O círculo vicioso da autoestima.

A autoestima é a valorização que damos a nós mesmos. É a nossa percepção de que somos alguém bacana, útil, interessante ou importante. Nos sentir bem com nós mesmos é o resultado de ter amor-próprio, é o gosto de ser quem somos e de ter confiança nos nossos próprios potenciais e características. E quando não nos enxergamos assim, é porque temos baixa autoestima.

Geralmente a baixa autoestima é uma visão distorcida da própria realidade, fruto de complexos e traumas, mas, às vezes, pode ser uma análise realista sobre nossas falhas e incapacidades. Porém, independente de qual seja o caso, podemos sempre fazer algo à respeito. Se você, por exemplo, tem potencial, mas não acredita ter, devido a influência de complexos e traumas, precisa buscar reconectar-se com a realidade, superando essas interferências que distorceram sua visão de si mesmo ou da vida. Já para os que de fato estão em defasagem de potencial, devem buscar contornar a situação de forma a tirar o melhor proveito de suas outras características ou até mesmo aprimorar os pontos fracos pra que se tornem pontos mais fortes.

Uma frase diz que se você avaliar um peixe pela capacidade de subir em árvore, acreditará que ele não tem potencial. Cada pessoa tem características próprias e um histórico de vida único e, por isso, cada pessoa precisa descobrir quais são seus talentos pra se encontrar no que faz. Se você tiver baixa autoestima e permanecer em postura pessimista sobre seus potenciais, acabará como o peixe que, por não subir em árvores, sente-se incapaz, sem valor. Se você descobrir que nasceu pra ser peixe, nade, pois provavelmente nunca subirá em árvores, assim como o macaco nunca viverá no fundo do mar.

Se você luta contra o fluxo natural das coisas, você acaba tendo posturas que não te favorecem na vida. Suas oportunidades ficam escassas quando você mesmo cria situações piores em torno da sua baixa autoestima. É o caso, por exemplo, de quando uma pessoa não se sente interessante o suficiente pra despertar um relacionamento com outra pessoa e, por isso, se sujeita a qualquer coisa pra obter uma companhia. Isso faz com que ela mesma crie um efeito bola-de-neve no problema, pois a postura que tem diante do tema, faz ela ficar ainda menos interessante pra disputar os relacionamentos sonhados. Com isso, a autoestima fica ainda mais baixa e assim a pessoa vai descendo rumo ao precipício emocional. Sinal de que não funciona e a estratégia deve ser invertida.

Mais do que mera poesia, acreditar em si mesmo e se valorizar é um ingrediente indispensável na receita da vida. Se você não gosta de quem você é, do que faz ou como faz, acaba sentindo-se inseguro, inapto ou desmerecedor das coisas e, por isso, deixa de buscar, de competir, de se apresentar com orgulho e vitalidade. Nas profissões, por exemplo, quando alguém não se sente bom o suficiente, tende a recusar diversas vagas, simplesmente por achar que não está à altura do que aquilo exige. Tudo bem recusar um trabalho do qual você de fato não domina, mas não está nada bem recusar trabalhos apenas por achar que não é capaz, mesmo tendo os conhecimentos e meios pra aprender ou desenvolver algo.

Eis a importância de sermos realistas. Raras vezes alguém de fora virá nos dar um feedback sobre nossas características, potenciais e talentos. Temos que tentar ver em nós mesmos com sinceridade aquilo que conseguimos fazer bem e o que não conseguimos. Podemos nos aprimorar nas falhas e nos inspirar nos acertos. O que não podemos é desistir de buscar nosso próprio sucesso. Temos que nos perceber como pessoas capazes de realizar coisas que só nós podemos fazer ou de chegarmos um pouco mais longe do que pensávamos estar predestinados pelas nossas limitações. A vida consiste em superar desafios, desfrutar do tempo com disposição pra fazer, ser e ter. Precisamos transformar os pensamentos e nos entender cada vez mais. Portanto, lembre-se que varrer os problemas pra debaixo do tapete não vai ajudar.

Inúmeros são os casos de pessoas que deixam de cursar um idioma novo por terem complexos sobre a própria inteligência ou cultura. Por vezes, são pessoas que, acostumadas com a visão pessimista e equivocada sobre si mesmas, não se sentem motivadas a se inscrever num curso, porque pensam que não darão conta, que passarão vergonha ou que fracassarão. Por anteciparem uma mentira, acabam não abrindo espaço para a verdade. Elas não se permitem descobrir o quão longe podem ir, pois sequer acreditam em si mesmas pra chegar a tentar. Essa espiral descendente da realidade é gerenciada por uma soma de pensamentos e decisões.

Quantas vezes vi pessoas se submeterem a trabalhos mal remunerados, apenas por acreditarem que não tinham as capacidades necessárias pra obter nada de maior valor. Acostumam-se a ver o mundo de forma limitada, onde somente alguns tipos de profissões ou pessoas é que ganham dinheiro e, por não se verem como iguais, não disputam essas oportunidades pra sua própria vida. Abrem mão do sucesso, da saúde, de bons relacionamentos, de bons momentos, de boas metas de estudo e trabalho, de certos temas ou realidades. Elas mesmas acabam se afastando das coisas que gostariam de ter e, por isso mesmo, cada vez menos figuram nessas e outras vitórias. Terminam reforçando a ideia de que são incapazes pra tudo isso e, então, é gerado um monstro que cresce infinitamente.

Dessa postura de reforço pejorativo, brotam mais complexos, mais dores, menos motivação, mais casos de depressão, ansiedade, falta de amor-próprio, possibilidade pra escapes como vícios, posturas desregradas, acobertamento de falácias, adesão à grupos ou ideologias destoantes da realidade ou do necessário e um life style que não soma pra encontrar sequer as portas e ferramentas pra sair do abismo em que tais pessoas se colocaram. Se já transcorreu demasiado tempo nessa espiral descendente, fica mais difícil sair dela. Mas isso não é motivo pra desistir da saída. Muito pelo contrário. É exatamente quando descemos demais que precisamos começar a brecar e subir de volta. Não é difícil se transformarmos primeiro a nossa visão de nós mesmos. Da mesma forma que existe o efeito bola-de-neve pra queda, existe para a subida.

Quanto mais estima você tiver por si mesmo, mais aberto estará para as pessoas, a sociedade, os relacionamentos, os trabalhos, os momentos, os estudos, as possibilidades do seu futuro e, assim, sua visão de capacidades e interesses se amplia drasticamente. É quando vemos pessoas se encontrando em algo que antes nem sabiam que podiam desenvolver com grande habilidade. Nascem, então, novos escritores, novos youtubers, novos professores, novos tatuadores, novos poliglotas, viajantes indo morar e trabalhar em outros lugares e culturas. Também é desta mudança de postura que brotam amizades melhores, namoros melhores, parcerias, projetos, oportunidades, vivências e experiências que estavam esperando alguém chegar.

Busque cercar-se de pessoas que te tragam um feedback realista sobre sua personalidade, seus trabalhos, seus hobbies, seus talentos, seus pontos fortes e fracos no modo como se relaciona, como leva seu dia-a-dia, sua saúde física e mental. Dê menos ouvidos à críticas que não trazem verdades nas palavras. Muita gente é pessimista conosco por também terem complexos e, por isso, acabam aconselhando um mar de gente a não sonhar alto, antecipando um cenário de fracasso pra todos como se isso fosse a realidade. Então, antes de aceitar a opinião de alguém, consulte mais pessoas, compare opiniões, observe o tema de forma fria e neutra e descubra se realmente aquelas opiniões todas condizem com a verdade.

Como exemplo pessoal, os momentos que eu mais fracassei na vida foram exatamente aqueles em que eu dei ouvidos pra quem me depreciou. Em vários casos demorei pra perceber que a opinião daquelas pessoas eram geradas com base em preconceito, opressão e ignorância / desconhecimento. Assim, se alguém diz que 2+2=5, é papel de cada pessoa analisar se isso tem algum fundo de verdade e porque alguém chegou a tal conclusão. Não demora muito pra vermos que essa pessoa não sabe do que fala e, propositalmente ou não, está te passando uma impressão falsa sobre a realidade.

Eu tive a oportunidade de me deparar com professores de dois tipos opostos. Um grupo deles me enxergava como alguém sem rumo, sem a concentração necessária, talvez sem futuro algum. Outro grupo de professores, mais esclarecidos, com visão mais realista e complexa sobre as nuances de cada aluno, conseguiam me ver além da média, cheio de potenciais. Porque análises tão distintas? Quem era o problema na equação? A quem eu deveria ter ouvido? Entenda que não é simplesmente acatar a opinião de quem te elogia. Trata-se de buscar a realidade e compará-la com ambos os lados. Às vezes os elogios são bajulações sem base na realidade e não nos ajudarão. Temos que ponderar e nos encontrar de fato diante daqueles sinais que nos dão.

