Crônica | A vizinha fantasma.

Saí na varanda, olhei pro outro lado da rua. Que cena cansativa. Em dias normais, a idosa que mora quase que na casa em frente, fingiria arrumar a cortina só pra matar a curiosidade ingrata de saber o que os outros estavam fazendo. Mas hoje, um dia mais intenso, foi um pouco além, mesmo não sendo a primeira vez. Saiu e foi até o portão. Olhou como se tentasse matar o tédio de estar o tempo inteiro largada em casa sozinha. Saiu pra calçada em claro sinal de comprometimento da mente e se prostrou perto do portão do vizinho, surgindo sinistramente com seu rosto espiando pelo canto do portão, pra ver sabe-se lá o que. O que ela esperava encontrar? Uma festa onde todo planeta foi convidado, menos ela? Talvez estivesse depositando apreço demais nos vizinhos, por conta da ausência da própria família. Socialização não tem. Talvez seja isso que lhe falte. Mas, a ruína na mente talvez a faça confusa ou sem memória pra entender ou lembrar que seus parentes não a visitam nunca, exceto uma vez ao ano ou até a cada dois anos, provavelmente pra saberem se ainda está viva. Aos meus olhos ela já estava morta faz tempo. Uma vida vazia é pura ansiedade e sofrimento.

Rodrigo Meyer

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