Prosa | Cozinhando o tempo.

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Às vezes, em um dia qualquer, de madrugada, vou à cozinha pra preparar alguma coisa. Não há muita diversidade, mas gosto de aproveitar o que está disponível pra misturar. Uma frigideira média, fogo alto, um pouco de óleo e as sobras de macarrão, podem ser um bom começo. Enquanto aquece, vou descascando uma cebola e fatiando pra obter os anéis. Em outra frigideira, as cebolas vão com um pouco de ervilhas. Se o dia permite, coloco um pouco de molho shoyu, apesar da bomba de sódio que isso é. Quando a cebola já está suficientemente mole, misturo com o macarrão e o prato está feito. Nada muito original, tão pouco difícil. Mas, a importância está no ato. Cozinhar é meu momento de me desconectar de todo o resto e pensar apenas naquilo que estou fazendo. É um dos raros momentos onde esqueço que a vida está trincada. Deve ser parecido pra quem pratica dança, faz artesanato ou algum esporte.

Sinto que quando o corpo está trabalhando em algo fácil e muito objetivo, há menos chances da mente sair navegando por outros mares. O trabalho manual traz esse contato com a realidade prática das coisas. Não sei se isso funciona da mesma maneira pra todo mundo. Eu encontrei esse refúgio ao acaso. Tem dias que cozinho de madrugada, mas às vezes me serve no final da tarde ou lá pelas nove da manhã. Depende muito mais do meu estado emocional prévio. Às vezes eu nem estou com fome, mas é bom ter algo pra fazer.

Se fosse apenas pra comer, bastaria uma mistura em temperatura ambiente ou vinda direto da geladeira. Nunca fui fã de comida quente. Tomava bebidas geladas inclusive no inverno e sempre tive muita frustração em queimar a língua quando estava desmoronando de fome, porque minha família tinha o hábito de fazer tudo fervendo de forma que ninguém podia jantar ou almoçar quando queria. Provavelmente isso incentivou que eu me dedicasse à cozinha desde muito cedo. Às vezes acordava de madrugada e ia cozinhar qualquer coisa, pra passar o tempo, ouvir um pouco de rádio ou assistir televisão. Nos últimos anos tenho feito isso novamente, com certa frequência. São momentos pra esquercer quem sou e onde estou, me concentrando apenas nos mecânicos atos de preparar a comida.


Já tentei os mesmos resultados por meio do artesanato, da pintura, da caligrafia e da música, mas nada disso me permitia me desconectar, porque eu me via obrigado a racionalizar diversas questões sobre aqueles processos e resultados. Com a comida me pareceu mais automático e descompromissado. Cozinhar parece ter um componente extra. Talvez seja a atenção ao ponto, ao fogo, o cheiro da comida ou qualquer outra coisa que a comida suscita. Então, eu cozinho e deixo esse espaço ser preenchido pelo estalo na panela, o barulho da faca e o ritual exercido pra que tudo dê certo.

Poucas coisas na vida têm essa simplicidade no ato. São coisas arraigadas na cultura média humana. Cozinhar nos lembra de todos os momentos em que dividimos a cozinha com gente querida ou, simplesmente, curamos a fome depois daquela ressaca de bebida. Comer é um ato universal e o momento em que estamos na cozinha nos conecta com esse lado essencial da vida. Também é assim no sono, no sexo ou quando ouvimos os animais ao redor. Talvez, de maneira similar, cozinhar seja um processo de reconexão com as coisas simples da vida humana, da natureza, da essência do que é viver.

Não sei se é exatamente a mesma coisa, mas percebo semelhanças entre o ato de cozinhar e aquelas cenas bucólicas que descrevemos sempre com um ar de poesia. O cheiro de terra molhada, o céu extremamente estrelado, as mesas rústicas de madeira, cidades simples, zonas rurais, pé no chão e pôr-do-sol entre as montanhas. Quando eu viajava pra lugares assim, eu esquecia do tempo, apenas sentindo cada momento e deixando a vida acontecer. Sem poder viajar, por enquanto, eu cozinho, escrevo meus pensamentos e me consolo com a possibilidade de um amanhã diferente.

É bom saber que estou escrevendo por um viés de esperança. Nem sabia que ainda poderia encontrar isso em mim. Talvez esteja dando certo a terapia na cozinha. Às vezes surge um cansaço ou um dilema e eu deixo passar, vou pra outro assunto, até o tempo trazer novidades. Uma noite de sono, um sonho diferente, às vezes, faz o amanhã ser melhor. Eu estava com muitas certezas sobre meus próximos passos, mas de um dia pro outro, uma conversa tirou minha firmeza. Agora estou ponderando o que me será mais fácil e mais palatável. Quero algo simples como o ato de cozinhar. Esse tem sido o meu modo de decidir as coisas na vida, depois de tantas frustrações.

Já não tenho disposição pra planos mirabolantes. Quero a tranquilidade no pensamento e uma vida simples. E isso não quer dizer uma vida sem aventuras ou emoções. Eu quero que a vida seja intensa, mas, sobretudo, que tenha consistência, espontaneidade, sinceridade e dignidade. Seria mágico se alguém me surpreendesse estendendo a mão e dizendo que tudo ficaria bem, mesmo que tivéssemos que atravessar o mundo escorados um no outro. A idade vai chegando e gera uma certa ansiedade estar à deriva. Sou alguém construindo novas portas nessa velha casa. Por algumas ainda se pode entrar, mas outras foram criadas apenas para sair.

Todo dia eu faço escolhas, tropeço, me escuto de perto, ouço novamente, mas nunca chego num veredito final. Eu sei que estou um tanto perdido, sem certezas de onde vou navegar. Os filmes que assisto me espantam com descrições fieis da realidade, quando mostram dramas psicológicos de pessoas mastigando a vida. Fora dos filmes, nos dizem pra mudarmos o foco da narrativa, prestar mais atenção nas coisas boas, nos momentos engraçados, mas eu ainda sigo cozinhando, tentando remendar meu cristal trincado. Talvez um pouco de silêncio na mente ajude. A vida pode não oferecer respostas, então, teremos que inventá-las, se quisermos ter algo pra acreditar que tudo vai melhorar. Mas eu fui teimoso, eu preferi a crueza da realidade e, nesse estilo de vida, não há doces ilusões que me desviem o olhar das coisas azedas e amargas. Talvez, a solução pra vida seja dançar com a ficção.

Podemos tentar largar as coisas ruins do mundo ou deixá-las mais afastadas do olhar e simplesmente nos concentrarmos em pequenas grandes ações. Quando estou muito destoante desse padrão estritamente positivista, sinto que estou fugindo de alguma coisa. Mas, do que é que eu estou fugindo? Quando eu fujo de tudo e de todos, talvez eu esteja fugindo de mim mesmo. Talvez, essa desconexão que eu sinto enquanto cozinho é a também uma fuga da realidade ou das coisas que não quero mais encarar. O mundo que, atualmente, parece intragável, nunca foi muito diferente do que é hoje. Então, a crise atual é só uma crise de saturação. Pode ser que essa minha angústia e a busca por novos lugares, momentos e sonhos, sinalize que algo dentro de mim está sempre me incomodando, me obrigando a correr pra longe de mim mesmo.

Prevejo que ainda tenho muito pra moer nas salas de terapia e escrever é parte desse processo, onde eu coloco pra fora meus pensamentos e questiono meus medos, inseguranças, defeitos, angústias, frustrações, desejos, objetivos e planos. Colocar tudo na minha frente me obriga a ver, a ler o que estou manifestando. Materializar o interior é extremamente importante. Quando vamos analisar a vida, não podemos nos limitar à textos técnicos ou críticas baseadas simplesmente na política e na História. É preciso tocar a natureza humana que nos habita, fazer reflexões profundas sobre nosso próprio ser e ver quais ferramentas temos à disposição para lidar com aquilo que encontramos. Melhorar a vida vai muito além de aplicar as ciências do lado de fora. Essa revolução interna é lenta, sem garantias e pode se arrastar por toda uma vida. Mesmo assim, tal como as revoluções políticas e sociais do lado de fora, devem ser feitas.

Quero que a vida seja um pouco mais palatável, mais fácil, mais amigável. Quero sentir algum prazer diferente, alguma emoção mais profunda, mais calor e um tempero novo, mas, também, a segurança de um trem que me leve pra casa depois de um dia difícil, uma fotografia que seja boa por muito tempo, um chuveiro quente, uma bebida esperando na geladeira, uma cadeira confortável, um abraço de quem se importe com a minha presença e sinta falta da minha ausência. Assim eu imagino que seja essa boa dança com a vida.

Para que eu me aproxime, novamente, dessas possibilidades, eu preciso continuar a sonhar e lapidar a qualidade do meu jardim. Sem os sonhos, todos nós já teríamos desistido de tudo e nos rendido às situações mais indignas, injustas e covardes. Precisamos enxergar nos nossos sonhos o componente da resistência, aquela fagulha que nos empurra pra frente. É importante ter a iniciativa e ir realizando, independente do tamanho dos nossos atos. Se pudermos ouvir o ritmo da música, precisamos nos manter dançando, criando, mudando. Mesmo com diversas saudades, eu não posso ficar preso no passado, senão meu futuro estará condenado. Para a comida não queimar, é preciso mantê-la em movimento. O corpo parado enferruja, assim como a mente, o coração, a razão, a cultura, a luta e a vida.

Estamos todos um pouco (ou muito) perdidos, tentando não adoecer em nossas próprias histórias. Mas viver do passado é sempre tarde demais. Se não vivermos o momento presente, não teremos nada além desse passado que não volta. Se é verdade que já não temos nada pra perder, vamos levando a vida no nosso ritmo até onde for possível. De repente, descobrimos um pedaço de bolo esquecido no fundo da geladeira ou alguém nos convida pra uma realidade diferente. Por mais que achemos que nada bom vai acontecer, temos que manter abertas as portas da alma, pois trancadas elas não nos oxigenam, não nos pulsa vida e não nos atrai nada. Nosso ser também é uma casa e para manter qualquer casa agradável, temos que varrer o chão, lavar as panelas, fazer outra comida, abrir as janelas, deixar o sol entrar, tomar um banho, mover o corpo e continuar nos expressando. E uma casa só emana vida quando tem alguém habitando.