Quando alguém te aponta um caminho de possibilidades pra sua vida, você deve tentar se imaginar neles e ir em busca de tudo que possa te levar até lá. Precisamos, claro, nos esforçar pra aprender o necessário pra converter potencial em algo concreto. Mas, é muito mais fácil esse caminho se tivermos motivação e autoestima. A família, a escola, os amigos, a sociedade em geral e os espaços de trabalho devem promover esse estímulo realista pra que todos nós possamos ser aquilo que podemos. Sou grato a todos que confiaram em mim, me enxergaram e apoiaram pra que eu me tornasse alguém melhor. Aos que desejaram o inverso, por fraqueza ou desconhecimento, só lamento pela situação em que se encontravam ou ainda se encontram com eles mesmos.

Esses dias estava acompanhando um pouco da história profissional de algumas pessoas que estão em destaque no momento pelo setor de criação. É interessante ver que começaram abraçando uma atividade e que logo se descobriram mais felizes realizando outras coisas. Isso é a descoberta dos seus potenciais e a adequação a eles. Desenvolver atividades que exigem mais da sua essência, te coloca em maior sucesso, pois você trabalha melhor, é mais criativo, mais engajado, mais apaixonado e esforçado por tudo aquilo, além de sentir-se mais confiante e capaz em fazer. O prazer em ser e fazer algo está diretamente relacionado à descoberta de seus potenciais.

Mas lembre-se que, embora você tenha algumas características principais, deve desenvolver outras características novas ou aprimorar as coisas das quais não é tão bom. Aliás, sempre recomendo que as pessoas invistam, principalmente, naquilo que não são boas, afinal no que elas já sabem, não precisa de muito esforço. É o caso, por exemplo, de quando alguém se descobre ótimo artista, mas tem dificuldade em se relacionar profissionalmente ou de planejar as finanças do seu possível negócio em torno da arte. Então, cabe ao artista dedicar um esforço maior pra essas defasagens, tornando-se mais completo e, principalmente, viabilizando o seu talento pra sociedade. Às vezes talentos incríveis são desperdiçados porque as pessoas esperam que eles bastem. Não adianta ser ótimo nos artesanatos, por exemplo, se for ruim como vendedor, ruim nas relações humanas ou ruim pra lidar com o planejamento dos custos e preços de suas criações.

Ficarei imensamente feliz de conhecer mais e mais gente por aqui. Pessoas de todos os cantos, inclusive alguns de Portugal e outras regiões fora do Brasil estão dividindo um pouco do tempo e de seus próprios talentos nessa gigante rede de contatos. É gratificante descobrir as profissões e hobbies de cada um, os livros que estão lendo, o que estão escrevendo, por onde mais estão trabalhando e estudando. É assim que acabamos conhecendo opções de realidade que nos motiva a fazer um pouco mais do nosso próprio trabalho ou de abrir novas portas para novas direções e ampliar as perspectivas sobre a vida, sobre nossos potenciais, etc.

Atualmente estou concentrado em eliminar as barreiras, os pesos, as portas fechadas, as falhas de comunicação, as posturas inadequadas, os vícios de pensamento equivocado, entre outras coisas. Buscando sempre ficar no realismo, estou sempre combatendo falácias, desafiando as questões ao colocar tudo a prova. Isso me fez preferir eliminar centenas e centenas de grupos e conteúdos que tomavam meu tempo e não somavam nada de real. Às vezes nosso potencial só não acontece porque não deixamos ele florescer. Precisamos dar tempo pra nós mesmos, pra nossos estudos, nossas atividades, nossos momentos de relacionamento, nossas amizades. Precisamos otimizar nosso dia de forma a termos uma semana melhor, um mês mais diverso, um ano com mais resultados e uma vida mais feliz, numa espiral ascendente. Vamos subir!

Rodrigo Meyer

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Será que desaprendemos a conversar?

Acredite se quiser, havia um tempo em que celular nem mesmo tinha tela. Usávamos pra telefonar e éramos obrigados a falar se quiséssemos nos comunicar. Não significa que isso seja necessariamente o único modelo possível e bom, mas retrata uma época em que, por falta de outras tecnologias, não podíamos abrir mão ainda da socialização. Atender o celular incluía interagir de fato com uma pessoa e não apenas com uma notificação virtual de que um usuário fez ou deixou de fazer algo. E nessa diferença, habita questões pros tempos de hoje.

Eu me recordo dos primórdios da internet no Brasil quando vivíamos atrás de uma conexão discada que só era gratuita depois da meia-noite. Sorte de quem tinha paciência, pois se conectar não era algo automático como ligar o computador e já sair navegando. Aspirávamos por conexões, mesmo que difíceis, pois elas eram a nossa oportunidade de socializarmos com pessoas e conteúdos no conforto de nossas casas, mas com pessoas que não moravam conosco. Trocamos boa parte dos telefonemas por conversas digitadas no ICQ ou no MSN Messenger, mas até mesmo antes disso tudo já conseguíamos um pouco de interação pelas salas de chat dos chamados ‘portais’.

Parecia tudo muito bom. As pessoas, ainda descobrindo as possibilidades dessas mídias todas, se colocavam no mesmo papel de pessoas e não de usuários. Dividíamos conversas como se estivéssemos de fato conhecendo alguém presencialmente. Ainda que muita gente se desviasse um pouco da qualidade, na média ainda íamos bem. Muitas pessoas formaram boas amizades e até relacionamentos amorosos a partir dessas interações. Conversar com alguém online ainda era um mero detalhe, pois certamente as pessoas acabariam se encontrando no mundo real para darem continuidade ao que foi começado. Bons tempos onde tecnologia ainda não era sinônimo de ruína social.

É triste termos que admitir, mas saímos dos trilhos e nosso trem tombou com carga e tudo e não temos a menor ideia de onde vamos. Estamos parados no meio do caminho, olhando o trem virado, mudos, olhando um pro outro, sem nada fazer. Estamos esperando um milagre que nos reconecte com a estrada, pois desaprendemos a andar sem trem, mas também não temos mais um trem que ande. Ficamos paralisados, quase como se estivéssemos em estado de choque.

Atualmente, com smartphone nas mãos, redes sociais e aplicativos intermediando tudo e todos, nem sabemos ao certo quem é que está do outro lado de uma foto de avatar, um nome ou conteúdo qualquer. Tudo nos vem já representado, mastigado, moldado, dobrado, adaptado pra servir como comunicação massiva, mas que de comunicação mesmo tem pouco. Conseguimos instantaneamente enviar mensagens para uma pessoa do outro lado do mundo, apenas clicando em alguns filtros de interesse. E esse é o lado bom da história toda, pois a coisa só fica triste quando essa comunicação de fato “começa”. É um começo com cara de fim e muitas vezes sem meio. Somos colocados pra interagir e agimos como se as pessoas fossem botões, ícones, nomes e avatares. Parece até mesmo que nós somos robôs tentando dar conta de linhas de comandos encontradas pelo caminho.

Por Facebook, Skype, Whatsapp ou um desses aplicativos de relacionamento, tentamos conhecer pessoas, mas chegamos à elas somente depois de algumas fotos e uma tabela com suas informações resumidas. Muita gente anda substituindo o “Oi” por simplesmente um clique no botão de “add”. Pra muita gente é suficiente que os sites ou aplicativos se encarreguem de informar que alguém lhes adicionou. E fazem absolutamente nada com essa informação, pois tornou-se apenas uma mera burocracia do ato de conectar-se virtualmente à usuários (já não vistos mais como pessoas reais). Imagine-se em um ambiente real onde você pressiona um botão para entrar em um comércio e ao invés de ser recebido por alguém, apenas é informado de que você agora está dentro do comércio. É claro que isso parece inútil e burocrático pois já descartamos a associação entre a conexão virtual com a conexão à uma pessoa real.

Mudamos drasticamente o modo como socializamos pela internet e, por isso mesmo, estamos perdendo nossa habilidade na socialização presencial também, afinal passamos tanto tempo nos computadores e longe das pessoas que temos dificuldades de conviver fora deste mundo individualista em que ficamos atrás de uma tela de celular ou computador, trancados em um quarto ou em um ambiente imaginário que se limita ao campo de visão diante do eletrônico, mesmo que estejamos em uma enorme sala, restaurante ou no meio da rua. Nos teletransportamos pra dentro do mundo virtual, tal qual os personagens do filme ‘Matrix’, onde a realidade já se confunde com o virtual (podendo ser até mesmo a mesma coisa), mostrando que tudo é mental e, portanto, relativo.

Passamos incontáveis momentos sem saber lidar com esses inícios de conversa. Os espaços de digitação de mensagens não estão mais presos à estrutura ou ritmo algum. Você diz algo hoje e semana que vem, quando você nem mais lembrava que havia escrito algo, alguém surge, lê (ou não) e inicia outra mensagem nova, desvinculada ao que foi escrito originalmente. Vivemos na base de links, emoticons, indicações, botões, lembretes virtuais, resenhas padronizadas, álbuns de fotos com legendas que nada dizem, mas oferecem links pra outras coisas que, por vezes, nada dizem também.

