se você descobrir que nasceu pra ser peixe, nade, pois provavelmente nunca subirá em árvores, assim como o macaco nunca viverá no fundo do mar.

Se você luta contra o fluxo natural das coisas, você acaba tendo posturas que não te favorecem na vida. Suas oportunidades ficam escassas quando você mesmo cria situações piores em torno da sua baixa autoestima. É o caso, por exemplo, de quando uma pessoa não se sente interessante o suficiente pra despertar um relacionamento com outra pessoa e, por isso, se sujeita a qualquer coisa pra obter uma companhia. Isso faz com que ela mesma crie um efeito bola-de-neve no problema, pois a postura que tem diante do tema, faz ela ficar ainda menos interessante pra disputar os relacionamentos sonhados. Com isso, a autoestima fica ainda mais baixa e assim a pessoa vai descendo rumo ao precipício emocional. Sinal de que não funciona e a estratégia deve ser invertida.

Mais do que mera poesia, acreditar em si mesmo e se valorizar é um ingrediente indispensável na receita da vida. Se você não gosta de quem você é, do que faz ou como faz, acaba sentindo-se inseguro, inapto ou desmerecedor das coisas e, por isso, deixa de buscar, de competir, de se apresentar com orgulho e vitalidade. Nas profissões, por exemplo, quando alguém não se sente bom o suficiente, tende a recusar diversas vagas, simplesmente por achar que não está à altura do que aquilo exige. Tudo bem recusar um trabalho do qual você de fato não domina, mas não está nada bem recusar trabalhos apenas por achar que não é capaz, mesmo tendo os conhecimentos e meios pra aprender ou desenvolver algo.

Eis a importância de sermos realistas. Raras vezes alguém de fora virá nos dar um feedback sobre nossas características, potenciais e talentos. Temos que tentar ver em nós mesmos com sinceridade aquilo que conseguimos fazer bem e o que não conseguimos. Podemos nos aprimorar nas falhas e nos inspirar nos acertos. O que não podemos é desistir de buscar nosso próprio sucesso. Temos que nos perceber como pessoas capazes de realizar coisas que só nós podemos fazer ou de chegarmos um pouco mais longe do que pensávamos estar predestinados pelas nossas limitações. A vida consiste em superar desafios, desfrutar do tempo com disposição pra fazer, ser e ter. Precisamos transformar os pensamentos e nos entender cada vez mais. Portanto, lembre-se que varrer os problemas pra debaixo do tapete não vai ajudar.

Inúmeros são os casos de pessoas que deixam de cursar um idioma novo por terem complexos sobre a própria inteligência ou cultura. Por vezes, são pessoas que, acostumadas com a visão pessimista e equivocada sobre si mesmas, não se sentem motivadas a se inscrever num curso, porque pensam que não darão conta, que passarão vergonha ou que fracassarão. Por anteciparem uma mentira, acabam não abrindo espaço para a verdade. Elas não se permitem descobrir o quão longe podem ir, pois sequer acreditam em si mesmas pra chegar a tentar. Essa espiral descendente da realidade é gerenciada por uma soma de pensamentos e decisões.

Quantas vezes vi pessoas se submeterem a trabalhos mal remunerados, apenas por acreditarem que não tinham as capacidades necessárias pra obter nada de maior valor. Acostumam-se a ver o mundo de forma limitada, onde somente alguns tipos de profissões ou pessoas é que ganham dinheiro e, por não se verem como iguais, não disputam essas oportunidades pra sua própria vida. Abrem mão do sucesso, da saúde, de bons relacionamentos, de bons momentos, de boas metas de estudo e trabalho, de certos temas ou realidades. Elas mesmas acabam se afastando das coisas que gostariam de ter e, por isso mesmo, cada vez menos figuram nessas e outras vitórias. Terminam reforçando a ideia de que são incapazes pra tudo isso e, então, é gerado um monstro que cresce infinitamente.