Quando faço um pouco mais por mim, sinto que estou concretizando objetivos, mesmo que eles não sejam nenhum dos meus planos. São pequenas coisas no dia à dia que tornam nossa vida mais arejada, mais valiosa, mais digna de ser vivida. Se houver tempo, faça um macarrão e uma salada de brócolis, assista um filme desconhecido, cante uma música, escreva um texto, se permita algumas danças. Vista sua melhor roupa, confortável ou elegante e faça seu dia parecer especial e, talvez, ele acabe se tornando mesmo.

A bateria do carro descarregou de vez. Não teve mágica que desse conta. Reclamei por uns segundos, mas não havia o que fazer. Em breve eu dou um jeito, mas, por hoje, fiz meu dia terminar melhor. Ao invés de me render ao desprazer, fui comer algo gostoso, fiz um pouco de exercício e sentei pra escrever esse texto. Assim, me pareceu mais produtivo, fazendo algo simples pra que eu esqueça o problema e me mantenha no controle. Estou pegando o jeito da coisa. Se pensarmos demais nos revezes do nosso dia, a gente se afunda. “Cozinhando o tempo” é como nomeei esse modo de levar a vida. Sigo cozinhando o tempo pra ver o que me rende daqui umas horas, amanhã ou no fim do mês. Assim, nem vejo os dias passarem. Agora pouco era semana passada e, magicamente chegamos no começo de Agosto. Esse é meu plano pra chegar vivo do outro lado do mundo. Se a vida não me der muitos motivos pra sorrir, que, pelo menos, eu continue humano em cada minuto, me encantando, sentindo pequenas alegrias, apreciando piadas, aprendendo, ensinando, dividindo o tempo e suavizando o mundo enquanto for possível manter a mão estendida.

O que transmuta a dor da vida é tratar as pessoas com gentileza, oferecer carinho aos animais, olhar com curiosidade pra uma estrela que brilha diferente, descobrir um jogo novo, dar um livro de presente, olhar nos olhos de um amigo ou companhia, abraçar alguém que se sente invisível, entrar na brincadeira de uma criança, sentir o cheiro de uma planta, dormir debaixo do sol, elogiar a arte que te agrada, investir tempo em respirar corretamente, descobrir novas palavras no dicionário, ter sempre em mente que a diversidade é a melhor parte do mundo, cortar o próprio cabelo sem medo do resultado, passar menos tempo com aquilo que te irrita e dar apelidos aos gatos que encontra pela internet. Enfim, ressignificar a vida é se preencher de momentos pequenos, porém, melhores. É isso que eu tenho pra hoje. É isso que eu tive por muito tempo e ainda é isso que eu ainda gostaria de ter, talvez pra sempre.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Pessoas pelo caminho.

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Mesmo inteiro e, apesar de encontrar grande prazer em estar sozinho, às vezes penso quão bom é, também, dividir o silêncio com alguma companhia, onde a mente se encante de ver alguém que eu goste por perto. Quão bom é sentir um bom perfume, estar perto de alguém que olhe nos meus olhos enquanto me fala ou, simplesmente, sob a luz apagada, deixa que a voz chegue sozinha aos meus ouvidos, me forçando a prestar atenção, ao mesmo tempo em que relaxo quase à ponto de dormir. Incríveis sensações que gosto de relembrar com as pessoas que já estiveram comigo ou, tão bom quanto, com pessoas hipotéticas com as quais nunca me relacionei, mas imagino como poderiam ser. É tudo um jogo de saudades e idealizações. No final das contas, o que quero, sei bem, é alguém pra dividir o peso do mundo. Creio, firmemente, que duas pessoas caminham melhor se, ao longo da vida, tiverem alguém pra se refugiar. Pra mim, pessoas são casas, mesmo que extremamente temporárias. Elas são companhias e espaços de segurança com quem podemos contar pra alguma coisa, em algum sentido. E boas casas são o lugar perfeito pra passar o tempo e descansar, quando tudo o mais lá fora deixa de ser conveniente em algum momento. Podem ser apenas amizades comuns ou amizades coloridas, encontros casuais, romances, namoros, casamentos ou qualquer outra definição de companhia.

Nunca estive à procura de pessoas. Elas sempre apareceram espontaneamente na minha vida. Às vezes, eu facilitava o caminho cedendo logo no início, mas eram sempre elas que vinham me procurar. Não sei bem o que cada uma dessas pessoas viram em mim. Algumas diziam se encantar com o meu cabelo, meu olhar ou meu sorriso. Já me elogiaram pelo meu jeito misterioso, curioso e sensível. Já ouvi muitas possibilidades, mas é tudo demasiado fracionado e pequeno, ao meu ver, pra que alguém use como explicação pelo interesse. Talvez essas pessoas não soubessem descrever a química, a sintonia, a atração pelo perfume e o mais primitivo instinto em busca de satisfação da libido. Ou, talvez, seja um emaranhado psicológico agindo em busca de sinais inconscientes de compatibilidade.

Quando penso nas pessoas que cruzaram o meu caminho, fico ponderando se os eventuais próximos relacionamentos ocorrerão com pessoas similares ou se eu serei surpreendido por um futuro completamente novo. Depois que a gente entende que pessoas, além de diversas, também mudam ao longo dos meses e anos, seria bobagem esperar por realidades que só habitam a minha memória de um passado que, provavelmente, já não verei naqueles que cruzarem o meu caminho hoje ou daqui alguns anos. E, a bem da verdade, eu gosto disso. Todas as pessoas que eu conheci, tinham realidades muito distintas e surgiram em momentos da minha vida que também eram bem diversos. Já conheci pessoas diurnas, noturnas e indiferentes. Conheci pessoas de diversas aparências, diversas profissões e classes sociais. A própria mente dessas pessoas já eram um show à parte. A personalidade de todas as companhias sempre me surpreenderam em uma longa paisagem cheia de detalhes. Assim como pareciam interessantes em uma visão panorâmica, revelavam aspectos que demorei tempo demais pra perceber que estavam embutidos. Em muitos dos casos, foi isso que me fez perceber que, por mais bonito que seja um campo, se ele estiver repleto de minas terrestres, já não vale a pena ficar pra passear. Às vezes, quando descobrimos o risco, já é tarde demais e ficamos destroçados por uma dessas “explosões”. Por isso, aproveite o momento enquanto ele for bom, pois não sabemos quanto tempo vai durar.

Eu conheci pessoas com a sexualidade exagerada, pessoas românticas, frias, ingênuas, práticas, traumatizadas, melosas, tímidas, extrovertidas e também pessoas assexuadas. Conheci pessoas que tinham aversão apenas ao beijo, enquanto outras preferiam somente o beijo e nada mais. Conheci pessoas de pouco estudo e outras muito estudadas, pessoas com baixa autoestima, bem-resolvidas, sensíveis, artistas, dançarinas, musicistas, jornalistas, advogadas, desempregadas ou “donas de casa”. Estiverem por perto pessoas budistas, cristãs, umbandistas, kardecistas, bruxas, telemitas, ateístas e, claro, pessoas completamente indefinidas. Estive com pessoas de idades diversas e de muitos lugares. Com algumas dividi pouquíssimo tempo, por duas ou três noites, enquanto outras estiveram do meu lado por anos. As pessoas surgiram e ficaram por diversos motivos. Algumas queriam o amor que eu não tinha pra dar e outras queriam, explicitamente, apenas o sexo. Outras estavam confusas entre os dois mundos, diferente das que estavam bem decididas, mas muito mal intencionadas, fazendo teatro na esperança de me agradarem com uma fachada de mentira. Fui experimentando um pouco de tudo nessa vida, pra perceber a beleza e o horror que está em tudo, inclusive nas várias faces de uma mesma pessoa.

Haviam pessoas que eu raramente vi almoçarem, as que comiam o mundo sem nunca engordar, as que se ornamentavam ao extremo apenas pra trabalhar, as que saíam quase do mesmo jeito que acordavam, que estavam na vida por um pouco de aventura e as que queriam estabilidade. Estive ao lado de gente firme, centrada, maluca, deprimida, energizada, festiva, calada, prestativa, acomodada, megalomaníaca, sensata, xucra, simplista, viciada, alcoólatra, doente, quase morta, inocente e depravada. Havia gente do rock, do punk, do gótico, do samba, das raves, da música clássica e de outros meios. Passaram por mim pessoas tristes, felizes, desajustadas, grosseiras, desonestas, virgens atrasadas, mães, gêmeas, brancas, indígenas, mestiças, negras, asiáticas, de muitos tons, traços e etnias, com seus cabelos em tranças, dreads, longos, curtos ou raspados, pretos, vermelhos, azuis, verdes, cor-de-rosa, castanhos, loiros, ruivos, mistos e alternados.

Passaram na minha vida, pessoas genuínas, “de plástico”, com filhos, sem pais, trabalhadoras compulsivas, largadas, queridas, desgraçadas, lindas ou não tão bem lapidadas, almas boas ou nem tanto e pessoas que me deixaram confuso. Já pagaram as minhas contas e eu já paguei a conta de várias. Teve gente importante, desconhecida e intermediária, geeks, nerds, gamers, cosplayers, fetichistas, garotas de vida dupla, modelos e pessoas avulsas das quais nunca conheci nada. Houve gente que nunca achei que conheceria e que meus inimigos espumam até hoje por sempre terem desejado conhecer, sem nunca conseguir. A vida traça surpresas. Às vezes correr atrás das pessoas pode ser só uma forma de espantá-las ou de transformá-las num tesouro a ser conquistado por quem, antes, nem podiam notá-las. Relacionamentos tem muito do acaso. As pessoas certas, na hora certa, fazem o dia acontecer. Eu nunca fui de fazer planos. Decido minha vida em cima da hora. Se algo me cativa e merece meu tempo, eu fico pra ver o desfecho. Vi muita gente fazer planos gigantes e cheios de detalhes, mas, repentinamente, nada daquilo sequer havia sido possível e todo plano foi inundado de desnecessidade. Não há porque planejar relacionamentos, pois não controlamos o destino, muito menos as pessoas. As coisas fluem em seu modo particular e nosso único papel é se adaptar ao novo momento.