Claro que, por vezes, tudo isso nos economiza tempo. É verdade que é cansativo ter que nos apresentarmos tantas vezes, especialmente quando nosso tempo já foi totalmente roubado pela nossa procrastinação regada à atualizações de tela e navegações aleatórias em busca de postagens quaisquer que surjam automaticamente pela nossa frente. Acostumados a viver com o que nos entregam, já não buscamos mais nada. Sentamos e absorvemos passivamente. Perdemos muito das aspirações pessoais pelas questões da vida e até mesmo pelo mistério por trás de cada pessoa. Perguntas incomuns travam a maioria das pessoas nesse jogo moderno de botões de “Ok” e “Cancelar”. Qualquer coisa mais complexa que exija mais do que respostas afirmativas ou negativas já inquietam as pessoas e nos faz parecer uma grande perda de tempo pra essas pessoas que já se sentem sem muito tempo.

Isso me faz lembrar do relojoeiro dos contos de Alice no País das Maravilhas, sempre com pressa, correndo contra o tempo, sem poder parar pra qualquer explicação ou conversa. Estamos em tempos de aprisionamento a um modelo de vida que exige que sejamos tão rápidos quanto os computadores podem ser. E como isso não é possível, acabamos equivocados, reduzindo nosso tempo de sono, nosso horário de refeição e também nossas conversas, nossos momentos mais humanos e profundos. Parecemos com os extintos ascensoristas atendendo pessoas com base nos andares em que elas solicitam parar. Nos tornamos inúteis e superficiais pois queremos atender a demanda imaginária de 7 Bilhões de pessoas no planeta, mas sem entregar nada de relevante pra nenhuma delas, afinal o tempo é curto, fracionado e mal utilizado.

O desafio deixado hoje é que você consiga reverter seu estilo de vida, nem que seja começando por rever o ritmo de suas atividades. Você terá que repensar porque é que aquele seu projeto que normalmente levaria semanas, você quer muito terminar em 2 horas de um único dia. Pra quem é que você estaria realizando? O que é que está em jogo? A qualidade do projeto é menos importante que ter ele disponível o quanto antes na terra da visibilidade virtual?

Atender a demanda do Facebook e se moldar ao ritmo imaginário é o que está fazendo tudo ser mais pobre, menos útil e menos prazeroso, tanto pra quem cria quanto pra quem absorve essas criações. J.R.R. Tolkien, autor de ‘Senhor dos Anéis’, escreveu de forma intensa e completa sobre todo o universo por trás daqueles momentos. Chegou a criar o próprio idioma, além de inúmeros outros detalhes que fazem de sua obra algo completamente único, diferente da maioria dos conteúdos rasos da modernidade que muitas vezes não possuem sequer um propósito.

Temos que conversar, temos que olhar nos olhos, tocar, sentir, cheirar, viver. Temos que sentar ao lado das pessoas e rir, contar histórias, contar memórias, ter memórias para contar. Precisamos, intensamente, aspirar por momentos reais, ao lado de pessoas reais. Precisamos entender que não somos máquinas, nem linhas de programação, mas que temos consciência, tato, olfato, visão, paladar, audição e inúmeras outras capacidades sensoriais. Não espere que as pessoas sejam todas descartáveis, senão acabará igualmente descartado por elas. O sistema de sociedade e cultura que incentivamos entre as pessoas acaba prevalecendo e incluindo todos nós. Se não quisermos viver um mundo distante, frio, automatizado, feito às pressas e mal feito, precisamos nos desconectar de uma lista de ilusões que acreditamos fazer parte da modernidade.

Tempos modernos não excluem o ser humano da equação. Você pode fazer uso de tudo que a tecnologia proporciona, desde que coloque o bem-estar do ser humano como prioridade em tudo. De que serve poder conversar à distância por um eletrônico, se o conteúdo é fraco ou nulo? Qual é o ganho real? De que serve termos câmeras com ótima qualidade de imagem, se já não criamos comunicação pela Fotografia? De que serve estarmos conectados com milhares de pessoas, se não lembramos o nome de quase nenhuma? De que serve termos um Home Office, se na prática, não temos o esperado conforto de trabalhar em casa? Que qualidade de tempo temos? Que qualidade de conteúdo oferecemos? Que verdade há por trás de interações tão secas e virtualizadas? Quão feliz estamos vivendo essas regras que nós mesmos inventamos? Pra onde vamos? Porque vamos? Quem somos? O que queremos? O quanto podemos? E pra responder a tudo isso? Será que sabemos?

Rodrigo Meyer

A espiral descendente na Literatura.

A Literatura tem um forte impacto no mundo, desde que o homem aprendeu a se comunicar por textos, sejam eles compostos de letras convencionais modernas ou por símbolos outros. É através da Literatura que o conhecimento começou a ser disseminado além da oralidade e também a ser estocado e compartilhado de maneira mais prática. A partir disso o mundo se transformou drasticamente. Mas, por ter passado tanto tempo que a escrita está entre as pessoas, já não nos damos conta mais do papel que ela tem e de como é viver sem os benefícios dela.

Nos tempos atuais, estamos passando por uma transformação pela internet e as novas mídias. Redes sociais, messengers, compartilhamento de fotos, links, criação de vídeos e até uma certa infinidade de blogues e sites diversos de notícias e informações através do texto. Na época em que televisões eram algo comum pelas casas e computador não, a leitura de livros ou revistas já havia sido deixada de lado pelos poucos que ainda liam. E com a chegada e massificação das mídias digitais, a televisão foi substituída pelo Youtube e Netflix e os livros parecem ter sido ainda mais esquecidos, talvez em detrimento da possibilidade de criar sem custo de impressão com o uso do ambiente digital. Mas é difícil dizer a que passo anda a leitura no Brasil e no mundo em geral (de qualquer tipo que seja).

Segundo os últimos dados que vi, 73% dos brasileiros não leem. Se considerarmos o tamanho da nossa população, é alarmante pensar que quase toda ela está desvinculada da leitura. Claro que, de maneira informal, estamos todos sempre lendo alguma coisa ou outra, afinal até pra trocar mensagens pelo Whatsapp precisamos ler, assim como boa parte das pessoas lê, bem ou mal, posts de redes sociais e algumas notícias aqui e ali (creio). Mas, continua sendo um cenário preocupante, pois se é somente isso que estão lendo, imagino que a leitura deve estar falha, sem parâmetros, sem aprofundamentos e sem reflexões muito coerentes, pois o conhecimento humano passa, principalmente, pelos livros, em razão da estruturação mais profunda e prolongada do conteúdo, o foco e a própria prevalência de maior confiabilidade da fonte, uma vez que não é tão simples quanto rascunhar um texto gratuito qualquer pela internet.

Se de fato chegarmos a conclusão de que estamos ficando sem leitores, surge um segundo problema que é a quantidade e/ou qualidade dos escritores que temos ou teremos por aqui. É evidente que pra ser bom escritor, ler é essencial. Podemos escrever livremente, mas a qualidade do que escrevemos deveria ser alicerçada no que conhecemos e estudamos com os livros, as reflexões que fazemos a partir dessa longa jornada mastigando ideias e referências, cruzando informações, dados, opiniões, acontecimentos históricos, compreensão de diferentes obras de filosofia ou até mesmo a possibilidade de tocarmos em conteúdos traduzidos de autores estrangeiros para visões mais diversas e completas do ponto de vista cultural, político, além de termos a chance de ler autores de séculos anteriores, o que se opõem fortemente com os contatos imediatistas e instantâneos das comunicações de internet. Se estivermos sem leitores, estaremos também sem escritores ou pelo menos sem bons escritores. E se isso ocorre, temos menos gente disponível pra criar conteúdos que nos prendam a leitura. E assim, numa espiral descendente, teremos ainda menos leitores.

Eu não sou aquele que combate modernidades, apesar de saber que o contexto psicológico e social da maioria das pessoas, às coloca de forma pouco estruturada diante das tecnologias. Pela facilidade que temos de apertar o botão do mouse e assistir 15 minutos de um vídeo ou até mesmo de assistir coletâneas inteiras de episódios de séries, nos acomoda de tal maneira atrás das telas de computador, celular ou tablet, que é compreensível que muita gente esteja preferindo ver imagens e ouvir sons do que ler textos.

Consigo entender que estamos nos tornando multitarefas, consumindo diversas mídias ao mesmo tempo e até mesmo que reinventamos os modos de socializar, até porque, o que hoje está se tornando uma característica por conta das tecnologias, já fazia parte de mim, independente delas e, portanto, entendo que possa ser possível e positivo se bem desenvolvido. Eu tenho Distúrbio de Déficit de Atenção e, por muitas e muitas vezes, desde sempre, eu acabo facilmente distraído pra outras coisas, enquanto tento prestar atenção em uma aula, um filme ou a leitura de um texto. Inúmeras foram as vezes em que me peguei pensando por meia-hora em outras coisas a partir de uma sucessão de pensamentos por conta de uma lembrança ou reflexão que me levaram pra um longo caminho de saltos e desvios em relação ao conteúdo original.