Dessa postura de reforço pejorativo, brotam mais complexos, mais dores, menos motivação, mais casos de depressão, ansiedade, falta de amor-próprio, possibilidade pra escapes como vícios, posturas desregradas, acobertamento de falácias, adesão à grupos ou ideologias destoantes da realidade ou do necessário e um life style que não soma pra encontrar sequer as portas e ferramentas pra sair do abismo em que tais pessoas se colocaram. Se já transcorreu demasiado tempo nessa espiral descendente, fica mais difícil sair dela. Mas isso não é motivo pra desistir da saída. Muito pelo contrário. É exatamente quando descemos demais que precisamos começar a brecar e subir de volta. Não é difícil se transformarmos primeiro a nossa visão de nós mesmos. Da mesma forma que existe o efeito bola-de-neve pra queda, existe para a subida.

Quanto mais estima você tiver por si mesmo, mais aberto estará para as pessoas, a sociedade, os relacionamentos, os trabalhos, os momentos, os estudos, as possibilidades do seu futuro e, assim, sua visão de capacidades e interesses se amplia drasticamente. É quando vemos pessoas se encontrando em algo que antes nem sabiam que podiam desenvolver com grande habilidade. Nascem, então, novos escritores, novos youtubers, novos professores, novos tatuadores, novos poliglotas, viajantes indo morar e trabalhar em outros lugares e culturas. Também é desta mudança de postura que brotam amizades melhores, namoros melhores, parcerias, projetos, oportunidades, vivências e experiências que estavam esperando alguém chegar.

Busque cercar-se de pessoas que te tragam um feedback realista sobre sua personalidade, seus trabalhos, seus hobbies, seus talentos, seus pontos fortes e fracos no modo como se relaciona, como leva seu dia-a-dia, sua saúde física e mental. Dê menos ouvidos à críticas que não trazem verdades nas palavras. Muita gente é pessimista conosco por também terem complexos e, por isso, acabam aconselhando um mar de gente a não sonhar alto, antecipando um cenário de fracasso pra todos como se isso fosse a realidade. Então, antes de aceitar a opinião de alguém, consulte mais pessoas, compare opiniões, observe o tema de forma fria e neutra e descubra se realmente aquelas opiniões todas condizem com a verdade.

Como exemplo pessoal, os momentos que eu mais fracassei na vida foram exatamente aqueles em que eu dei ouvidos pra quem me depreciou. Em vários casos demorei pra perceber que a opinião daquelas pessoas eram geradas com base em preconceito, opressão e ignorância / desconhecimento. Assim, se alguém diz que 2+2=5, é papel de cada pessoa analisar se isso tem algum fundo de verdade e porque alguém chegou a tal conclusão. Não demora muito pra vermos que essa pessoa não sabe do que fala e, propositalmente ou não, está te passando uma impressão falsa sobre a realidade.

Eu tive a oportunidade de me deparar com professores de dois tipos opostos. Um grupo deles me enxergava como alguém sem rumo, sem a concentração necessária, talvez sem futuro algum. Outro grupo de professores, mais esclarecidos, com visão mais realista e complexa sobre as nuances de cada aluno, conseguiam me ver além da média, cheio de potenciais. Porque análises tão distintas? Quem era o problema na equação? A quem eu deveria ter ouvido? Entenda que não é simplesmente acatar a opinião de quem te elogia. Trata-se de buscar a realidade e compará-la com ambos os lados. Às vezes os elogios são bajulações sem base na realidade e não nos ajudarão. Temos que ponderar e nos encontrar de fato diante daqueles sinais que nos dão.

Quando alguém te aponta um caminho de possibilidades pra sua vida, você deve tentar se imaginar neles e ir em busca de tudo que possa te levar até lá. Precisamos, claro, nos esforçar pra aprender o necessário pra converter potencial em algo concreto. Mas, é muito mais fácil esse caminho se tivermos motivação e autoestima. A família, a escola, os amigos, a sociedade em geral e os espaços de trabalho devem promover esse estímulo realista pra que todos nós possamos ser aquilo que podemos. Sou grato a todos que confiaram em mim, me enxergaram e apoiaram pra que eu me tornasse alguém melhor. Aos que desejaram o inverso, por fraqueza ou desconhecimento, só lamento pela situação em que se encontravam ou ainda se encontram com eles mesmos.

Esses dias estava acompanhando um pouco da história profissional de algumas pessoas que estão em destaque no momento pelo setor de criação. É interessante ver que começaram abraçando uma atividade e que logo se descobriram mais felizes realizando outras coisas. Isso é a descoberta dos seus potenciais e a adequação a eles. Desenvolver atividades que exigem mais da sua essência, te coloca em maior sucesso, pois você trabalha melhor, é mais criativo, mais engajado, mais apaixonado e esforçado por tudo aquilo, além de sentir-se mais confiante e capaz em fazer. O prazer em ser e fazer algo está diretamente relacionado à descoberta de seus potenciais.