Se eu fosse tentar adivinhar quem seriam as pessoas possíveis pros meus dias atuais ou pro futuro próximo, eu teria que atropelar toda a razão e apostar numa figura randômica de qualquer lugar do mundo. Digo isso porque sei que não espero por ninguém, não tenho grandes exigências, exceto alguns valores e condições mínimas. Quero alguém que corra pelo lado da justiça social, que seja avessa à preconceitos e que esteja disposta a conhecer outros assuntos. Muita gente vai ler, mas não vai entender. Há quem vá olhar pra tudo isso e preferir acreditar em uma máscara, uma linda fachada ilusória, mas, na prática, não vai ter essa premissa, não vai saber como viver essa realidade de vida. As mesmas palavras, pra pessoas diferentes, suscita tantos significados divergentes que é quase que inútil descrever. Prefiro deixar, como sempre, a vida me surpreender. Que venham as pessoas que tiverem de vir e eu decido se o que elas têm pra oferecer é compatível comigo. E que elas façam o mesmo ao me verem passar. Relacionamentos deveriam se resumir à isso. Se há compatibilidade, reciprocidade, interesse e oportunidade, está feito o cenário pra se tentar uma companhia. E, no mais, ninguém é obrigado a ter uma companhia, nem a desejar uma pra se sentir vivo na vida. Façam dos seus momentos algo profundamente sincero, espontâneo e com o máximo de sentido pra você mesmo. Não fique à espera de agradar os outros só pra se encaixar em uma sociedade ou um relacionamento. Viver é, basicamente, o oposto disso. Se sentirá mais gente quando desfrutar, ao mesmo tempo, do prazer que quiser e da dignidade que precisa.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Perdida na cidade cinza.

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Você me perguntava coisas que eu não entendia como poderiam ser dúvidas verdadeiras. Você já tinha seus 28 anos, mas ainda parecia uma eterna menina. Sua realidade me parecia contraditória. Você que já sabia bem o que beber, o que fumar e quais comprimidos tomar depois do banho, não sabia, porém, praticamente nada sobre si mesma, sobre o sexo, sobre como jogar esse jogo do flerte ou que rumo tomar pros seus dias. Parecia um pouco cansada de várias regras sociais, mas, ao mesmo tempo, se forçava a acreditar e dividir tempo com aquilo que você chamava de igreja. Eu, muito distante dessa realidade, ironizava suas contradições e te colocava diversas questões pra você brigar sozinha. Parecia que seus lados contraditórios eram a sua maneira de equilibrar a sua vida. Você, talvez, se sentisse na tendência de viver largada demais e, assim, poderia ser útil um outro lado exagerado que pudesse te desacelerar.

Você praticamente não trabalhava. Sua família estava longe, de vida feita, e você resolveu que vir pra esta cidade seria uma boa aventura. Acho que você esperava muito da cidade, mas não esperava quase nada da sua própria vida. Você se dividia entre o curso de artes, rindo e criticando aqueles velhos alucinados, enquanto abria uma clareira na sala de aula, separando à todos conforme a afinidade. E foi assim que nos conhecemos. Estávamos do mesmo lado. Você gastava o dinheiro alheio, ocupava seu tempo dentro e fora de casa, mas sua vida não parecia ter suficiente veneno. Eu te via como uma menina, mesmo a minha memória me dizendo que eu era muito mais novo que você. Estávamos perdidos juntos, mas eu não sabia quais eram os seus labirintos. Eu fui atrás, como quem fareja novidade, qualquer coisa que me tirasse de casa, me levasse pra outro chão de apartamento.

Assim como eu, você não estava disposta a levar a vida a sério. Perceber isso, me fez acreditar que você seria um bom mistério pra desvendar. Eu gostava da sua companhia, porque bastava pra mim que você me oferecesse uma bebida e me deixasse ficar no seu apartamento pra ficarmos o dia todo desocupados, rindo e conversando. Várias vezes você pagou pela minha comida e eu não tinha muito pra retribuir. Então eu ficava, dividia meu tempo, te ensinava informática e ria das suas loucuras. Era tudo que eu tinha. Você era extremamente ansiosa, não parava um minuto calada e de um segundo pro outro decidia fazer outra coisa. Você era perturbada e nem mesmo toda aquela maconha resolvia. Prensado, sem nenhuma qualidade, de qualquer coisa que não se deveria queimar. Mas, pra você, que acendia compulsivamente cigarros de nicotina, não se importava muito com a qualidade do hábito.

Levou tempo até você aceitar mais do que uns beijos. Eu não era nada recatado, mas você parecia estar esperando por um momento idealizado. Acho que todos nós, algum dia, idealizou um romance ou alguma relação pretendida. A gente sempre espera que nossas primeiras vezes em diversas coisas, sejam de maneira satisfatória. Conseguia entender, de certa forma, a sua “demora”. Mas, pelo tempo passado, parecia que você estava escolhendo minuciosamente seu momento ideal. Talvez você tivesse medo ou não tivesse conhecido ninguém interessante. Eu, certamente, não era o sujeito mais incrível, mas você parecia encantada comigo. Eu realmente nunca pensei que você estivesse apaixonada ou idealizando um romance e quando você quis começar sua vida na cama, você pareceu um tanto perdida, preocupada com uma lista de detalhes, me perguntando, cheia de rodeios, os riscos de cada pequeno contato. Confesso que achei um tanto engraçado, mas isso não era um bom sinal. Logo eu vi que estávamos em universos muito diferentes. Não cabe a mim dizer quando e o que cada um aprende, mas, diante do impulso da situação, aquilo certamente teria que ficar pra outra oportunidade. Havia muita coisa que você ainda precisava entender.

A minha vida estava fluindo em outras realidades e eu acabei, não de propósito, me distanciando. Passaram-se muitos e muitos anos e, de repente, sou surpreendido por uma mensagem sua na internet. Conversamos um pouco, ouvi você falar dos rumos que sua vida tomou e fiquei ainda mais surpreso. Parece que as cosias não melhoraram e você tropeçou em relacionamentos ruins que lhe renderam filho(s) e aborto(s). Foi estranho ver que, apesar de tudo que você viveu, sua mente ainda estava interessada por mim, como se você ainda estivesse habitando aquele passado remoto. Não pude lhe oferecer mais do que a verdade dita, então te deixei ciente de que éramos praticamente desconhecidos naquele momento. Há tantas coisas da minha adolescência que eu não tenho memória alguma, que eram grandes as chances de eu não ter lhe reconhecido depois de tanto tempo distante. E, mais do que isso, não era recíproco o sentimento ou a paixão que você mantinha. Você custou a aceitar mais um ‘não’ da vida e insistiu em me escrever. E quando o respeito acaba, já não há nada de bom pra dividir. Ofereci minha amizade, mas isso não lhe era suficiente. Sei que retornou pra sua cidade, acolhida novamente pelos seus pais. Fico feliz que receberam-se todos entre família, pois onde as pessoas se gostam e se ajudam é lar suficiente pra qualquer situação. Eu fui pra frente, porque pra trás nunca teve lugar pra mim. Até nisso somos diferentes.

Sabe, se algum dia calhar de ler esse texto e, apesar de todo sigilo no relato, conseguir se reconhecer nele, saiba que a vida é muito mais do que o passado que arquitetamos e polimos em nossas mentes. Há um universo lá fora, que, desde sempre, precisou ser melhor explorado. Olhe pra sua história, as situações pelas quais passou e veja a falta que fez não ter experimentado o mundo mais à fundo, com mais liberdade. Talvez isso teria mudado cada um dos episódios que aqui eu relatei. O tempo passa e, se tudo correr bem, temos a chance de ressignificar o passado e dar preferência pro momento presente. Se possui curiosidade sobre o que aconteceu com a minha vida, daquela época em diante, eu te conto. Não é nada muito melhor ou pior, apenas diferente. Eu não tive filhos, me tornei fotógrafo porque, deve ter notado, as aulas da escola não tinham nada a ver comigo. Conheci pessoas que me marcaram positivamente, mas que também me deixaram uma dor quase permanente. Conheci pessoas excelentes que morreram muito cedo e outras que, infelizmente, sobrevivem apesar de numerosos anos pesando no mundo. De fato a vida não é justa e o que algumas pessoas chamam de satisfação é apenas ver pessoas decentes desmoronando em fracassos e doenças. A alegria do medíocre é torcer pra que ninguém os vença, ninguém os supere, ninguém os ultrapasse. Então, pro bem da sua própria razão, se mantenha diferente disso, com aquele espírito divertido de quando nos conhecemos. Mas, mais do que isso, se mantenha questionadora, divergente, “gente como a gente”, simples e complexa, conforme o que realmente importa em cada momento, sempre procurando novos rumos, porque a vida só acaba na hora da derradeira partida.

Eu tive de fazer inúmeras pausas e baldeações até chegar em algum mínimo resultado e, devo dizer, não sou nem uma vírgula de tudo que eu já fui um dia. Eu perdi as pessoas que eu mais gostava e tive que aturar o convívio de quem nunca se importou sequer com a minha vida. Para algumas pessoas somos só um objeto ou um número, porque só quando a gente sente verdadeiro afeto por alguém, nossa vontade é ver essa pessoa livre e feliz. Quem dedica tempo aprisionando pessoas ou empurrando elas para constantes abismos, aprisiona também a si mesmo e se arremessa neles junto. A verdadeira salvação, se é que existe, é dedicarmos nosso tempo pra nós mesmos primeiramente e, se houver condição e disposição, ajudar à quem nos parece digno de nossa ajuda. Não estendo a mão pra todos e faço questão de destacar isso, porque diversas vezes em que as pessoas puderam contar comigo, eu não pude contar com elas em nenhum momento, pra coisa alguma. E se não há reciprocidade, não adianta insistir na porta, que essa porta não abre pra qualquer um.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Saudade ou tranquilidade?

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Um pouco de saudade faz bem, mas, tal como o fiapo de um tecido, nunca sabemos quão longo será, até que tenhamos terminado de puxar. Se envolver numa memória de saudade é sempre um risco. Começamos com um pensamento curto, como um flashback e ficamos mastigando isso como se estivéssemos novamente naquele cenário, naquele tempo. Vários são os dias que eu sou tomado por lembranças do passado, mas, feliz ou infelizmente, elas são muito curtas. Na minha memória, as pessoas se converteram em pedaços isolados de cenas. Certamente as mais marcantes, tanto boas quanto ruins. E mesmo que as cenas logo se acabem, o sentimento pode durar muito mais. Isso é parte do que é a saudade.