Durante a infância e adolescência, quando percebia que estava nesses processos derivados da perda de atenção, já havia se passado um enorme tempo e eu havia esquecido o que estava inicialmente assistindo, lendo ou ouvindo. Claro que, felizmente, com o passar dos anos, acostumado com essa característica, acabei criando maior controle para evitar esses momentos que, embora muito bons e úteis, eram contraditoriamente ruins e inúteis, porque iam na contramão dos objetivos sociais por destoar da forma ou ritmo padrão de aprendizado ou socialização. Eu queria caminhar, apesar de tudo e essas características estavam atrapalhando, a princípio. Você já deve ter conhecido muita gente em situação parecida, que começa a contar algo sobre um determinado assunto e começa a abrir parênteses na comunicação e se estendem tanto que até se esquecem do que estavam falando. Com o Déficit de Atenção há também isso, mas há o mesmo problema na absorção do conteúdo.

E, como bom DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção), nome do “problema” que usamos também pra nos identificar, cá estou dando uma volta imensa pra falar de Literatura. Imagine quantas e quantas pessoas não são levadas pelas mesmas distrações (seja pelo DDA ou outros motivos) e que acabam abandonando os textos, os livros ou os conteúdos em geral, pela busca de conteúdos mais breves ou fracionados que possam ser absorvidos integralmente se divididos em trechos rápidos o suficiente pra que não dê tempo de se distraírem. Sei que o problema de muitos não-leitores em relação a leitura é tédio, preguiça e visão pejorativa do próprio ato de leitura, mas sei também que isso é sintoma e não causa. A causa disso tudo é, porém, uma questão mais pessoal do que cultural, embora em ambos os lados seja necessário e possível que mudemos a realidade.

Ler mais (assim como escrever), está relacionado ao quanto estamos acostumados com esse formato de comunicação. O hábito é muito mais do que aquela ideia poética de que magicamente as pessoas passam a gostar de ler apenas lendo. O hábito é fruto de vontade e de necessidade. Essas duas coisas juntas fazem nosso convívio com os conteúdos muito mais prazeroso. É chato ler por obrigação assim como é desgastante pra nossa mente e consciência ler um assunto ou tema que não gostamos ou não temos curiosidade. E em nossa sociedade, verdade seja dita, não despertamos entendimento nem mesmo de nossos reais gostos ou curiosidades, porque temos um preconceito gigantesco com praticamente tudo, sem nem mesmo conhecermos de verdade, já que, muitas vezes, somos apresentados de forma errada aos temas ou até mesmo à conteúdos ruins sobre tais assuntos.

É difícil fazer alguém gostar, por exemplo, de matemática se a maneira que apresentamos ela nos faz bocejar ou ficar de cabelos em pé em meio ao emaranhado de números. As coisas, por mais complexas que sejam, podem e devem ser explicadas da maneira mais simples possível, sobretudo com uso de muita criatividade, exemplos práticos e fusão de diversas áreas do conhecimento. E isso não ocorre em um sistema de ensino onde os professores são máquinas de repetir conteúdos que eles também aprenderam pelo mesmo sistema. Muita gente passou a vida sem comer brócolis, talvez traumatizados pela infância, época em que o paladar humano está mais voltado pra doces e, portanto, o brócolis e outras coisas parecem menos apetitosos. Mas, passado os anos, quantas pessoas se propuseram a redescobrir o sabor e a textura do brócolis? De maneira semelhante, somos traumatizados por um sistema de ensino falho que nos traumatizou com aulas maçantes, livros fora de contexto, redações escolares obrigatórias com temas e formatos pouco ou nada úteis, convívio escolar marcado por situações desagradáveis, uniforme escolar, estrutura precária e/ou antiquada e várias outras referências.

Se já superamos essa fase, é chegada a hora de revermos o quão proveitoso pode ser a Literatura. A internet, inclusive, pode ser uma grande aliada pra começarmos essa experimentação ou transição para conteúdos maiores e melhores. Há muita coisa na internet, em temas tão diversos que é praticamente impossível que pelo menos algo dela não seja motivo suficiente pra você dedicar tempo pra ler, nem que sejam algumas linhas por vez. E não faltam iniciativas ótimas que tentam nos reconectar pros aprendizados, em especial pela leitura.

No tempo do extinto Orkut, toda nossa participação na rede social se resumia a pequenas frases, saudações, emoticons e alguns gif-animados. Com a chegada do Facebook, demoramos um tempo pra nos adaptar e começamos bem lentamente, por poder postar apenas 12 fotos por profile. Com o sucesso da rede, os servidores se ampliaram pra atender a demanda de milhares de usuários e, assim, mais conteúdo foi possível de ser adicionado. Mas, inicialmente, tudo se resumia a pequenas postagens de status, como uma espécie de Instagram em modo texto, sobre o que cada um estava fazendo, pensando ou como estavam se sentindo. E com a massificação dos grupos / comunidades dentro do Facebook, os debates começaram a se ascender em diversos temas, com um sentimento de “obrigação” de comentar e dividir ideias sobre o que outros usuários estavam postando. Foi uma fase difícil onde muita gente socializava, porém dedicavam muito pouco tempo escrevendo ou lendo, até mesmo porque não mantínhamos o Facebook constantemente aberto no navegador ou celular, o que tornavam os debates bem pobres e superficiais.

Mas, a chegada de certos eventos e crises políticas e sociais no Brasil (alguns até internacionais) cutucaram o brasileiro pra uma conduta surpreendente de engajamento na internet e, como efeito colateral, textos maiores começaram a ser escritos e lidos. Acompanhei essa transformação como estudo e também como algo que estava vivenciando na prática junto aos demais. Gradativamente as pessoas foram de pequenas frases para curtos parágrafos e em pouco tempo estavam abertas para textos de 5 ou mais parágrafos sem nenhum incômodo pela extensão do conteúdo. Textos longos, ocasionais, eram absorvidos na íntegra e até comentados de forma massiva. Parecia um bom período pra Literatura, ainda que fosse via internet e por eventos momentâneos. Passamos por alguns altos e baixos e acabamos caindo numa época onde a moda era postar o chamado “textão” na internet. Grupos de debate, desconstrução e ativismo fizeram a vez por um bom período deixando algumas verdades pelo caminho, apesar de também deixar muito desabafo descabido. Mas de uma coisa eu agradecia: as pessoas pareciam estar lendo e escrevendo e descobrindo que isso não fazia cair os olhos ou os braços.

O Youtube não era ainda a carreira mais provável e desejável de tanta gente, então ainda se prendiam mais aos blogues, os sites de humor e os grupos. Agora, com a chegada de mídias diferentes e de tantos aplicativos de smartphone, as pessoas se acostumaram com um modelo de vida que é essencialmente baseado nessas tecnologias todas, desde o consumo, a produção de conteúdo, a socialização e, por fim, o trabalho de maneira profissional ou que aspira ser. O Youtube invadiu a vida e a mente das pessoas de tal forma e com tal quantidade de conteúdo que muita gente de fato largou tudo e todos e foi viver o Youtube, produzindo e assistindo. Não é de se surpreender que a indústria literária teve uma grande baixa nos últimos tempos. Estamos em crise literária, não só do ponto de vista financeiro das editoras e livrarias, mas da própria Literatura em geral, em produção e leitura, seja digital ou não.

É claro que textos longos afastam muita gente, especialmente em uma época onde a velocidade das informações é tanta que estamos numa constante ansiedade pra cumprir cada vez mais coisas. Atualizamos a tela do navegador de maneira compulsiva em busca de mais, mais e mais, desde que sejam conteúdos rápidos, curtos, superficiais. Trocamos os textos por hashtags, trocamos as fotos autorais por imagens genéricas do Google, trocamos os vídeos por trechos específicos convertidos em gif-animados e trocamos, muitas vezes, até a produção de conteúdo por um simples arrastar e soltar de qualquer coisa para dentro das páginas de Facebook, blogs e até dos messengers. Nunca se teve tanto SPAM e vendas imediatistas em lugares onde nem se divide tal atividade. Desesperados pela crise financeira de 2016 pra cá, muita gente está, de forma alucinada e sem nenhum critério, postando vendas e supostos serviços e produtos em todo e qualquer grupo de Facebook que fazem parte. E a Literatura? Ela morreu afogada nesse caos todo. Já não lemos, pois sequer temos tempo pro superficial e banal.