Mas lembre-se que, embora você tenha algumas características principais, deve desenvolver outras características novas ou aprimorar as coisas das quais não é tão bom. Aliás, sempre recomendo que as pessoas invistam, principalmente, naquilo que não são boas, afinal no que elas já sabem, não precisa de muito esforço. É o caso, por exemplo, de quando alguém se descobre ótimo artista, mas tem dificuldade em se relacionar profissionalmente ou de planejar as finanças do seu possível negócio em torno da arte. Então, cabe ao artista dedicar um esforço maior pra essas defasagens, tornando-se mais completo e, principalmente, viabilizando o seu talento pra sociedade. Às vezes talentos incríveis são desperdiçados porque as pessoas esperam que eles bastem. Não adianta ser ótimo nos artesanatos, por exemplo, se for ruim como vendedor, ruim nas relações humanas ou ruim pra lidar com o planejamento dos custos e preços de suas criações.

Ficarei imensamente feliz de conhecer mais e mais gente por aqui. Pessoas de todos os cantos, inclusive alguns de Portugal e outras regiões fora do Brasil estão dividindo um pouco do tempo e de seus próprios talentos nessa gigante rede de contatos. É gratificante descobrir as profissões e hobbies de cada um, os livros que estão lendo, o que estão escrevendo, por onde mais estão trabalhando e estudando. É assim que acabamos conhecendo opções de realidade que nos motiva a fazer um pouco mais do nosso próprio trabalho ou de abrir novas portas para novas direções e ampliar as perspectivas sobre a vida, sobre nossos potenciais, etc.

Atualmente estou concentrado em eliminar as barreiras, os pesos, as portas fechadas, as falhas de comunicação, as posturas inadequadas, os vícios de pensamento equivocado, entre outras coisas. Buscando sempre ficar no realismo, estou sempre combatendo falácias, desafiando as questões ao colocar tudo a prova. Isso me fez preferir eliminar centenas e centenas de grupos e conteúdos que tomavam meu tempo e não somavam nada de real. Às vezes nosso potencial só não acontece porque não deixamos ele florescer. Precisamos dar tempo pra nós mesmos, pra nossos estudos, nossas atividades, nossos momentos de relacionamento, nossas amizades. Precisamos otimizar nosso dia de forma a termos uma semana melhor, um mês mais diverso, um ano com mais resultados e uma vida mais feliz, numa espiral ascendente. Vamos subir!

Rodrigo Meyer

Onde não existir qualidade, seja breve.

A vida nos coloca em contato com muitas pessoas, muitos lugares, muitos conteúdos, muitas oportunidades, muitos momentos, muitas ideias. Chegando em uma livraria, são incontáveis os títulos. Vídeos pelo Youtube brotam aos milhares antes que você pisque os olhos. Na Terra somos mais de 7 Bilhões de pessoas e só no Brasil somos em torno de 200 Milhões. Gente e conteúdo é o que não falta, mas a qualidade de ambos é o que faz a diferença.

Uma vez vivos, todos estão aqui tentando se expressar, conviver e chegar a algum lugar. Bom seria que todos tivessem iguais condições, boa visão, noção de realidade, senso de justiça e honestidade. Um sonho pra um futuro distante, provavelmente. No presente, a realidade é outra. Não há muito pra se aproveitar diante do que é oferecido por grande parte dessas pessoas. Qualquer tema e setor da vida que você imaginar, será possível mostrar que estamos em crise.

O lixo social está em tudo. Nas mídias convencionais com o falso jornalismo e o entretenimento emburrecedor que coloca o público de forma passiva a tudo aquilo que o aprisiona. E destas mesmas mídias, famosos nascem sem nenhum motivo bom ou real pra sequer serem vistos. Muita propaganda, muita ilusão, pouco conteúdo, pouca qualidade. E de repente, depois de décadas de comunicação mal intencionada a desserviço do povo, eis que surge a internet.