Tenho saudade dos lugares onde dancei, dos bares onde bebi, das risadas que dei, das companhias com quem dormi, os lugares por onde viajei. Tenho saudade de mim mesmo quando eu era mais jovem, mais vivo e mais inteiro. Saudade também pelos livros que li, os filmes, as madrugadas, os momentos sozinhos dirigindo na estrada e os apartamentos-portais que visitei e assim os apelidei, de forma humorada, porque neles eu me transportava pra outros mundos e realidades, enquanto perdia a noção do tempo. Percebo que a saudade tem um componente dramático, feito de incerteza. Não sabemos se vamos experimentar novamente aquelas realidades e, talvez, por isso nos apegamos aos momentos que já vivenciamos. É a tentativa de continuar a obter prazer com o que já não está presente além da mente.

Mas, saudade demais machuca e nos deixa mergulhados em uma realidade que vicia. Quanto mais olhamos pra trás, mais abandonamos o presente. Se nos entregarmos ao saudosismo, sem adicionar novas realidades, corremos o risco de paralisar a vida e sobreviver apenas de memórias que nunca saciarão nossa fome. A saudade é um desabafo gritando para a linha do horizonte nossa vontade de que tudo se materializasse na nossa frente e que vivêssemos tudo aquilo outra vez. Saudade é, sobretudo, um sentimento não resolvido, que está nos perfurando de forma recorrente, até que tenhamos mais furos do que partes pra serem furadas. O excesso de saudade elimina nossa própria pessoa da equação e nos faz dependentes de nossas próprias memórias. Talvez seja válido dizer que a saudade é como a abstinência por uma droga. A crise vem porque já estávamos viciados e ao não ter aquilo de que somos dependentes, ficamos transtornados, sem saber lidar com a realidade nos dizendo ‘não’.

É verdade: tenho saudades. Mas, antes de tudo, tenho saudades do tempo em que eu ainda não tinha saudade alguma. Houve esse tempo, onde eu era apenas alguém projetando minhas expectativas sobre o futuro, na maior inocência, podendo, apesar do mundo, viver o momento presente da época, sem me preocupar se amanhã algo me tiraria a paz, me faria falta ou algo assim. Essa saudade é uma saudade diferente. É querer voltar no tempo, mas não pra correr atrás dos nossos vícios e desejos mal resolvidos, mas sim nos livrarmos de tudo isso e sermos apenas alguém que aprecia o exato segundo de algo, sem se perguntar mais nada. Quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de dizer que vive dessa forma?

Quanto mais o mundo se atropela à caminho do seu estado insustentável final, mais nos vemos dependentes de uma salvação, de algo que nos dê um mínimo de prazer, um pingo de dignidade, uma faísca de alegria e uma migalha de tranquilidade. Estamos fugindo do futuro porque percebemos, desde sempre, que estamos no caminho errado para um destino que não vale nem ao menos descrever. Estamos aficionados por qualquer exceção que o mundo possa nos prometer. Se não podemos voltar no tempo, queremos que o momento presente seja nosso novo vício. E disso também surgem problemas, pois continuamos dependentes de um prazer que parece não vir de lugar algum. Estamos sempre idealizando cenários onde nossa vida seja menos dolorida, mais humana, mais divertida e mais sólida. Mas tudo não passa de desejos e sonhos. São planos que não sabemos sequer como começar a concretizar. Estamos naufragando num mar gelado chamado ‘sociedade’, enquanto olhamos ao redor procurando uma boia, um pedaço de terra firme, um barco ou qualquer coisa que nos prometa mais que a mesma água fria.

Olhamos as redes sociais atrás de novidades e ficamos engajados nesse sistema de cliques e comentários, como se algo pudesse brotar no meio da tela e nos estender a mão. Agarrados ao celular, estamos tendo nossa energia mental sugada, pela constante atenção que damos à inúteis notificações. Sua operadora de celular tem mais 5 novos SPAMs na caixa de mensagens, suas redes sociais querem te avisar que alguém fez uma publicação e que talvez você possa se interessar de rever seu próprio conteúdo de 10 anos atrás. Talvez, o abismo que a sociedade atual está ainda não tenha nome, mas, certamente, tem a internet como principal cenário. Não que a vida offline seja menos problemática, mas justamente porque toda ela está representada dentro da internet. O que acontece no mundo lá fora é a mesma coisa que a internet está replicando de inúmeras maneiras, incluso os excessos, as mentiras, as disputas, as guerras, as mazelas, os discursos de ódio, as ilusões e fantasias, as crises psicológicas, sociais e políticas. A internet se tornou o lugar onde vamos para viver um segundo round da mesma realidade. Assim, torna-se compreensível alguém sentir saudade.

Estamos esperando por uma trégua, mas o mundo não parece minimamente pronto ou interessado pra nos conceder. Temos que nos aliviar das dores com as próprias dores. Temos que aprender a sentir prazer com aquilo que só machuca. É como se tivéssemos transformado a vida num jogo sadomasoquista. Queremos ver até onde conseguimos apanhar ou bater, antes que a vida nos destrua de vez. Assim como a saudade revela nosso vício por um prazer inalcançável, esse novo modelo de vida na internet também nos faz entrar em conflito por ideais de sociedade e autorrealização que estão, ao meu ver, incoerentes com o que hoje é praticado pelo usuário padrão.

Um dia desses estava conversando sobre a vontade de largar tudo e ir viver isolado. Como seria o mundo distante das cidades, das pessoas e, claro, da internet? Que impactos positivos teria ao viver como um eremita ou como um monge budista? Por mais repentino que isso pareça, esses pensamentos frequentemente pulsaram em mim desde a adolescência. Penso no que as pessoas ganhariam se deixassem de lado todas essas construções viciadas de sociedade, pra ir viver, novamente, o sentido puro das coisas, contemplando o momento, sem pensar no passado ou no futuro. Acho que, assim, deixaríamos de ter saudade e viveríamos muito melhor. Talvez fosse de grande ajuda para a ansiedade, depressão, crises existenciais, brigas, intrigas, conflitos sazonais, síndromes, medos, fobias, inseguranças, vícios, dramas e tudo o mais. Ou, talvez, tudo isso seja apenas especulações e mais idealizações que podem nunca se concretizar.

Será que todo o caos no mundo é causado por um enorme equívoco chamado ‘sociedade’ ou será que ainda há esperança de construirmos uma sociedade justa, digna e feliz, desde que escolhamos os modelos certos? Nos apontam como seres sociais o tempo todo, mas talvez nossa verdadeira habilidade seja de buscar nossa paz pelo importante exercício de ficarmos sozinhos. Poderíamos, tentar trilhar um caminho com menos estrutura e mais espontaneidade, menos planos e mais sinceridade, menos dramas e mais felicidade. Quão longe chegaríamos em um modelo assim? Essas reflexões surgem porque todo aquele que um dia sentiu saudade, ficou sequelado ou, pelo menos, com uma cicatriz. A dor de ter vivido dias melhores e se perceber defasado, num mundo que não faz pausas é fruto de uma percepção que pra alguns é real e pra outros é subjetiva. De certa forma, não perdemos nada, exatamente. Não somos donos do nosso passado, nem mesmo da nossa vida. Um dia morreremos todos e teremos que aceitar esse desfecho. Não estamos no controle de nada e cada dia que passa estamos mais próximos do nosso próprio fim. Superar as perdas e aceitar construir novos momentos é um caminho possível que ressignifica certos conceitos, muda nossa perspectiva de vida, muda nossas sensações e se não apaga as memórias, pode, ao menos, torná-las menos dolorosas ou até mesmo inofensivas. Pra viver os benefícios de uma sociedade, somos obrigados a viver também uma lista interminável de prejuízos.

Será que essa é a deixa para substituirmos a pesada saudade por uma necessária tranquilidade? Não era exatamente isso que tentávamos alcançar com a própria saudade? Se simplesmente pararmos de esperar pelo que não volta, já encurtamos nosso caminho, indo diretamente para aquilo que já sabemos que nos faz bem agora. No final das contas, o que queríamos não era exatamente nos sentir vivos e despreocupados? De que outra forma podemos alcançar esse objetivo, se ficarmos presos nesse padrão de sociedade? Eu não vejo futuro algum em entrar em conflito constante, pra terminar a vida sem experimentar os resultados dos meus esforços. Eu quero viver o benefício hoje, porque depois de morto, nossos esforços só terão serventia para os que vierem depois. Se por um lado esse pensamento parece um tanto egoísta, por outro, é verdade que as pessoas podem aderir à mudança da percepção subjetiva por elas mesmas também. Para que não tenhamos que pensar nem no passado e nem no amanhã, talvez devêssemos deixar a escolha pela mudança de vida para cada indivíduo. Você escolheria se isolar da sociedade? Valeria a pena ficar pra ver algum modelo organizado de coletivo que pudesse entregar dignidade, tranquilidade e felicidade?

Mesmo que não tenhamos uma resposta definitiva, precisamos ter esse assunto na mente, se quisermos ser decentes com nós mesmos e com o resto da humanidade. O indivíduo que não tem dúvidas sobre as dores pessoais e alheias, não está se debruçando o suficiente no tema, o que denotaria uma falha primordial de caráter e/ou uma profunda deficiência no senso de humanidade. Enquanto vocês pensam um pouco mais sobre a vida individual e coletiva, eu vou tentar viver um dia diferente, pra ver se algum insight surge pra melhorar minha perspectiva de vida. Não me desejem sorte, nem morte. Me desejem uma vida bem vivida.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | O navio está partindo.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma ilustração no estilo ‘retrowave marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Nos acostumamos com o cheiro da nossa própria casa e nem percebemos como ela destoa de qualquer outro lugar, até que visitamos alguém e sentimos o cheiro característico de lá. Até a comida tem cheiro diferente. Pode ser o mesmo prato que você costuma comer, mas cheira diferente. Deve ter algo impregnado nos móveis, nas panelas, na transpiração dos moradores. A minha casa tem cheiro próprio, como a casa de todo mundo deve ter.