Estamos verdadeiramente adoentados e, tirando uma pequena parcela de internautas brasileiros, não somos mais absorvedores de conteúdos sérios em nenhum formato mais. Até mesmo os vídeos que poderiam ser uma grande conexão com todas as pessoas, independente da escolaridade, já se tornaram um mar de bobagens, famosos gravando suas inúteis superficialidades ao longo do dia, sem nada pra dizer, sem nada pra ensinar, apenas dividindo um pouco do tempo deles com você, lucrando às custas do vazio intelectual  de uma sociedade que, ironicamente, plantou seu próprio vazio ao se distanciar de diversas outras fontes de comunicação. E, pra por cereja nesse bolo todo, quem mais vende livros atualmente são os próprios Youtubers. Parte deles, sem nem ter capacidade pra tal, fizeram uso de GhostWriters (escritores contratados pra escrever o livro no lugar dos “autores”). Será que essa onda de fama pelas carreiras de ídolos do Youtube, por estarem vendendo livros, aproximará as pessoas de volta à Literatura? Acho improvável, pois como muitos apontam, comprar não significa ler. Caminhe pelos grupos de “leitores” no Facebook e verá o mar de gente dizendo tranquilamente de como acumulam livros novos sem terem sequer lido os anteriores. Muitos deles, renovam suas compras, vendendo livros intactos ainda com o plástico da embalagem, para transformar os livros que nunca leram em qualquer outra moda passageira, como trocar de celular a cada seis meses ou comprar uma câmera ou lente pra vendê-las uma semana depois.

A crise literária é, antes, uma crise existencial humana, crise pela modernidade com mal uso das tecnologias e, possivelmente, uma crise no sistema educacional e cultural do Brasil e da maioria dos países do mundo. Estamos enfrentando um monstro muito maior do que simplesmente uma queda no interesse pela leitura. Estamos enfrentando um aumento gritante de casos de depressão e suicídio de uma população que se viu aprisionada pelo vício em redes sociais, relacionamentos frios e sintéticos, ausência de convívio humano com amigos e família, trabalhos virtualizados, alimentação rápida e precarizada na própria mesa do computador com o celular em mãos por cima do prato.

As pessoas estão se enforcando a cada dia, porque recusaram os tesouros anteriores que lhes apresentaram de maneira falha, sem que pudessem notar o valor e posteriormente se viciaram em coisas das quais não souberam extrair valor, mas que lhes foram apresentadas como se fossem as coisas mais preciosas e necessárias da Terra, talvez justamente porque a sociedade estava tão vazia em cultura que abraçou com bons olhos as algemas que hoje veste. Esse dilema faz muitas gente morrer pelas mídias que elas mesmas inventaram e que não sabem porque ainda continuam com elas ou como parar. Seguem acessando as redes sociais, apesar de não pretenderem extrair nada delas, cientes que as redes sociais também já não pretendem oferecer.

Estou repensando a ideia de continuar a escrever livros. Não quero tomar muito tempo, nem gastar papel, com algo que possivelmente não será lido e, se lido, poderá ser muito pouco compreendido. Talvez fizesse mais sentido, entrar por dentro do Youtube e plantar a chave que nos liberta dessa prisão virtual. Com o potencial infinito da internet, deveríamos estar vencendo pelo conhecimento, mas a verdade é que estamos nos degradando em diversos sentidos e, na maior parte do nosso tempo. A verdade é que, por trás dessa virtualidade toda, estão seres humanos comendo mal, dormindo pessimamente, infelizes, cansados, desempregados, iludidos e viciados, que desaprenderam a socializar, já não fazem mais sexo e o pouco que sabem da vida se resume à algum link que possam te mandar. Já não traçam mais conversas, não viajam, não se encorajam, não questionam e nem querem ser questionados. Não sonham, não vivem e nem sabem por quem foram derrotados.

Essa semana eu vou sentar pra pensar exclusivamente nisso. Estou em uma jornada maior, tentando entender pra poder ajudar a recolocar as pessoas nos trilhos do aprendizado, da saúde emocional e física, do desenvolvimento de talentos e potenciais e de diversas outras questões que parecem estar nos dando ultimatos. Quero encontrar saídas novas, soluções melhores, alternativas, ferramentas, parcerias, iniciativas, ações mais eficientes e qualquer coisa que faça as pessoas se sentirem vivas novamente. Me envie suas sugestões e vamos fazer um grande brainstorm.

Rodrigo Meyer

Porque as pessoas desejam sempre as mesmas coisas?

Em um mundo onde a maioria das sociedades são formadas por modelos de excessivo consumismo, é fácil ver que boa parte desses momentos de desejo de compra são puramente artificiais e se mostram como um claro reflexo da propaganda mal intencionada que é veiculada não só pelas mídias mas pela própria sociedade. Da mesma maneira que as marcas vendem-se como necessárias ou importantes pra vida das pessoas, algumas pessoas, tomadas por essa crença, espalham esse modelo de vida cobrando e pressionando outras pessoas a se adequarem nesses moldes doentes.

Havia um tempo em que os presentes de datas comemorativas eram embrulhados em papel de presente ou nem mesmo eram embrulhados. Hoje em dia os presentes são abertamente dados com as sacolas e embalagens das lojas, com suas marcas estampadas de forma bem visível, afinal é isso que estão doando na verdade. Antigamente, os produtos em si eram o presente, mas hoje, o status de marcas e lojas fazem as vezes de “produto” a ser consumido.

Sempre tínhamos a visão de que certas marcas eram pra público mais abastado financeiramente e que outras marcas eram deixadas como uma opção barata de produtos iguais ou similares. Em todo tipo de produtos ou serviços as pessoas sentem essa depreciação de valor e qualidade (ou de suposta qualidade). E com isso, gera uma certa vontade de compensar o prejuízo social tentando adquirir um desses produtos mais caros. É assim que surgem pessoas dispostas a loucuras como gastar todo o salário de um mês na compra de um único produto, apenas pra ostentar o uso daquela marca. Outros, um pouco menos ousados, buscam as imitações / falsificações que cabem melhor no bolso, mas que falham em outros fatores, tanto do ponto de vista da legalidade quanto da própria qualidade. E, convenhamos, ostentar uma marca da qual você não pode sequer comprar o original devido ao preço caro, é o mesmo que divulgar seu próprio explorador.

Diversas pessoas trabalham em empresas das quais jamais poderiam comprar o produto que elas mesmas fabricam. Empresas de produtos esportivos figuram em crimes de trabalho infantil e exploração de mão-de-obra em contextos de trabalho escravo, sendo o extremo da ironia por produtos tão caros, onde nem a matéria prima é cara e nem a mão-de-obra é dignamente paga.

E porque será que apesar de tanto contexto ruim nessas empresas e produtos, as pessoas continuam desejando sempre ter as mesmas coisas? Uma busca por igualdade através do produto ao invés da equiparação das rendas? Busca por igual status e suposto privilégio social ao invés de buscar real respeito e valorização no meio? Será que ter uma roupa de marca, comer no fast-food da moda, morar na região nobre da cidade ou comprar o carro do momento transforma alguém em algo melhor?

As pessoas não se perguntam muito isso, afinal se o fizessem teriam que admitir que nada disso é feito para elas, mas apenas pra mostrar pra sociedade que elas venceram. Traumas e complexos as fazem devolver exageros na postura e no consumo, pra cobrir a diferença entre não ter tido condições no passado para as possibilidades financeiras do presente. Alguns, cientes de que não poderão sequer chegar nesse ganho financeiro, compram as falsificações no camelô apenas pra desfrutar entre os amigos de igual situação social um “sub-status” dentro desse grupo social em particular.

Se resolvermos nossas fraquezas psicológicas, superarmos o passado e revermos o valor real das coisas, entenderemos que pra sermos mais prósperos não precisamos nos render a status ou marcas de renome. Não precisamos fazer o que a maioria faz e nem precisamos pensar como a maioria pensa. Qualquer ganho social, seja do ponto de vista financeiro ou de outros tipos, não precisam vir acompanhados dos mesmos vícios que todos os demais tiveram ao cruzar com aquelas realidades.

Você pode achar uma roupa bonita, dentro do seu estilo, sem que tenha que se render à formatos predefinidos do que é bonito e bom pra uma roupa, conforme as regras que plantaram em sua mente apenas pra explorar seu bolso. Em tempos de internet onde podemos acessar conteúdos de empresas tão distintas entre si, temos duas situações principais: por um lado colidimos entre nossas realidades e realidades opostas, mas o lado bom disso é que podemos, contudo, ter opções e reafirmarmos a possibilidade de substituir certas coisas por outras. O conhecimento é poder em muitos sentidos.

Esse desejo que muitas pessoas mal sabem de onde vem e que alguns até acreditam que são desejos legítimos e demandas reais por produtos e marcas, é, na verdade, uma grande indústria de trabalho psicológico explorando nichos e grupos cada vez mais específicos de pessoas, massificando de forma geral o consumo, levando cada pessoa a achar que precisa de uma ou outra coisa, conforme o que ela pode ter e, contudo, a desejar também o que não pode ter, pra que isso se torne, então, muito mais valorizado perante os que podem comprar, pois nasce, então, uma competição de que, se o pobre deseja e não pode ter, é papel de quem tem dinheiro pra tal, comprar pra demonstrar poder e oprimir, consciente ou inconscientemente, os que estão abaixo.

Talvez as pessoas nunca tenham se dado conta, mas existe essa batalha constante entre ter e não ter. As pessoas que conseguem adquirir um produto, serviço, cargo ou posição social de qualquer tipo, sentem-se com uma ferramenta de poder nas mãos capaz de diferenciá-los dos demais sem que eles precisem fazer nada de especial ou útil. São diferenciados apenas por poder destacar a diferença na posse, de forma opressiva, ostentando e mostrando ao mundo que poucos podem ter e a maioria não pode. É o estilo de vida das vitrines de shopping da classe média e alta em que não se aceita bem a entrada de pobres, especialmente os negros, pra figurarem ao lado de seus maiores opositores.