A liberdade de criarmos nosso próprio conteúdo e interagir com os demais parecia uma boa promessa, até que, infelizmente, todas as mídias tradicionais abriram seus espaços em sites e redes sociais. Agora, temos o lixo ampliado e perigosamente mais próximo da interação do público. Com isso, as próprias pessoas também perderam ainda mais qualidade, uma vez que trocaram o uso útil da internet pela simples absorção e compartilhamento de todo tipo de entulho mal mastigado. Pela facilidade de colar um link ou arrastar uma imagem, sentem-se armados para fazer o que antes as mídias offline não permitiam. Munidos de preguiça, ignorância, ódio e credulidade exacerbada, espalham tudo, consomem tudo e se enforcam com tudo, desde que nada disso tenha qualidade ou veracidade.

Esses são os tempos em que vivemos. E dessas coisas todas, acabamos tendo que escolher ficar ou partir, afinal o que não soma nada pra nossa vida, não deve permanecer muito tempo conosco. Que sejamos breves nos lugares ruins, nos atendimentos mal prestados, nos serviços sem qualidade, nos ambientes familiares onde não há afeto e cordialidade. Que sejamos breves nas conversas vazias, nos autores sensacionalistas, nas comidas sem sabor disfarçadas com muito sódio. Não percamos tempo assistindo vídeos preconceituosos, mesmo que eles sejam de famosos. A unanimidade em uma população sem educação e cultura não serve de parâmetro pra quem quer atravessar pro outro lado. Se você almeja ter bem-estar em qualquer setor da vida, precisa repensar onde estar e como viver.

Precisamos atribuir filtros que nos façam sair de perto de tudo que não soma. Embora pareça drástico cortar todo entulho de nossas vidas, verá como é engrandecedor viver em contato apenas com o que nos faz bem. Não conheço ninguém no mundo que se queixe de ter prazer, de sentir-se respeitado, ouvido, valorizado, bem atendido. Não sei de nenhum caso de pessoa que tenha se decepcionado com um sorriso sincero, um abraço bem dado, uma memória positiva. Uma vez humanos, gostamos de ter o melhor que pudermos nessa vida. E porque, então, alguns insistem em ficar ao lado de coisas ruins? Pra quem nunca viu água potável, beberá água suja achando boa o suficiente. É isso que tem acontecido com a humanidade em diversos sentidos.

Isso deixa claro, portanto, que precisamos conhecer coisas novas para, eventualmente, descobrir coisas melhores. Nossos parâmetros mudam conforme nosso conhecimento. Quanto mais conhecemos, mais queremos conhecer. Estagnar em imediatismos, modas e saídas fáceis não levará ninguém a lugar nenhum. Pode parecer satisfatório no começo, dividir seu tempo com coisas sem valor, mas depois que você lapida a si mesmo, descobre que muita coisa é insuficiente pro seus filtros de qualidade. É assim que evoluímos, deixando de lado situações e pessoas que nos impediam de ascender.

Se no momento presente você ainda está buscando conformismo e aceitação do que não te faz bem, então é hora de rever sua postura e seu amor-próprio. Se achar que nem mesmo amor-próprio tem, é hora de repensar os porquês dessa visão desvalorizada de si mesmo. Muitas vezes acreditamos que não merecemos coisas melhores, porque nos avaliamos como inferiores depois de uma vida marcada por complexos. Em algum momento de nossas vidas, geralmente na infância, fragilizados por pressões, traumas e posturas equivocadas das nossas figuras de referência (geralmente pais, mães ou avós), criamos referências e crenças sobre nós mesmos em uma mistura de sentimentos e pensamentos mal estruturados. É quando ervilhas são lidas como elefantes em uma fase de nossas vidas onde a opinião de certas figuras nos pareciam importantes.

Não tenha receio algum de encerrar o vínculo com tudo que tiver pouco ou nenhum valor. Acostume-se com a ideia de que você tem potencial de ir além e que merece sempre o melhor que puder extrair da vida. Todos nós, por alguma razão que nem sempre conhecemos, desenvolvemos visões distorcidas da realidade e precisamos, então, refazer nossas análises, redescobrir os lugares, as cidades, as pessoas, as mídias, os produtos, as comidas, as ideologias, os livros, as artes, os relacionamentos, os próprios sentimentos e os sentimentos do mundo. Temos que nos reconectar com novas possibilidades e ficar de mente tranquila pra avaliar a qualidade real do que ali está. Sejamos, portanto, nós mesmos um exemplo de qualidade, recusando o que nos desvia da excelência.