Para quem é fumante, por exemplo, acho que já não percebe o cheiro de cigarro permeando tudo, desde os poros da pele até a roupa e as paredes. O mesmo pode-se dizer de quem tem animais de estimação. A maioria dos seres é treinada desde o nascimento a reconhecer os cheiros familiares e a comparar com qualquer outro cheiro diferente. Os cheiros conhecidos desde o começo representam uma certa segurança, enquanto que os cheiros diferentes, vem de fora, são estranhos, são potenciais ameaças e, portanto, nos incomodamos com eles.

Todo mundo já ouviu falar da predileção que as pessoas possuem pela comida da mãe, da avó ou de quem as criou. Somos alimentados por esses temperos e cheiros desde o nascimento. Convivemos nesse ambiente e nos acostumamos com esse padrão. Torna-se o novo normal. E a memória afetiva traduz isso na forma de predileção e prazer pela comida ou cheiro dessa origem. E tudo isso soa um pouco estranho, pois o sal é similar pra todos, tal como a pimenta ou outro ingrediente qualquer. Mas cheira diferente, tem gosto diferente. Deve ser o modo costumeiro de cozinhar, o odor impregnado no fogão, na madeira dos armários, no teto da casa e sei lá mais o que.

Ainda mais estranho é que, apesar de notarmos o cheiro e sabor característico da nossa casa e de outras casas, quando vamos à um restaurante, parece que tudo é neutro. Claro que as coisas tem cheiro e sabor, mas, de alguma forma, parece que chega à um consenso que agrade à todos os públicos, afinal é isso que se pretende quando se atende diferentes famílias, acostumadas com o cheiro e sabor de suas casas ou da mesma comida desde a infância. Talvez a constante limpeza dos ambientes impeça qualquer um dos cheiros de impregnar pela repetição, pelo acúmulo. E isso explica boa parte do sabor das chapas engorduradas dos botecos.

Repetição parece ser o que garante a impregnação do cheiro e o reconhecimento pela memória olfativa. São tantos sentimentos que voltam à tona quando reconhecemos um perfume de alguém. Quando me acostumava por tempo suficiente com alguma companhia, certamente é porque havia sintonia com o cheiro da pessoa. Isso é parte da chamada ‘química’. Algumas pessoas sequer usam um perfume, mas todas elas tem um cheiro próprio, único. E quando gostamos, nos conectamos. Talvez, em última análise, gostamos das pessoas porque elas nos trazem prazer pelos diversos sentidos humanos. A voz de uma pessoa, o cheiro, a textura da pele e tudo o mais, vão compondo uma zona de conforto, onde nos sintamos em segurança, protegidos numa bolha bem pequena. Nosso refúgio se torna nossa casa, as pessoas a quem nos conectamos. Pra muita gente, talvez, se desconectar desses cenários e pessoas é como uma ameaça.

Estamos todos buscando qualquer referência de segurança, por trás de um abraço, um olhar, um som, um cheiro, um sabor, um modo de fazer as coisas, um estilo visual. A sociedade começa a se separar em tribos desde sempre, buscando o convívio com os seus. É assim na formação de famílias, clãs, vilas, cidades, países e planetas. É assim também nas culturas e subculturas, nos nichos de música e estilo de vida. Eu, por exemplo, estou sempre em conexão com a atmosfera de onde eu passei a maior parte da minha vida, dos bares e casas noturnas que frequentei, das pessoas que conheci, das músicas que ouvi, das roupas que vesti. Mesmo que estejamos no ano de 2020, ainda é recorrente a necessidade de uma atmosfera dos anos 80. E como é bom ver as pessoas vestindo preto pra todo lado, uma predominância de coturnos, franjas em linha reta ou um corte em V e todos aqueles detalhes comuns no meio gótico, pós-punk, rock e afins.

Somos seres sociais, mas somos seres que buscam uma específica atmosfera. Estamos debaixo do mesmo céu, aparentemente, mas na verdade nossas bolhas nos separam completamente para dentro de realidades onde tudo é muito nosso e muito nós. Frequentadores assíduos de certos lugares se tornam parte do lugar, seja enquanto vivos ou mesmo depois de mortos. Inúmeros casos são vistos e contados de desencarnados que permanecem no mesmo lugar habitual, atrás de algo que reconhecem, gostam e/ou precisam. Às vezes a droga, o álcool, a energia específica das pessoas ou, simplesmente, aquela memória afetiva. Definitivamente, nossa consciência ultrapassa nosso cérebro. Por mais que se apague a parte física dessa equação, tudo já está enraizado na própria alma ou consciência, dentro e fora do corpo. A consciência não depende da matéria, mas é a matéria que depende da consciência.

Quanto tempo será que leva para nos acostumarmos com novos lugares, novas pessoas, novas comidas e novos cheiros? Quando as pessoas falam sobre a depressão de quem vai morar em outro país e da saudade que esses sentem de casa, não será exatamente isso que existe por trás? Às vezes as pessoas se sentem desconectadas daquilo que reconheciam como seguro, prazeroso e confortável. Talvez seja preciso redescobrir os gostos, mudar o paladar e aceitar que a vida muda, que há outras memórias pra serem formadas. Claro que, diante da novidade, não vamos ter as referências maternais ou da infância. O passado não se repete se o futuro for diferente do habitual. Mas, assim como aprendemos a frequentar e gostar de lugares ao longo da nossa vida, podemos experimentar o prazer por essa constância em qualquer lugar que pudermos ficar tempo o suficiente. Deve ser isso que motiva coletivos a fixarem residência nos lugares.

Moramos quase sempre na mesma casa ou se mudamos de casa, tendemos a ficar no mesmo bairro ou zona. Raramente nos mudamos pra muito longe, raramente trocamos nossa zona de conforto por algo novo que ainda não nos diz nada. Mas, pra quem quer fugir das lembranças, mudar de ares talvez seja a melhor opção. Ao se desconectar dos mesmos objetos, dos mesmos cheiros, das mesmas paisagens, dos mesmos lugares e das mesmas pessoas, temos a oportunidade de nos ver, de alguma forma, um pouco mais livres, quase como se fôssemos uma folha em branco, limpos para sermos preenchidos com coisas que, finalmente, vamos escolher. Se nosso passado é imutável, ao menos nosso presente e futuro podem ser construídos de um jeito diferente.

Mudar é importante, nos dá energia de organizar a vida do nosso jeito, descobrir que outra vida podemos ter. Eu estourei a minha bolha desde muito cedo e, à cada vez que uma nova bolha se formava, eu a estourava. Nunca permaneci muito tempo em lugar algum, porque estava tentando me encontrar. E quando eu percebia que não estava entre os meus, eu me afastava e seguia sozinho até outra bolha começar a se formar. O motivo pelo qual nunca me encontrei profundamente em nada e ninguém, talvez seja por causa dessa ruptura desde cedo. Por não ter um padrão a ser mantido ou perseguido, nunca encontrava algo que se encaixasse, pois não havia um padrão determinado para encaixe. Sem essa referência do que eu deveria encontrar no mundo pra me sentir confortável, percebi que não tenho que procurar isso nas pessoas ou nos lugares, mas, construir eu mesmo, meu padrão desde o zero. Assim, meu mundo é muito meu e eu sou muito do meu mundo. E quando o mundo parece demasiado vazio, não é de todo ruim, pois podemos preencher com qualquer coisa que quisermos. Sem vícios e sem apegos, o navio não fica preso no porto, nem compelido a percorrer uma mesma rota predefinida. Um navio que não está preso, nem programado, viaja pra onde a correnteza levar e pra onde impormos alguma direção. Cabe à mim escolher e é só nessa possibilidade que eu deposito todos os resquícios de esperança. Vamos aguardar e ver.

Rodrigo Meyer – Author

Permita-se recomeçar.

Ouço muita gente citar o tempo como desculpa para a inação. Alguns dizem ter pouco tempo no dia, outros dizem ter pouca vida pela frente devido a idade e outros dizem que ainda são jovens demais para tomar certas decisões. Em todos os casos, usam o tempo como pretexto para uma inação, para fugir de situações das quais possuem, geralmente, medo.

Quando alguém está em um cenário de insatisfação naquilo que está vivendo, é comum que a pessoa desanime e não veja opções de recomeço. Mas sabe, apesar de tudo, que recomeçar seria algo benéfico, já que apontaria para um caminho de concretização de um ideal ou de uma possibilidade diferente daquela em que se via antes. A barreira para esse recomeço costuma se instalar na mente de muitas pessoas, tornando-as procrastinadoras ou negligentes sobre suas próprias realidades.

Em conversas com algumas pessoas, sondei o quão interessadas elas estavam em adotar recomeços em suas vidas, seja profissionalmente, no campo dos estudos, nos relacionamentos, na vida social, na troca de país, na iniciativa de escrever um livro ou começar um canal no Youtube, aprender a cozinhar ou terminar de ler aqueles livros que elas listaram um dia e nunca mais entraran em contato. Por mais engajado que eu estivesse em mostrar a realidade de todas essas opções, foi notório a reação exacerbada das pessoas em claro sinal de resistência para tudo isso. Algumas pessoas se declaravam desinteressadas de certas mudanças, mas não diziam explicitamente que era por conta de medo. Talvez admitir medo fosse, para algumas, uma maneira intragável de se verem sem a liberdade necessária sobre si mesmas. O medo paralisa e coisas paradas não repercutem. A pessoa que deixa de viver por medo, sofre em silêncio e muitas vezes sem nem saber porque sofre.

Outras pessoas, ainda que interessadas pelas mudanças, sugeriam repetidamente que mudar era difícil, que exigia uma lista de requisitos das quais elas não dispunham. Colidiam com qualquer tentativa minha de demonstrar que esses requisitos eram lendas e que a realidade disponível para as mudanças estava bem acessível. Contudo, eu deixava claro que a maior e única barreira pra determinados casos de mudança era simplesmente o ‘querer’ de cada indivíduo. Não se pode convencer ninguém a mudar se ele não quiser. A mudança, para todo e qualquer cenário da vida começa, primeiro, dentro do próprio indivíduo. É a mudança de paradigma, de pensamento, de postura e de valores que vai determinar as possibilidades de mudança no lado exterior, nas questões práticas da vida.