Os oprimidos deveriam, portanto, pensar que manter desejos e consumos por essa massa de desprazer que se fantasiam de empresas, produtos e clientes, é altamente danoso pra si mesmo. Em resumo, é Síndrome de Estocolmo, quando o oprimido sente-se admirado ou apaixonado pelo seu próprio opressor, passando a defendê-lo. Isso alimenta um contexto social onde empresas pouco éticas e quase sempre ilícitas e desnecessárias, lucram bilhões às custas dos pontos fracos (especialmente os psicológicos) das sociedades em que elas exploram.

Você tem, contudo, o poder de diminuir ou até eliminar isso de nosso meio, bastando que se oponha na prática. Cesse o consumo, o apoio, a propaganda gratuita estampada nos produtos que usa, a gana de querer igualar-se à outros por questões equivocadas como status e padrão social. A liberdade que você gostaria de ter e não tem, às vezes é conseguida por uma mudança de postura como essa. Talvez você não venha a enriquecer, mas independente disso, você não precisa apoiar quem lucra às custas de opressões de classes. Lembre-se que, embora grande parte dos consumidores de marcas caras sejam pessoas ricas, quem produz muito daquilo são pessoas em situações pouco dignas ou indignas e às vezes até ilícitas, em trabalho escravo e/ou infantil.

Você se sentiria confortável de gastar mais de R$ 500,00 num produto em que apenas 1 centavo é destinado a pessoa que fabricou tal produto? Talvez fique ainda pior se te contar que pra ela ganhar este único centavo por produto, ela precisasse passar horas enfurnada numa sala sem iluminação, sentada ao chão, sem condições de higiene ou segurança de trabalho, sem alimentação adequada, sem perspectivas de vida, sem outras escolhas. Tudo se agrava quando esse “funcionário” é uma criança de 7, 10 ou no máximo 14 anos, que nunca teve oportunidade de desfrutar a infância, dividir seu tempo com a família ou mesmo de poder planejar saídas pra sua própria situação. Em casos assim, a escolha da empresa em aceitar tais contextos é que determina o que existirá ou não em termos de modelos de trabalho.

Se nos enxergamos como inaptos pra certos produtos e serviços, fica fácil entender que, por vezes, quem os fabrica ou serve também não possuem condições de comprá-los. Pode haver sistema mais injusto e doente que este? Portanto não há motivos sadios pra se apoiar isso. Se eventualmente se sentir em situação de fraquejo diante dessas questões, busque repensar um pouco seus valores e suas reais necessidades na vida. Avalie se o que está fazendo em seus hábitos de consumo não são apenas uma tentativa falha de compensar complexos e traumas do passado. Sempre que achar necessário, busque ajuda de pessoas mais esclarecidas sobre o assunto, bons amigos que possam ser parâmetro e incentivo pra condutas melhores ou até mesmo de psicólogos e terapeutas que possam te ajudar a superar suas questões internas, pra que você realmente progrida socialmente e pessoalmente, ao invés de se enroscar em situações ilusórias sobre qualidade de vida. Tristes são as sociedades que confundem qualidade de vida com poder de consumo e que confundem consumo com consumismo e futilidade.

Rodrigo Meyer

Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

Pela janela de casa eu vejo …

Atrás das cortinas, o mundo grita lá fora. Pessoas desesperadas por um minuto de reconhecimento. De semana em semana, as pessoas, sem nenhuma grana, correm as ruas do bairro atrás de vento na cara e barulho da boca pra fora. De bicicleta ou a pé, de skate ou em um carro qualquer, ouve-se tudo menos a voz do pensamento. O barulho é sangrento.

Poderia eu culpar o mundo todo pela falta de paciência que às vezes habita em mim. Poderia eu dizer que o vazio de todos eles não está um pouco em mim. Poderia dizer que eu estive sempre à frente de todo caos e que eu sou meu próprio fim. Mas, não digo, não sou, não posso, não vou.

Pela janela de casa, vejo vizinhos entristecidos com a própria vida. Uma senhora idosa já cansada de solidão, espia pela janela se mais alguém está surgindo junto com o barulho da multidão. Atrás das cortinas, da sala apagada, está também a alma cansada de habitar o corpo cheio de dor, esquecido com louvor.

Também é pelos vidros sujos de poluição que consigo ver semelhança com os céus de São Paulo. Um bairro alto, tão mais perto das estrelas, mas sem que eu possa vê-las. Elas lá, escondidas atrás de nuvens cinzas de metrópoles nada transparentes ou coloridas. Lá estão elas esperando uma chuva que as venha dissipar. Vejo muito futuro pro caos e pouca esperança pra nós. Fecho as janelas na esperança de pausar a vida.

Do lado de dentro das janelas, os olhos insistem em não ver, querem se esconder de tudo e de todos, pois sabe que lá fora, debaixo do sol e muitas vezes da chuva, estão  as realidades nuas e cruas. É chato ter que olhar todo dia pras mesmas casas, sem nada poder entender do porque de tanta mesmice se nem mesmo quem as cria está satisfeito com esse modo de vida.

Tem dias que sou obrigado a rasgar as janelas pra abrandar o calor e, sem nenhum amor, faço barulho com elas pra quebrar um pouco da estagnação e de qualquer passividade que possa trazer dor. É quando me dou conta de que, de alguma forma, os gritos lá fora também são semelhantes. Embora muito mais constantes, eles também existem quando precisam extravasar a ausência de valor. Comigo ainda posso frear a visão excessiva do caos buscando amparo no amor-próprio. Muitos outros, se são tal como entendo, não conseguem ainda se orgulhar de existir, especialmente depois que toda a cidade os fez sumir.

Consigo entender, mas não quero absorver. São ruídos que não somam, não me fazem crescer. Escuto o barulho da marreta caindo, do cachorro latindo, da vizinha fingindo, da molecada riscando o skate nos buracos do asfalto, a madame perdida triscando a ponta do salto-alto. Escuto barulho de carro quebrado, carro esquecido, estacionado em lugar errado. Escuto alarmes inúteis que só se desligam quando todo o tempo do mundo já passou.

Pela janela de casa eu não vejo paisagem nenhuma, só casas e a certeza de que nem mesmo nas alturas estamos altos o suficiente pra não parecermos visualmente deficientes. Nada se pode ver, mas tudo se pode ouvir. Ninguém aceita o espaço vazio entre um telhado e outro e mesmo pelas janelas dos outros, são só outros piores tesouros. Desligaria tudo e viajaria pra longe, mas não sei mais em que lugar distante eu não encontraria a mesma jaula transformada numa casa com janelas. Queria mesmo é viver sem elas.

De alguma forma, eu não vejo muito, porque estou mais preocupado em sentir, em ser. Eu deixei de lado aquela repetição infinita de gritos que pedem coisas das quais nem elas sabem que não precisam pra viver. Eu deixei tudo isso encostado em algum baú empoeirado e fui reorganizar a minha própria vida. Sento na cadeira, penso dois minutos e logo me levanto. É verdadeiramente um espanto que eu já não consigo esconder. Estou assustado comigo mesmo, com a vontade incontrolável de sair e inventar coisas pra fazer. Aquela saudade de países distantes que nem posso decidir o tal ‘ser ou não ser’. Aceito, pra doer menos. Aceito que não tem jeito e a vida vai seguir com ou sem mim nesse mar que afoga principalmente os que não sabem viver.

Fico imaginando se estivesse na terra dos diamantes se estaria mais preso ou mais livre, por não saber brilhar tão forte quanto é necessário pra ser percebido por dentro. Escolho olhar a janela me convidando pra, mais tarde, decidir sair um pouco e me divertir. Esqueço elas e abro as minhas próprias, botando na caneca um pouco de álcool e aquela dose de risada e observação. Desse jeito, parece até que eu tenho dentro de mim alguma razão. Quem sabe eu me descubra alcoolizado e me sentindo muito mais feliz do que toda aquela gente desnecessariamente orgulhosa que em tudo que toca quer ver regras e atenção.

Eu sei que o efeito passa, o tempo passa, a vida amassa, a gente assa, perde a asa e acaba sempre deitado e encolhido no chão. Sei também que embora eu queira dizer muito ‘sim’, eu só consigo dizer ‘não’. Estou sempre em busca de fechar as janelas do quarto e esperar que dentro de casa seja menos turbulento do que o enfrentamento da realidade patética que brota na esquina de casa, na avenida adiante, no bairro distante, do outro lado do país, como em quase toda parte do mundo.