Sinta-se livre pra deixar seus comentários, perguntas e sugestões. Todos nós estamos no mesmo barco, buscando melhores momentos, melhores soluções. Se você for curioso o suficiente e persistir com as barreiras que estão só na mente, fará o que muitos nem mesmo sonham e começará a desejar realidades maiores pra você e pros demais. “A mente que se abre pra uma nova ideia, jamais volta ao tamanho original” – Albert Einstein.

Rodrigo Meyer

Será que desaprendemos a conversar?

Acredite se quiser, havia um tempo em que celular nem mesmo tinha tela. Usávamos pra telefonar e éramos obrigados a falar se quiséssemos nos comunicar. Não significa que isso seja necessariamente o único modelo possível e bom, mas retrata uma época em que, por falta de outras tecnologias, não podíamos abrir mão ainda da socialização. Atender o celular incluía interagir de fato com uma pessoa e não apenas com uma notificação virtual de que um usuário fez ou deixou de fazer algo. E nessa diferença, habita questões pros tempos de hoje.

Eu me recordo dos primórdios da internet no Brasil quando vivíamos atrás de uma conexão discada que só era gratuita depois da meia-noite. Sorte de quem tinha paciência, pois se conectar não era algo automático como ligar o computador e já sair navegando. Aspirávamos por conexões, mesmo que difíceis, pois elas eram a nossa oportunidade de socializarmos com pessoas e conteúdos no conforto de nossas casas, mas com pessoas que não moravam conosco. Trocamos boa parte dos telefonemas por conversas digitadas no ICQ ou no MSN Messenger, mas até mesmo antes disso tudo já conseguíamos um pouco de interação pelas salas de chat dos chamados ‘portais’.

Parecia tudo muito bom. As pessoas, ainda descobrindo as possibilidades dessas mídias todas, se colocavam no mesmo papel de pessoas e não de usuários. Dividíamos conversas como se estivéssemos de fato conhecendo alguém presencialmente. Ainda que muita gente se desviasse um pouco da qualidade, na média ainda íamos bem. Muitas pessoas formaram boas amizades e até relacionamentos amorosos a partir dessas interações. Conversar com alguém online ainda era um mero detalhe, pois certamente as pessoas acabariam se encontrando no mundo real para darem continuidade ao que foi começado. Bons tempos onde tecnologia ainda não era sinônimo de ruína social.

É triste termos que admitir, mas saímos dos trilhos e nosso trem tombou com carga e tudo e não temos a menor ideia de onde vamos. Estamos parados no meio do caminho, olhando o trem virado, mudos, olhando um pro outro, sem nada fazer. Estamos esperando um milagre que nos reconecte com a estrada, pois desaprendemos a andar sem trem, mas também não temos mais um trem que ande. Ficamos paralisados, quase como se estivéssemos em estado de choque.

Atualmente, com smartphone nas mãos, redes sociais e aplicativos intermediando tudo e todos, nem sabemos ao certo quem é que está do outro lado de uma foto de avatar, um nome ou conteúdo qualquer. Tudo nos vem já representado, mastigado, moldado, dobrado, adaptado pra servir como comunicação massiva, mas que de comunicação mesmo tem pouco. Conseguimos instantaneamente enviar mensagens para uma pessoa do outro lado do mundo, apenas clicando em alguns filtros de interesse. E esse é o lado bom da história toda, pois a coisa só fica triste quando essa comunicação de fato “começa”. É um começo com cara de fim e muitas vezes sem meio. Somos colocados pra interagir e agimos como se as pessoas fossem botões, ícones, nomes e avatares. Parece até mesmo que nós somos robôs tentando dar conta de linhas de comandos encontradas pelo caminho.

Por Facebook, Skype, Whatsapp ou um desses aplicativos de relacionamento, tentamos conhecer pessoas, mas chegamos à elas somente depois de algumas fotos e uma tabela com suas informações resumidas. Muita gente anda substituindo o “Oi” por simplesmente um clique no botão de “add”. Pra muita gente é suficiente que os sites ou aplicativos se encarreguem de informar que alguém lhes adicionou. E fazem absolutamente nada com essa informação, pois tornou-se apenas uma mera burocracia do ato de conectar-se virtualmente à usuários (já não vistos mais como pessoas reais). Imagine-se em um ambiente real onde você pressiona um botão para entrar em um comércio e ao invés de ser recebido por alguém, apenas é informado de que você agora está dentro do comércio. É claro que isso parece inútil e burocrático pois já descartamos a associação entre a conexão virtual com a conexão à uma pessoa real.