A exemplo disso, ninguém se atreve a mudar de país, por exemplo, se tudo na mente da pessoa ainda aponta que essa ação é errada, incerta, perigosa, pouco vantajosa, difícil ou impossível, dispendiosa, para poucos ou com qualquer característica de barreira que se atribua. Não ocorre a ação, se a mente não está minimamente alinhada com essa realidade hipotética. É natural que as pessoas tenham dúvidas sobre o dia de amanhã, sobre seus potenciais e sobre questões técnicas acerca daquilo que pretendem mudar, mas isso não é o mesmo que ter medo, insegurança ou desistência. Quando não sabemos nada sobre mudança de hábitos, por exemplo, procuramos a informação, antes de afirmar que é possível ou impossível, fácil ou difícil, interessante ou dispensável. Talvez algumas pessoas não saibam as opções existentes sobre novos modelos de trabalho, sobre como exercitar o corpo, como trocar de sistema operacional no computador, como abrir um comércio, como aprender um idioma, como adquirir o hábito da leitura ou como cozinhar com pouco dinheiro. Talvez não tenham a maior parte das informações que serão necessárias para a mudança em suas vidas, mas é exatamente por isso que a mudança é sinônimo de algo novo, de um passo em direção ao recomeço, ao aprendizado, à experiência, ao futuro, ao desenvolvimento, ao momento em que se olha para algo, se vivencia e se descobre mais daquele contexto. Fugir é que não ajuda em nada para aprender e vivenciar a mudança.

Quando eu era adolescente eu tive contato com softwares de modelagem 3D. Foi algo que me encantou por um tempo, devido as possibilidades de criação realistas de tudo aquilo que estava na minha mente. Embora eu não soubesse nada sobre meu potencial nessa área, nem soubesse nada especificamente das configurações atreladas a modelagem nos softwares, nem tivesse qualquer aspiração definida no campo profissional, eu me vi experimentando algumas opções. Assisti a tutoriais, entendi melhor os atalhos e me habituei a eles. Em pouco tempo, o que era improvável se tornou algo banal. Algum tempo depois, com a prática e o incentivo de um conhecido que também lidava com modelagem 3D, eu comecei a criar cenas mais complexas, experimentar materiais, efeitos, iluminações, recursos para renderização realista e até cheguei a montar um computador todo voltado pra esse alto desempenho requerido pra área. Não me tornei um artista 3D prolífico, nem dominei os softwares aos quais fazia uso, mas tive a grata oportunidade de gerar diversas imagens que me felicitam ainda hoje.

Olhar pra trás e ver que eu fiz algo na área, ativa a nostalgia e um orgulho somado com a memória positiva disso. Saber que fui capaz, que tentei e realizei, traz uma recompensa para o cérebro que me faz sentir prazer e motivação. Com isso eu me tornei muito mais ativo em outras atividades. Uma vez motivado, desenvolvi melhor meus desenhos em papel, minhas pinturas à óleo, minhas pinturas digitais, o desenho vetorial e o Design Gráfico, a própria Literatura e, claro, como fotógrafo, onde ampliei muito mais minha confiança artística, profissional, social, etc. Em resumo, ter me permitido aprender algo difícil como a modelagem 3D, repercutiu em toda a minha vida, porque mesmo que hoje eu não esteja mais modelando, todo o restante que eu faço, faço com motivação, com orgulho, com um histórico na memória e com um rastro de interação com as pessoas que conheci pelo caminho. Ter lembrado disso, me fez inclusive reabrir essa área no momento presente e voltar a estudar 3D, para, eventualmente, trazer essas modelagens como imagens descritivas de cenas nos meus livros ou até mesmo a criação de pequenas animações para os meus projetos paralelos. É improvável (ou pelo menos bastante incerto) que eu me torne um artista de 3D com os rumos que eu escolhi pra minha vida atualmente, porém eu nunca fecho uma porta, enquanto há a remota possibilidade de eu me beneficiar de algo em algum momento futuro.

Entendido o exemplo deixado acima, fica a reflexão para qualquer pessoa, em qualquer área da vida. É preciso estabelecer metas (até mesmo se a única meta for não ter metas definidas). Entender que a vida é dinâmica e que o futuro é uma surpresa constante, nos permite vivenciar mais profundamente cada um dos momentos presentes. Nada sei como será o dia de amanhã, mas quero que o dia de hoje seja o melhor possível. É isso que me coloca em uma postura aberta para a mudança. Se hoje aprendo algo que transforma meu pensamento, minha compreensão, meus valores, minha percepção, meus desejos, meus sonhos, etc., eu caminho, automaticamente, para uma realidade nova, para a mudança. E quando isso acontece automaticamente, acontece sem medos, sem barreiras, sem pesares, sem inseguranças. Mesmo sem saber nada sobre onde o rio vai desaguar, a água da nascente escorre com confiança e se entrega ao rio, percorre o rio, descobre as pedras pelo caminho, se molda por novas margens a cada distância que avança. O rio da nascente já não é o mesmo em nenhum outro ponto do caminho e a água se oxigena justamente por conta desse movimento. De certa forma ela é conduzida por uma série de contextos, mas é a força dela que registra o caminho possível de ser percorrido. Se a água for pouca e fraca, logo evapora, seca e o rio não se forma. Para viver uma vida intensa, com significado e prazer, é preciso deixar a vida acontecer.

Rodrigo Meyer – Author

Minha ideia sobre bons momentos acompanhado.

Embora seja fácil pra mim citar uma infinidade de cenários que me interessam, é importante antecipar que isso não restringe as possibilidades, nem torna o que foi citado como premissa. O que vem a seguir, demonstra, sobretudo, como as coisas podem ser diversas, diferentes, permeando desde o convencional ao exótico, indo de coisas simples até sonhos que exigem maior preparo. O importante nisso tudo é o que está por trás de cada momento, de cada interação, o que ocorre na mente de cada um, o que se abriga no sentido subjetivo, simbólico, emocional e ideológico por trás. Muito disso traz aspectos de liberdade, de ousadia, de cumplicidade, de transformação, de coragem, de tranquilidade, proteção, mudança, sinceridade, confiança, mistério e também a beleza dos dramas.

Pensar em bons momentos pra se viver, me fazem viajar em realidades das mais diversas. Eu sou uma pessoa diversa. Muito. Eu consigo permear inúmeras realidades e me sentir pleno em todas elas. Eu sei ver o que há de bonito em todo tipo de realidade. Eu consigo transformar a minha vida em diversas outras vidas. Eu sou uma biblioteca à ser escrita, podendo ter uma história diferente em cada livro. Eu não sei qual vai ser a próxima realidade que eu vou vivenciar, mas todas as realidades que me chegam, eu vivo intensamente, entregue totalmente, em sinceridade.

É um bom momento pra mim, andar pela cidade, lado a lado, em dois, em trio, em grupo e chegar recebido e convidado para um apartamento. Apartamentos são diferentes de casas. Eles tem uma atmosfera diferente. Sentar num chão é tão bom quanto sentar num sofá e ambos são mil vezes melhor do que sentar numa cadeira. Eu penso que seja o viés social e informal. Cadeiras são unitárias, enquanto o sofá e o chão são espaços coletivos. Cadeiras são construções formais para fins quase sempre muito específicos, enquanto que os sofás são um recanto de acolhimento, de conforto, de socialização e do imprevisto. Se quer me ver brilhar os olhos, me chame pra sentar no chão, beba junto comigo e me mostre algo bonito. Estejamos alí sem hora pra acabar. Deixa o tempo fluir, enquanto o dono da casa não tiver que sair pra trabalhar. Coloque uma música baixinho, vamos só sentir o momento. Olhares, muitos olhares. Isso é a base da melhor comunicação.

Outra possibilidade encantadora é viajar o mundo. Que eu acorde cedo, tarde ou mesmo de madrugada. Vamos cansar e descansar nas filas de estações de ônibus, nos trens, aeroportos, a pé ou de carro. Não importa como, a gente vai sair e chegar. Será ótimo ver o dia passar. E de repente apertar o passo, pra não perder o horário, mas tudo bem se não chegarmos à tempo e tivermos que mudar os planos. A gente sobrevive, dorme na calçada, segura o sono até podermos sentar, mas a gente faz, porque tudo isso é viver. Conversa comigo, observe as pessoas, vamos rir, vamos brincar, vamos imaginar. Me mande uma mensagem inesperada, no meio da madrugada e me peça pra ir aí. Os melhores dias começam assim. Gente intensa, gente viva, que percebe o segredo da vida nestes pequenos grandes atos. Se nada der certo a gente enfrenta junto. É preciso se entregar pra que coisas incríveis comecem a acontecer.

Também é bom estar em casa, deitado na cama, fazendo coisa nenhuma, recebendo um carinho, ouvindo conversas ao pé do ouvido, dormindo, ouvindo a chuva cair ou uma música de fundo que nos faça sorrir. Dividir uma pizza, uma bebida, um incenso, uma lareira, um vento na janela, uma cadeira na varanda, um chão, meu chão, o chão de quem vier. Vamos sentir a maciez do cobertor e o cheiro diferente que toda casa tem. Vamos redescobrir o sentido do tempo, se permitir sentir-se em casa na casa do outro, abrir a geladeira, tomar um banho, despir-se, usar a internet, convidar mais gente, inventar uma festa ou não ter ninguém e deixar espaço pra fechar os olhos e sentir. Não traga nicotina, tem coisa melhor pra se fumar. Se tens tempo, fica o dia todo, vira o dia, passa uns dias, volte quando precisar voltar.

Gosto também de estar mergulhado na noite, nas ruas, sentindo o movimento, a ação, a incerteza, a novidade, gente diferente, gente estranha, gente feia ou bonita, mas gente, muita gente, por onde possamos nos perder e encontrar novas portas, novos cantos, novas conversas, novas possibilidades. Vamos puxar assunto com alguém que acabamos de conhecer. Olho nos olhos, assistindo a linguagem dos corpos e vendo se tem alguém alí que pode nos acender. Vamos dividir uma mesa, brindar à beleza e descobrir só na hora pra onde vamos ir. Precisamos escutar bem as conversas, ouvir os detalhes. Lá habitam mundos. Pegue no braço, sinta os perfumes. Assim estaremos vivos o suficiente pra morrermos antes do sol nascer. Não deixe a janela aberta. A penumbra filtra o necessário pra que tudo seja mais aceitável. Não precisamos descobrir as coisas como elas são, mas só sentir o que elas podem ser por aquele momento.