No fundo, todos sabemos, não importa onde estejamos ou o que queremos, a vida é feita daquilo que temos por dentro e, quase sempre, não entendemos. Precisamos deixar de lado a construção idealizada das casas com vista pro paraíso e abrir os olhos e ouvidos pra ver o que não se pode ver nem escutar. É preciso sentir um pouco, de vez em quando, o chamado que vem de longe, como quem anuncia um evento importante. São pessoas que, embora não saibam nada sobre suas próprias mazelas, vivem todos os dias, as minhas e as delas, porque estamos todos juntos vivendo a mesma vida, dividindo os mesmos dias vencidos e a falta de aliados pra discutir alguma saída ou ideia.

Mas não há motivos pra desanimar. Nem todo mundo entende porque é que tentamos fazer algo positivo quando todo o planeta está sempre em guerra, sem querer mais beijar ou abraçar. A vida não é o que a janela filtra, nem o que cada pessoa grita. A vida antecede tudo e todos e é um mistério que não cabe no bolso. Temos que ter a  certeza de que se perpetuarmos um pouco da nossa experiência, seremos vitoriosos de alguma maneira surfando em ondas de prazer e transformação, mesmo que, lá da praia, pouca gente possa entender o que é que estamos a fazer, de pé na prancha, no meio daquela terrível inundação.

O brilho da vida só parece um pouco empalidecido por causa do filtro sujo da janela, mas podemos limpá-la de tempos em tempos pra lembrar o valor do vidro, do vento surgindo e das cores vivas por trás da poluição do ar. Podemos sempre viajar, mudar de casa, mudar de bar, mudar de lado, de pessoas e voar o mundo com outras vassouras. Os verbos de ação nos tiram quase todas as más sensações e nos permitem brincar até mesmo na contramão. Se algo na vida não muda e parece não ter mais sentido, podemos fechar os olhos e usar a imaginação. Se o momento não é o melhor, desligue a mente e deixe o corpo trabalhar até produzir suficiente suor. Hoje é Terça-feira, e eu preciso explicar, pra quem queira, que amanhã é um dia novo e podemos conquistar um belo futuro se impedirmos que nosso presente seja aquela velha baboseira.

Rodrigo Meyer

Porque as profissões da área de criação se tornaram moda?

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Eu sempre fui conectado com as áreas de criação. Dos desenhos e pinturas da infância, os poemas, a literatura, caligrafia, comunicação visual, pintura à óleo e posteriormente a Fotografia e a Comunicação Social profissionalmente, incluindo a parte da publicidade, redação publicitária, design, ilustração, diagramação e diversas outras áreas associadas. Em razão disso eu sempre estive acompanhando os nichos de trabalho, o mercado e as pessoas envolvidas com essas temáticas. E é dessa experiência de uma vida toda que eu pude perceber fases e tendências entre as profissões de criação e as demais.

Por ser fotógrafo há mais de 15 anos, acabei em contato com muita gente da área artística. Conheci gente do teatro, da música, da dança, tatuadores, pintores, desenhistas, maquiadores, modelos e, claro, outros tantos fotógrafos. Com a Comunicação Social, cruzamos com jornalistas, publicitários e outros que seguiram, inclusive, várias dessas mesmas áreas ao mesmo tempo, afinal em tempos de internet, profissão única já é incomum.

Estamos vivenciando há alguns anos um boom da área de criação. E isso não é necessariamente positivo, porque nem todo mundo que está se associando à essa onda, está de fato se capacitando pra se tornar profissional nas atividades que escolhe. E quando falo em se capacitar, não precisa ser sentado na cadeira de uma universidade ou gastando todo o dinheiro do mundo pra aprender uma profissão. Estou simplesmente falando em ir atrás de aprender, seja como for e com quem for, desde que aprenda de fato. E estou acompanhando uma defasagem triste nesse sentido.

Existe um glamour por trás das áreas de criação e isso é culpa de vícios de exposição e pensamentos mal estruturados em nossa sociedade ao longo de várias e várias décadas. Sempre tratamos os profissionais da área de criação como se estivessem à margem da sociedade e que seus trabalhos nunca fossem trabalho de fato. Para grande parte da sociedade, ser um pintor, por exemplo, é tido como exemplo de quem optou por não trabalhar e se encostou em uma atividade divertida como fosse um passatempo. Publicitários são vistos até hoje como aqueles que sentam num sofá e relaxam pra rir e começar a rabiscar ideias criativas. Ainda traçam a visão de que todas as áreas de criação existem por acaso, pois seriam apenas mera diversão. Quem enxerga essas profissões assim, está perdido em ignorância e imaturidade.

Como consequência desse senso comum da sociedade, é gerada uma atração que aproxima à essas áreas muitas pessoas que de fato não querem trabalhar com seriedade. O sujeito que não valoriza o desenho como profissão pensa que se ele não tiver muito interesse em trabalho, ele pode rabiscar umas folhas e essa pode ser sua divertida atividade pra vida. Tem sido assim com a Fotografia (vista como a arte de apertar botão), o Design Gráfico (visto como a arte de brincar no Illustrator Photoshop), a Comunicação em Geral (que pra muitos se resume em postar no Facebook), Modelagem 3D (que alguns acreditam ser simplesmente um efeito de Photoshop pra dar volume à textos), produção de vídeos (visto como apertar botão REC e fazer upload no Youtube) e também na escrita de blogues, livros e outros formatos (onde muitos acreditam que basta copiar e colar uma frase que encontraram em algum lugar da internet e o resto será sucesso garantido).

Mas depois que nosso estômago sossega e para de ficar embrulhado com essa realidade triste, a gente volta a cabeça ao centro e tenta entender esse fenômeno. É claro que se você disser que existem pessoas trabalhando com mera diversão ou com ‘não-trabalho’, muita gente vai crescer os olhos pra cima disso, afinal nossa sociedade, infelizmente, formou muita gente pra perder interesse por trabalho e estudo. Criamos pessoas que se acostumaram a pensar que trabalho sério é sinônimo de escravidão e chatice e que estudos são perda de tempo com a mesma chatice já anunciada.

Essas pessoas nunca foram instigadas a pensar que ter uma profissão não é algo que deveria vir apenas da necessidade forçada de se pagar as contas. Elas nunca viram ao redor as pessoas trabalhando felizes com aquilo que gostavam de fazer. Elas nunca viram alunos no meio escolar se interessando por aquelas aulas que a maioria não estava sequer preparada pra receber. Para muitas das pessoas, em várias partes do mundo e em especial no Brasil, estudo e trabalho são palavras que criam repulsa, desconforto, tédio e insatisfação do começo ao fim. E é assim que ‘memes’ e piadas sobre a chegada da sexta-feira tomam a internet desde sempre. As pessoas comemoram o dia em que finalmente largam o trabalho ou a escola e se jogam no fim-de-semana livres pra fazer algo prazeroso.

Eu nunca tive sequer a noção de que sexta-feira fosse o dia de encerramento da semana de trabalho, até porque na área de criação trabalha-se principalmente nos finais de semana. Enquanto você está dançando e bebendo numa casa noturna, um fotógrafo está lá trabalhando, inclusive em horários incomuns pra maioria dos trabalhos formais. Enquanto você estava curtindo um evento de rua como a Parada Gay, um fotógrafo ou cinegrafista estava lá pra trabalhar. Enquanto alguns estão descansando, outros estão madrugando, escrevendo o texto que precisa chegar antes de todo mundo acordar. Jornalistas, blogueiros, criadores de conteúdo  e social media, publicitários e comunicadores em todas as vertentes, estão sempre ali planejando o que só virá à tona somente depois de pronto.

Infelizmente, as pessoas tendem a simplificar a análise do que elas veem pela frente, acreditando que o trabalho desses profissionais criativos se resume somente ao trabalho final, como o desenho sobre a mesa, a foto clicada, ou o livro na prateleira da livraria. Em outras profissões, feitas às claras, é mais difícil de ignorar o extenso trabalho que está associado a elas. Quando vemos o pizzaiolo, literalmente, com a mão na massa, vemos o trabalho dele quase que por inteiro. Quando vemos um motoboy na rua, vemos o trabalho (e o risco do trabalho) que ele desenvolve. Também é fácil observar o trabalho de um gari, carteiro, pedreiro, repositor de estoque, motorista de ônibus, eletricista, mecânico e outros.

Isso ocorre, claro, porque são profissões em que o trabalho é desempenhado abertamente à nossa frente. Por outro lado, o trabalho das profissões criativas geralmente não é visto, porque as pessoas em geral (mesmo os clientes) não tomam contato com o momento da criação. Você consegue ver o padeiro segurando a massa e levando ela ao forno, mas não consegue ver o que está por trás do clique de um fotógrafo. Você não nota a regulagem do diafragma, velocidade, ISO, distância focal, enquadramento, fotometria, foco, ângulo, entre dezenas de outras questões.

Isso talvez explique o encantamento que muita gente tem com médicos, por exemplo. Essas pessoas não veem o que está por trás do ato de costurar um corpo em uma cirurgia. Parece simples como um bordado e, apesar disso, salva vidas. Peça pra uma costureira trabalhar como médica e morreremos todos assim que as doses de medicação estiverem fora do necessário pro contexto. Da mesma forma um médico que se atreva a costurar roupas, vai desempenhar um trabalho insuficiente pras necessidades daquela atividade. Não conhecemos o que cada profissional faz, à menos que estejamos em contato com essas atividades. E se não forem atividades abertas como a de um motorista ou mecânico, você terá que se dedicar um pouco mais pra descobrir o que está por trás dessas profissões.