Mudamos drasticamente o modo como socializamos pela internet e, por isso mesmo, estamos perdendo nossa habilidade na socialização presencial também, afinal passamos tanto tempo nos computadores e longe das pessoas que temos dificuldades de conviver fora deste mundo individualista em que ficamos atrás de uma tela de celular ou computador, trancados em um quarto ou em um ambiente imaginário que se limita ao campo de visão diante do eletrônico, mesmo que estejamos em uma enorme sala, restaurante ou no meio da rua. Nos teletransportamos pra dentro do mundo virtual, tal qual os personagens do filme ‘Matrix’, onde a realidade já se confunde com o virtual (podendo ser até mesmo a mesma coisa), mostrando que tudo é mental e, portanto, relativo.

Passamos incontáveis momentos sem saber lidar com esses inícios de conversa. Os espaços de digitação de mensagens não estão mais presos à estrutura ou ritmo algum. Você diz algo hoje e semana que vem, quando você nem mais lembrava que havia escrito algo, alguém surge, lê (ou não) e inicia outra mensagem nova, desvinculada ao que foi escrito originalmente. Vivemos na base de links, emoticons, indicações, botões, lembretes virtuais, resenhas padronizadas, álbuns de fotos com legendas que nada dizem, mas oferecem links pra outras coisas que, por vezes, nada dizem também.

Claro que, por vezes, tudo isso nos economiza tempo. É verdade que é cansativo ter que nos apresentarmos tantas vezes, especialmente quando nosso tempo já foi totalmente roubado pela nossa procrastinação regada à atualizações de tela e navegações aleatórias em busca de postagens quaisquer que surjam automaticamente pela nossa frente. Acostumados a viver com o que nos entregam, já não buscamos mais nada. Sentamos e absorvemos passivamente. Perdemos muito das aspirações pessoais pelas questões da vida e até mesmo pelo mistério por trás de cada pessoa. Perguntas incomuns travam a maioria das pessoas nesse jogo moderno de botões de “Ok” e “Cancelar”. Qualquer coisa mais complexa que exija mais do que respostas afirmativas ou negativas já inquietam as pessoas e nos faz parecer uma grande perda de tempo pra essas pessoas que já se sentem sem muito tempo.

Isso me faz lembrar do relojoeiro dos contos de Alice no País das Maravilhas, sempre com pressa, correndo contra o tempo, sem poder parar pra qualquer explicação ou conversa. Estamos em tempos de aprisionamento a um modelo de vida que exige que sejamos tão rápidos quanto os computadores podem ser. E como isso não é possível, acabamos equivocados, reduzindo nosso tempo de sono, nosso horário de refeição e também nossas conversas, nossos momentos mais humanos e profundos. Parecemos com os extintos ascensoristas atendendo pessoas com base nos andares em que elas solicitam parar. Nos tornamos inúteis e superficiais pois queremos atender a demanda imaginária de 7 Bilhões de pessoas no planeta, mas sem entregar nada de relevante pra nenhuma delas, afinal o tempo é curto, fracionado e mal utilizado.

O desafio deixado hoje é que você consiga reverter seu estilo de vida, nem que seja começando por rever o ritmo de suas atividades. Você terá que repensar porque é que aquele seu projeto que normalmente levaria semanas, você quer muito terminar em 2 horas de um único dia. Pra quem é que você estaria realizando? O que é que está em jogo? A qualidade do projeto é menos importante que ter ele disponível o quanto antes na terra da visibilidade virtual?

Atender a demanda do Facebook e se moldar ao ritmo imaginário é o que está fazendo tudo ser mais pobre, menos útil e menos prazeroso, tanto pra quem cria quanto pra quem absorve essas criações. J.R.R. Tolkien, autor de ‘Senhor dos Anéis’, escreveu de forma intensa e completa sobre todo o universo por trás daqueles momentos. Chegou a criar o próprio idioma, além de inúmeros outros detalhes que fazem de sua obra algo completamente único, diferente da maioria dos conteúdos rasos da modernidade que muitas vezes não possuem sequer um propósito.