Que lindo momento seria se houvesse um piano. Sentar um instante e matar saudade dos tempos de música. Entender que tudo fica mais fácil se estamos despreocupados com a vida. Apenas sentir os dedos encontrando as teclas, como se sempre soubesse onde precisa tocar. Brincar de poeta, inventar melodias, exercitar a alma. Fique por perto, sente na poltrona, use tua droga preferida e entre na viagem daquele momento. Mas não apague, não fique totalmente perdida, deixe pra se perder na sua vez de tocar o piano, de ser arte, fazer arte, fazer parte. Vamos vedar a casa, pra não incomodar os vizinhos ou morar num lugar onde eles apreciem nossos desvios. Que as janelas possam ser de vidro, porque quero olhar as luzes da cidade lá fora ou um espaço de natureza onde o vento agite uns galhos de árvore no meio da escuridão. Se estivermos acordados de dia, que possamos, pelo menos, sentir o laranja da tarde ou algum frio congelante que nos faça sentir melancolia.

Do outro lado da vida, ainda se vive a mesma vida, se não deixamos de ser a mesma pessoa. A vantagem em ser diverso é poder apreciar também um simples momento em família. Vamos visitar uns parentes ou desconhecidos, numa festa de aniversário, num evento beneficente ou qualquer coisa parecida. Vamos conversar com idosos, conhecer histórias, prestar memória, deixar aquilo ser algo bom pra se lembrar. Fazer ser importante pra quem recebe a presença e encontrarmos importância também no que eles podem nos dar. Vamos rir de crianças, das coisas bobas e bonitas que fazem, sentir ternura e relembrar como é bom essa fase. Vamos ver animais, abraçar cavalos, assistir uns patos, libertar passarinhos e inventar nomes pra uns gatos. Vamos espalhar uns panfletos na avenida, nas caixas de correio da vila, nos arredores das escolas. Vamos fotografar, escrever, desenhar, promover, apoiar. Vamos pras ruas em tempos de luta, chutar pra longe as bombas de gás lacrimogêneo. Vamos nos juntar a milhares de outras pessoas com vida. Amarra o coturno, apressa o passo, segura no braço, vamos se entrelaçar formando uma fila.

Em companhia, não fecho as portas pra nada. Não me importa se é um amigo, um mendigo, um perdido ou uma namorada. Por aqui você pode contar comigo, não tem tabu, não tem frescura, não tem perigo. Se está feliz ou triste, se perdeu a saúde ou precisa ser ouvido. Eu não sei qual é o seu momento, mas eu estarei lá pra fazer a minha parte. Pode me contar, eu vou ouvir, me pergunte, eu vou responder. Não tem problema nenhum se você é diferente, se sua vida anda meio perdida ou se você sente que não tem espaço pra se explicar. Aperta minha mão, dá um abraço, perde o medo, não tenha vergonha, fale do seu jeito, no seu tempo, o que achar que deve. Vamos conversar, vamos trocar. Estamos vivos, somos gente de valor, vamos se valorizar. Aceita um convite, deixa eu oferecer uma comida, talvez uma bebida, talvez um conselho pra dar. Me conte sua história, vamos dar a volta por cima, fazer isso ser motivo de glória e não motivo pra chorar. Incômodo são somente os outros que nos ignoram e não sabem nos fazer brilhar. Pode vir, com sua roupa furada, sua bagagem amassada, seu olhar maltratado, seu tesouro quebrado, sua insegurança, sua timidez, seus medos. Traga o que tiver e será suficiente. Aproveita o dia, pois todos merecemos. Fique tranquilo, encontre prazer em ser, em ter alguém pra chamar de amigo.

Há de se ver prazer também em cenários menos entristecidos. Vamos escrever cartas, cruzando distâncias curtas ou transoceânicas. Vamos agradecer, enviar desenhos, flores, histórias, pedaços valiosos de nossas próprias memórias. Vamos levar o nosso dia a dia pra alguém que nos seja importante. Dividir a vida à distância, pode ser tão ou mais vibrante do que pessoalmente. Tudo depende do que estamos fazendo e para quem. Pessoas incríveis encontram prazer e aventura em coisas que pra muitos é pura loucura. Vamos ter ideias, pensar junto, lembrar do outro, enviar um mimo, um presente, uma proposta, uma pergunta, um lembrete, um conselho, um elogio ou uma simples foto tirada na frente do espelho. Nos tornamos mais humanos quando conseguimos ser livres o suficiente pra aceitarmos múltiplos planos. Me surpreenda com um pacote de guloseima que só tem no lugar onde você vive. Eu vou me sentir feliz pela surpresa e lembrar disso vai me fazer me conectar melhor contigo. Não importa que nome isso tenha. Faça isso ser leve, intenso e sempre valerá a pena.

Também gostaria de momentos desafiadores. Conhecer o extremo nos lugares de neve, o calor pesado de grandes desertos e sumir por meio de vilarejos pequenos. Subir montanhas, descobrir cachoeiras, acampar por aí, deixar as aventuras serem elas mesmas. Me chama pra te ver acordando, de cara inchada, se espreguiçar olhando pro horizonte, sentar e contemplar. Vamos sorrir, abraçar, meditar, descobrir que pouca ou muita comida pode ser igualmente suficiente. Vamos lavar os pés no mar, deixar o sal limpar e o vento secar. Corre ali, volta com uma novidade, descobre um lugar, um bar, uma outra cidade. Vamos ficar, vamos partir, vamos dividir. Na praia, no campo e pra onde mais quisermos ir. Isso nos faz saudáveis, nos faz admiráveis, nos faz sorrir.

Trabalhar junto também é possível. Como em um jogo de vôlei, um levanta e o outro corta. Ser equipe, ser parceria é fazer a coisa funcionar de uma maneira que seja boa pra nós. É encontrar uma atividade que nos seja divertida, que dominemos e que tenhamos prazer em nos esforçar. Ver resultados não pode ser só uma meta a ser atingida, mas o cenário de quem tem objetivos pessoais naquela investida. É isso que nos faz investir, nos faz sentir seguros no que fazemos. Levante um dia com uma dúvida, uma proposta, uma pergunta, uma ideia nova. Me apresenta um livro, vamos comprar alguma coisa necessária qualquer pra tentarmos realizar nossos sonhos e loucuras. Faça tudo ser bonito, se empenhe, não se contente com algo inferior. Vamos fazer do trabalho um ato de amor. Se teus olhos não brilham pelo que você faz, vamos mudar de trabalho, vamos correr atrás de mais. Eu não preciso que teu trabalho seja fixo, nem me importaria se tivéssemos que esperar um pouco mais. Eu estou aberto, eu apoio, eu quero ver sorrisos, eu quero fazer parte, inclusive com bastante improviso, porque começar é apostar no que ainda não existe para os outros, mas já é realidade dentro de nós. Se mudamos de cidade, se perdemos a conexão com a realidade, tudo bem, a gente vai encontrar uma forma de nos fazer sermos percebidos, de vencer aquilo, pelo menos, no nosso interno desafio.

Você pode ser quem você quiser, encarar a vida de mil maneiras. Pode ser mãe, aprendiz, solteira, alegre ou infeliz. Você pode gostar de rock, de samba ou ser como eu que gosta de tudo que me faça sentir. Você pode preferir a noite, pra poder dormir de dia, pode inverter o jogo e me arrastar pra debaixo do sol. Eu vou estar lá, admirando a chuva, o vento, o sol, a paisagem, a casa quebrada, a porta velha, a cama improvisada, e também o teu imenso candelabro escondido na cera da vela. Você pode ser de toda forma, qualquer medida, qualquer estilo de vida. Mas, que seja confidente, que se entregue junto, que venha pros momentos pra ser gente como a gente. Que se permita errar, não saber, conhecer muito e me ensinar a ser. Você pode estar comigo, pra correr da noite, no meio de lugares desconhecidos, pode estar na paz de uma escada no alto de um prédio, dividindo um segredo, sendo você mesma um mistério. Pra ser companhia por aqui, é preciso estar sendo algo verdadeiro. Se simpatiza com a minha forma de ser flexível, temos o dobro de possibilidades. E se tua vida for um pouco mais restrita ou concentrada, vou adorar entrar nesses trilhos pra seguirmos juntos a mesma jornada. A vida não precisa ser de um jeito muito específico. A realidade que alguém escolher ter ou mesmo qualquer outra realidade que nos aparecer, eu vou encarar com gosto, vou me sentir protagonista, vou estar lá pra mergulhar fundo, experimentar a realidade daquele mundo. Eu não me incomodo com nada. Tudo que eu conheço da vida é que a vida está aí pra ser explorada.

Talvez você não enxergue em mim, logo de cara, tudo que eu posso ser em qualquer outro momento, em outro cenário, com outro pensamento. Talvez você não perceba que, do jeito que eu vim, é só uma das inúmeras possíveis facetas. Aquilo que somos não é necessariamente aquilo que estamos. A vida é sempre transição (ou não). E está tudo bem em permear mundos diversos. Se não experimentamos em profundidade uma determinada história, uma face da vida deixa de existir. Estamos aqui pra usufruir. Se você se permitir e se estivermos em sintonia pra dizer mais sim do que não, então, temos uma boa razão. Dividir bons momentos em companhia é ser companhia em qualquer momento. Não importa o cenário, nem importa o que é que vamos fazer das nossas vidas. Não sabemos. Chegamos lá e descobrimos o que temos e teremos. É sempre uma surpresa. E fica tudo melhor se quem nos surpreende também acredita nesse ideal. Assim a vida fica cheia de aventuras, até mesmo nos momentos em que nada acontece. Viver, por si só, se nos permitirmos sentir o momento, é aventura suficiente.

Rodrigo Meyer – Author


Sobre o medo de morrer.

Sei que muita gente teme a morte, mas certamente não sou uma dessas pessoas. Consigo entender que as pessoas correm da velhice e da morte e, de alguma forma, vê-se que estão apegadas a este mundo de uma forma tal que, deixar de existir e partir pra outra situação nova, totalmente desconhecida, as apavora. Seja lá o que encontremos depois da vida, como uma continuação ou um ‘eterno nada’ silencioso, reafirmando a brevidade da vida, pra quem tem medo da morte, não importa muito quais são as características da morte, além do fato de que nosso corpo simplesmente para de funcionar e, então, apodrece.