Imagine como deve ter soado como mágica quando cientistas da antiguidade dominaram a química e podia, por exemplo, colocar um líquido junto à outro e ter mudanças de cor ou uma erupção de espuma. Se não fosse o extenso estudo sobre o que cada substância faz, porque faz e como faz, não teríamos a valorização do profissional de química. Não vemos os átomos e elementos a olho nu e muito menos podemos visualizar a relação quase que abstrata entre eles. Só nos resta, então, a compreensão do que está por trás do efeito visual final. Isso requer estudo, requer flexibilidade mental e social pra aceitar que é o cientista ou o profissional de cada específica área que sabe o que se passa por trás de toda aquela realidade.

As áreas de criação se tornaram moda justamente quando a tecnologia nos deu a facilidade de fazer certas imitações sem ter o conhecimento real. Podemos simplesmente apertar o botão de gravar do celular e já temos um vídeo. Se quisermos uma fotografia, podemos apertar o botão e até mesmo corrigir vários estragos pelo Photoshop. Temos acesso à programas gráficos, imagens para montagem e todo tipo de recurso de software que nos permite imitar atividades. E com as redes sociais, podemos, inclusive dividir espaço lado a lado com os profissionais e ter a visibilidade do público. Isso nos dá a ilusão de que estamos de fato dentro dessas áreas, profissionalmente.

A internet deu visibilidade extrema pra todo tipo de atividade criativa, quando as pessoas já tinham uma visão deturpada sobre qual era o trabalho dessas áreas e então ficou acentuado quando, por exemplo, criar “marcas”, fanpages, fotografias, textos ou vídeos se tornou a “necessidade” do momento. Acreditam que se todos estão fazendo e todos estão vendo, talvez seja esse o caminho fácil e prazeroso pra se ter trabalho nos tempos modernos da internet. Se esquecem, porém, que antes da internet já existia a Publicidade, a Fotografia, a Literatura, o Design, a Ilustração, o Cinema, etc. E a existência da internet e das tecnologias digitais não elimina, de forma nenhuma, a necessidade de ser profissional para se desempenhar qualquer uma dessas profissões.

Criar é tudo de bom, com certeza. Todo ser humano tem, em algum grau, o impulso de criação, seja em uma ou mais áreas. Todos nós deveríamos estar envolvidos, de alguma forma, com a produção de algo nesse sentido. Mas precisamos, antes, aprender a realidade por trás de cada área de estudo e entender que, assim como dirigir carros não é meramente girar volante pela cidade, as áreas de criação também não são aquela fantasia infantil que a sociedade teve prazer em sustentar e espalhar por tanto tempo no inconsciente coletivo. O problema nunca esteve na popularidade dessas profissões ou mesmo nas atividades em si. O único problema é a colisão catastrófica entre o encantamento por essas atividades criativas e o desconhecimento sobre o que realmente essas atividades são. Quando uma profissão séria e complexa colide com a imaturidade de quem a busca, os resultados são sempre ilusórios e danosos.

Ficarei imensamente feliz de ver novos profissionais chegando na sociedade em todas as áreas, mas terão que entender e se adequar ao necessário pra cada área se quiserem ser respeitados e valorizados como profissionais ou entusiastas no meio. Desde sempre tento ensinar Fotografia pra mais gente, pois meu grande sonho era ver novos fotógrafos surgindo e levando esse estilo de comunicação adiante. Mas, infelizmente, tem sido uma batalha árdua tentar agradar com Fotografia uma massa de gente que vem em busca apenas de aprender a apertar botão. Quando as pessoas descobrem que Fotografia não é, nem de longe, nada parecido com apertar botão, elas correm loucamente pra longe da área, afinal é como quebrar aquela ilusão doce de que áreas criativas são só entretenimento próprio, muita descontração, nenhum estudo ou trabalho e bastante glamour e moleza. Quando elas são obrigadas a ver a realidade por trás da ilusão, encerra a vontade por aquilo, afinal a vontade não era por Fotografia, mas apenas por apertar botão.

Se me dissessem que dormir e comer pudessem ser as únicas atividades “profissionais” da minha vida, certamente eu ficaria encantado também. E, se parar pra pensar, já tem gente encontrando respaldo nessa possibilidade quando sabem que certos programas de televisão pagam prêmios pra encarcerados fazerem basicamente isso enquanto são filmados em tempo integral para entretenimento de massas idiotizadas que, por essas mesmas razões, acabam se encantando com o mundo fantástico da televisão, do não-trabalho, do glamour de não se fazer nada de sério e assim por diante.

É preciso quebrar esse estigma alucinado que grandes mídias propositalmente plantaram na mente das massas e começarmos a buscar, na raiz, a trilha pro nosso novo aprendizado. Precisamos discutir como vamos repensar as escolas, os modelos de reunião familiar, os conteúdos da internet, das rodas de amigos, as conversas de bar, os novos modelos de mídias e de trabalhos. Precisamos ‘reaprender a aprender’. Estamos tão acostumados com falsas definições de termos como ‘escola’, ‘educação’, ‘família’, ‘sociedade’, ‘trabalho’, ‘diversão’, ‘oportunidades’, que temos dificuldade gigantesca em ver qualquer coisa que venha com a definição original / real.

Antes de ensinarmos uma profissão pra alguém, precisamos ensinar tudo que vem antes do entendimento do que é uma profissão de fato. As pessoas só poderão escolher qual profissão querem estudar e seguir se souberem, antes, a realidade por trás dessas atividades. Você não pode ensinar Cinema pra aprendizes que estão buscando essa área de estudo na esperança de apertar o botão REC e mais nada. Se isso estiver nesse nível de entendimento, precisamos emergencialmente reeducar essas pessoas para outras questões anteriores a escolha de profissões e atividades pra vida, senão veremos as pessoas batendo recordes de evasão escolar e forjando profissões das quais nunca entenderam ou estudaram.

Já vemos muito disso, quando alguém compra uma câmera fotográfica e no dia seguinte já se anuncia como fotógrafo pelas redes sociais. Pior do que nada saber sobre a área é cobrar por ela e reforçar a ideia para o público (através dos clientes) de que de fato Fotografia não tem valor, pois basta comprar uma câmera e apertar botão. E, sem perceber, essas pessoas dão dois tiros. Um tiro vai no próprio pé, ao anunciar pra todo o planeta que sua profissão não tem valor nenhum e o outro tiro vai em todos os verdadeiros fotógrafos que, embora façam um trabalho real, são misturados aos não-profissionais e igualmente ignorados e desvalorizados pela visão do público que agora enxerga esse despreparo como sinônimo da área de criação.

Embora seja verdade que ainda restem pessoa que sabem o que os profissionais de criação fazem, é também verdade que essa quantidade é cada vez menor, pois a divulgação contrária é constante e cada vez maior. Cada vez que uma pessoa aprende de verdade uma profissão criativa, outras milhares estão chegando no “mercado” sem ter estudado absolutamente nada e deixando pra sociedade a noção equivocada de como são essas áreas. Como dizem, ‘uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade.” e é exatamente esse o triste momento que estamos enfrentando. Profissionais de criação estão desacreditados desde longa data, pois nossa sociedade cresceu alimentando mentiras grotescas acerca dessas áreas e, agora que temos exposição absurda na internet, é praticamente impossível controlar a epidemia que espalha a mentira pra todo canto do planeta, 24 horas por dia.

E o que podemos fazer pra reverter esse estrago? Precisamos, cirurgicamente, pinçar aprendizes pra vida e guiá-los em alguma profissão concreta. Precisamos segurar nas mãos de alguém do começo ao fim e lhes dizer com prioridade sobre tudo o mais que se precisa absorver antes das profissões e somente no futuro, eventualmente, ensinar-lhes a profissão em si. Trabalho de dedicação full time que toma tempo, dinheiro e suor, mas que é a única opção que temos. A palavra ‘aprendiz’ já não pode ser mais sobre um ofício em particular, mas deve, sobretudo, ser sobre todo o entendimento da realidade que nos cerca.

Eu me contorço de orgulho em ver profissionais de outras áreas levando transformações pelo interior das pessoas, pois é essa a ordem correta no longo caminho de aprimoramento social. Você não consegue polir uma estátua antes de lapidá-la, assim como não consegue nem lapidar, se não tiver um bloco bem firme de rocha, extraído da forma certa, do material certo e no local certo. A construção do ser humano apto a desfrutar do potencial de qualquer sociedade passa pela transformação profunda do próprio ser em todas os aspectos. Precisamos falar em muitos outros textos e momentos, com muitas outras mídias e formas de ação, sobre as importâncias maiores da vida humana, antes de pintarmos as fachadas desses templos com questões menores e posteriores como atividades e profissões.

Rodrigo Meyer