Temos que conversar, temos que olhar nos olhos, tocar, sentir, cheirar, viver. Temos que sentar ao lado das pessoas e rir, contar histórias, contar memórias, ter memórias para contar. Precisamos, intensamente, aspirar por momentos reais, ao lado de pessoas reais. Precisamos entender que não somos máquinas, nem linhas de programação, mas que temos consciência, tato, olfato, visão, paladar, audição e inúmeras outras capacidades sensoriais. Não espere que as pessoas sejam todas descartáveis, senão acabará igualmente descartado por elas. O sistema de sociedade e cultura que incentivamos entre as pessoas acaba prevalecendo e incluindo todos nós. Se não quisermos viver um mundo distante, frio, automatizado, feito às pressas e mal feito, precisamos nos desconectar de uma lista de ilusões que acreditamos fazer parte da modernidade.

Tempos modernos não excluem o ser humano da equação. Você pode fazer uso de tudo que a tecnologia proporciona, desde que coloque o bem-estar do ser humano como prioridade em tudo. De que serve poder conversar à distância por um eletrônico, se o conteúdo é fraco ou nulo? Qual é o ganho real? De que serve termos câmeras com ótima qualidade de imagem, se já não criamos comunicação pela Fotografia? De que serve estarmos conectados com milhares de pessoas, se não lembramos o nome de quase nenhuma? De que serve termos um Home Office, se na prática, não temos o esperado conforto de trabalhar em casa? Que qualidade de tempo temos? Que qualidade de conteúdo oferecemos? Que verdade há por trás de interações tão secas e virtualizadas? Quão feliz estamos vivendo essas regras que nós mesmos inventamos? Pra onde vamos? Porque vamos? Quem somos? O que queremos? O quanto podemos? E pra responder a tudo isso? Será que sabemos?

Rodrigo Meyer

Felizmente as pessoas mudam.

Não é algo frequente na humanidade, mas eventualmente as pessoas mudam. Não existe nenhuma regra que determine que precisemos ser sempre do mesmo jeito. Até mesmo nossa personalidade às vezes é descoberta de forma tardia quando nos damos conta de que vivíamos moldes e realidades alheias que não correspondiam com nossa essência.

Mudar é uma necessidade quando descobrimos que aquilo que estamos vivendo, fazendo ou pensando, não nos proporciona benefícios. Muda-se de emprego, de profissão, de cidade, de relacionamento, de postura, de pensamento, de hábitos ou até coisas menores, como o modo de criar, o estilo e até nossas metas futuras, nossas prioridades e possibilidades. Como diz o ditado, ‘só não muda quem já morreu.’

Quando atualizamos nossa mente, atualizamos nossa realidade. A realidade é sempre do tamanho e modo que nossa mente puder enxergar e compreender. Tudo que não vemos na mente torna-se inexistente pra nós. As pessoas tendem a se redescobrir apenas se permitindo ver o que antes não se permitiam. A mente controla a realidade em muitos sentidos. Esteja no controle da sua mente ou será controlado.

Temos que ter uma pitada de esperança, mas sem ficarmos em expectativa pelas mudanças alheias. Em geral, a maioria das pessoas continuará no mesmo estilo de vida e pensamento até o último segundo de existência, tanto pelas coisas boas quanto pelas ruins. Os equívocos das realidades de cada um não costumam ser percebidos à tempo pelas pessoas, principalmente porque elas não olham pra dentro de si mesmas e evitam, a todo custo, a reflexão sobre o que dizem, pensam e fazem. Para estes, a autocrítica ou inexiste ou é totalmente comprometida por falta de sinceridade e interesse de desvendar as verdades sobre si mesmo. Muita gente prefere se iludir com a ideia de que são o último extrato de qualidade do mundo, quando estão bem longe de ser. As verdades amargas não possuem vez para quem prefere mentiras doces.

Mas, há chances de vermos mudanças, mesmo que isso demore. Em algum momento, uma certa quantidade de pessoas estará disposta a mudar e isso poderá nem ser notado pelos demais, afinal o tempo que passaram vivendo de um jeito já os marcou pra vida toda. É difícil reconstruir uma imagem ou retomar a credibilidade diante das pessoas. Trazer algo novo e se reposicionar é uma tarefa difícil. Mas não há outro modo de se fazer e não há também como voltar atrás. Toda mudança é um caminho novo, que carrega certas barreiras por conta do passado. Por isso, quanto mais cedo você puder mudar, melhor pra você mesmo, pois evita acumular muitas dessas barreiras ou ao menos reduz o impacto delas.

Quando eu olho pro meu passado, eu consigo até encontrar um aspecto em comum em todas as fases, mas certamente muito do que estava ao redor desse núcleo mudou bastante ao longo dos anos. Na computação, existe o conceito de ‘kernel’, que é uma espécie de núcleo de um sistema operacional. Por muitos anos, esses sistemas se apresentam de formas novas, com um visual diferente, recursos novos, mas o motor essencial que move tudo aquilo continua o mesmo. Assim eu defino a essência de uma pessoa. E, claro, às vezes o kernel também pode ser refeito quando admitimos que por mais que mudemos por fora, não será suficiente se mantivermos o mesmo miolo. Clarice Lispector dizia que remover nossos defeitos era perigoso pois não sabíamos quais deles eram os alicerces de nossa estrutura toda.

Mas essa jornada de descoberta e transformação precisa ser feita, pois quanto mais procrastinarmos e ignorarmos nossa realidade interior, mais drástico será o momento de mudança. Se você negligencia suas realidades por muito tempo acaba tendo que encarar o terrível monstro que foi nutrido e que muitas vezes destoa tanto da nossa realidade superficial que chega a chocar. Precisamos cuidar mais da essência do que das máscaras sociais que vestimos. Às vezes parecemos gentis e tranquilos e descobrimos que não somos assim ou não o mesmo tanto. Nossos gostos, vontades, interesses, valores, prioridades e tudo aquilo que nos compõem, às vezes ficam mascarados por ideais que não são de fato os nossos. Ficam lá como personagens que criamos e alimentamos apenas pra apresentar à sociedade.

Mas, nem toda mudança é sincera e, frequentemente, você verá pessoas se convertendo à hábitos e estilos de vida apenas por status e aparência ou até mesmo como forma doentia de compensar todo o estrago social ou pessoal que essas pessoas acreditam terem feito. Consigo lembrar, por exemplo, de cantores que passaram a vida em um modelo de conduta e que em certo momento se colocaram em um extremo oposto. Isso pode ocorrer por vários motivos. Às vezes essas pessoas fizeram uma leitura exagerada sobre como viviam e por se sentirem culpadas de terem sido o que foram, sentem uma certa necessidade de exagerar no sentido oposto, pra tentar compensar o passado. Mas isso não funciona porque geralmente não é natural e real, mas apenas uma fachada forçada.

Mudar por fora não importa. A única mudança real é a que ocorre internamente. A sua mudança de pensamento precisa vir acompanhada de outras mudanças. Não basta acreditar que seu estilo de vida era ruim ou que sua realidade não era benéfica pra si mesmo. É preciso ter passado por experiências práticas ao longo da vida que o colocaram em novas posturas, novas absorções de valores e realidades. Sentir e viver a realidade de maneira transformada é que dará a transformação que você deseja pra si. Você muda, quando finalmente as coisas já não são como eram. Você descobre que nada é permanente e que a coisa mais preciosa que temos é a capacidade de nos transformarmos.

Quando escolhemos abandonar certos ambientes, as pessoas ainda nos querem por lá, pois não sabem nada sobre nossas mudanças internas. Quando escolhemos abandonar certas pessoas, também somos cobrados, porque estas não entendem pra onde queremos ir e com o que já não queremos estar, pois mal sabem, geralmente, o que eles mesmos são e pra onde estão indo. Mudanças geram mudanças e deveríamos, inclusive, forçar algumas para colidirmos com outras. Procure sempre viajar ou mudar de casa e verá como isso transforma a realidade, com novas oportunidades, novas pessoas, novos desafios e novos pensamentos. Suas prioridades mudam e você muda. Permita-se coisas novas e você se renovará. Deixe ir embora aquilo que já não serve mais, que já não faz você sorrir, que já não faz sentido, já não é importante, já não te representa, já não te segura, já não te dá prazer, já não te faz ir além.

Rodrigo Meyer