Via de regra, temos receio daquilo que não conhecemos. O mistério assombra muita gente. As pessoas se assustam mais com o que não podem ver do que com o que está bem diante delas. É exatamente o caso de quando as pessoas temem um ambiente sem luz, simplesmente porque não sabem o que há neste ambiente. Alguns se aterrorizam com a mera possibilidade das coisas, fazendo valer a ideia de que uma possibilidade já é mais que suficiente pra impactar alguém, mesmo que esteja distante da realidade.

De certa forma, é basicamente isso que constitui o pensamento e crença das pessoas, em torno da religiosidade, espiritualidade ou mesmo das superstições. Quando o homem vivia em cavernas e mal dominava o fogo, aproveitar o dia requeria dele a luminosidade do sol e algum controle sobre o que ele estava vendo e sentindo. Era possível entender facilmente que alguém estava tocando nele, vendo a presença da pessoa próxima de si, mas tornava-se uma incógnita sentir insetos ou pássaros triscando seus corpos no escuro. Dessa incógnita, a mente se assusta, porque ela não conhece e não compreende. Aquilo que ela tenta resolver e não chega em um resultado, gera uma ansiedade e um desgaste imenso para o cérebro. Um mecanismo de proteção automático da mente é evitar o desconhecido. Para tal feito, alguns se agarram em explicações sobre a vida, sobre a morte e/ou o desconhecido em geral.

Nossa mente consciente nada sabe sobre o desconhecido. Tudo que se constrói na mente sobre a vida, a morte ou o invisível, é uma especulação, uma crença, um palpite ou uma tentativa de dar vazão ao desconforto diante do que não se sabe e que se quer muito saber. Para algumas pessoas, a forma encontrada de lidar com a morte, é idealizar ou acreditar que depois do falecimento do corpo, chegaremos a algum local positivo, alinhado com o que julgamos ser de melhor qualidade ou com mais benefícios. As pessoas nunca imaginam, por exemplo, que a suposta continuidade depois da vida corpórea, seja um ambiente pior. Não seria confortável para a mente, saber que está se aproximando de algo ruim. Seria uma situação semelhante de quando os vivos se apavoram com a morte e evitam qualquer coisa que os deixe próximos dela. O medo de envelhecer, em última análise, é exatamente isso. Sabendo que a cada vez que envelhecem, ficam mais próximos do fim da vida, muita gente fica em desprazer de envelhecer, pois é o mesmo que se aproximar da morte. Essa estrutura de pensamento é abrangente e antiga, tanto que a ideia de um inferno como punição para uma vida fora das regras, deixou muita gente com medo dominada. Mas, felizmente, essa não é a única maneira de se encarar a vida.

Muita gente, inclusive eu, não vive com essa preocupação diante da velhice ou da morte. A morte chegará pra todos, sem exceção. Não se pode viver achando que evitará morrer. Não há porque correr da morte, pois ela é um processo natural que já foi presenciada inúmeras vezes. A impressão que tenho é que, ao evitarmos a morte, estamos atribuindo valor no período em que estamos vivos. É interessante pensar que, apesar das catástrofes do mundo, do modo doentio das sociedades e sistemas políticos, as coisas ainda nos parece com um valor tal, que lutamos para não sair disso. É de se pensar que, enquanto estivermos felizes na vida, veremos prazer em continuar fazendo nossas atividades e desfrutando das satisfações em convívio com outras pessoas e até mesmo com os assuntos infinitos que o mundo nos permite tentar conhecer. Talvez seja esse rompante de disposição e prazer que faça muita gente valorizar a vida. Sinceramente, eu ainda não tenho essa resposta e, por enquanto, não tem sido um desconhecimento que me causa angústia nem ansiedade por respostas. A incerteza sobre a vida sempre existiu e as pessoas continuam nascendo e vivendo. A única diferença na qualidade de vida do indivíduo está justamente como ele gerencia esse desconhecimento. A depender de como ele interpreta, supervalorizando ou não o “problema”, isso pode deixá-lo com medo do desconhecido ou não.

A imaginação humana é poderosíssima. Se você apontar pra um ambiente vazio e fizer uma expressão de medo perto de outra pessoa, mesmo que você não tenha visto nada, tanto quanto a outra pessoa não viu, sua encenação de medo vai representar um problema para a pessoa ao lado. Ela vai ler a sua feição e a mente dela vai entender que há algo de perigoso, assustador, ocorrendo no ambiente e, pra ficar ainda mais bizarro, caso ela não tenha visto nada de fato, deixará a mente completamente ocupada tentando preencher essa lacuna. A mente pode simplesmente entrar em pânico ou formar uma imaginação que resolva esse mistério. Entender porque tanta gente possui medo da morte é entender que elas possuem medo do desconhecido e a morte é um dos maiores ‘desconhecidos’ que existem. Estando vivo não se pode experimentar a morte. Logo, esse é um assunto do qual morreremos sem desvendar. Mas porque isso precisa ser um incômodo?

É compreensível que o ser humano, por conta de sua estrutura, carregue consigo vários mecanismos de autopreservação, estando incluso nisso tudo que possa evitar perigos ou situações que, conhecidamente, levam para a morte em si ou para situações próximas, como os ferimentos graves, grandes dores ou doenças debilitantes. O ser humano está configurado geneticamente pra agir com base no seu instinto de sobrevivência. Porém, uma coisa é evitar a morte por conta do instinto e outra coisa é ter medo da morte. Talvez, no meio dessa salada de experiências humanas, morrer tenha cravado em nosso código genético a associação entre morte e medo, como uma estratégia de eficiência pro instinto. Se passamos a temer a morte, certamente ficamos mais engajados em evitá-la ou em lutar para adiá-la o máximo possível. Consigo entender essa possibilidade, mas trago algo a mais. Há nuances desse medo que não são saudáveis e tornam-se, por isso mesmo, uma contradição. Se a pessoa quer viver mais, ela precisa, então, controlar  o medo exagerado da morte. Se passa a vida inteira com medo de morrer, certamente não está tirando proveito real dos momentos da vida, além de estar provocando uma série de problemas na saúde física e mental que vão degradar seu estilo de vida até o ponto em que, problemas derivados serão potenciais motivos para sua morte precoce.

Eu sempre tive em mente que ter medo da morte é a garantia de pararmos de viver. Se deixamos de fazer as coisas que gostamos, por medo de acabar morrendo, simplesmente paramos de fazer tudo, pois pra morrer basta estar vivo. Imagine, por exemplo, alguém que evita cozinhar, por medo de uma falha no botijão de gás ou medo de uma faca escorregar de sua mão. Embora esse seja um exemplo exagerado, é com essa mesma premissa de lógica que muita gente está deixando de aproveitar o potencial de suas vidas, por medo não só da morte, como de inúmeras outras coisas igualmente ‘banais’, por assim dizer. As pessoas evitam até mesmo quebrar as correntes do sistema que as aprisiona, exatamente pelo medo de que o sistema faça o que está programado para fazer: controlar as pessoas pelo medo da morte. As pessoas se calam diante da realidade, com medo de que algum incomodado venha brecá-las com a morte. Porém, as pessoas se esquecem que, se ninguém tiver medo da morte, inclusive em um cenário onde as mortes de fato ocorram, o próprio sistema de controle pelo medo deixa de funcionar e o objetivo inicial dos opressores desaba. Um sistema só sobrevive se as partes oprimidas cumprem o papel esperado delas no jogo.

Poderia estender essa filosofia pelo viés político e sociológico, mas, por hoje, não é o foco do texto. Queria, a princípio, levantar uma reflexão que é bastante pertinente, ainda mais nos últimos anos onde as pessoas estão começando a se abrir pra certas mudanças de pensamento e de postura. Mesmo que pareça que o mundo está retroagindo na velocidade da luz, alguns passos na direção certa estão ocorrendo e, cada nova geração, carrega um pouco mais de entendimento e liberdade que a geração anterior, mesmo que isso não seja em todas as pessoas. Apesar de ser perfeitamente compreensível e aceitável que as pessoas não consigam concretizar um levante contra seus próprios medos e inseguranças da noite pro dia (principalmente se não houver cumplicidade coletiva), é preciso sempre deixar uma fagulha acesa, pra que o fogo sempre possa ser erguido no momento que for oportuno. Esmiuçar as questões humanas, sobretudo quando toca nessas fragilidades, exige um certo tato pra que possamos trazer mais benefício do que prejuízo ao pinçar um problema e propor uma análise ou solução.

Não existe uma regra de que você deva se transformar na pessoa que eu sou, afastando seu medo da morte. Eu não sei dizer se em algum momento da infância eu tive esse medo e o abandonei ou se sempre fui assim, sem medo de morrer. Claro que isso não significa que eu me exponho em vão a situações desnecessárias. Não ter medo de morrer não significa que tenho ansiedade por morrer. Apenas é algo que não me gera preocupações ou inseguranças. Pra mim está completamente tranquila a ideia de que, em algum momento, seja cedo ou tarde, morrerei por alguma situação. Dalai Lama, em uma de suas frases alerta para o conflito clássico humano, onde as pessoas se tornam depressivas quando vivem demasiadamente no passado ou ansiosas quando vivem demasiadamente no futuro. A solução óbvia, proposta por ele, é viver no momento presente, pois ele é o único momento real. O passado já foi e não podemos mudá-lo, enquanto que o futuro ainda não existe. Em consonância com essa ideia, eu penso que não tenho que lidar com o tema da morte hoje, pois ela é um evento futuro (além de inevitável e natural). Assim, nas minhas mãos está somente o que posso fazer da minha vida hoje e, deste hoje, eu escolhi viver, agir, pensar, me expressar, me engajar naquilo que eu acredito, sem medo de que a mudança positiva que proponho possa ser freada pela minha morte. Lembre-se que não se pode jamais matar uma ideia. Corpos vão, ideias ficam. O mundo muda, cedo ou tarde. Perde tempo, saúde e evolução, aquele que tenta adiar a mudança. Inspirem-se em seus melhores ideais, estejam unidos aos seus semelhantes e façam a mágica acontecer.

Rodrigo Meyer

 

O perigo do falso entretenimento.

O ser humano, assim como outros animais, busca por entretenimento. É uma necessidade natural e é buscada automaticamente pela mente. Exploramos o ambiente em busca de algo que possa prender nossa atenção e nos entregar alguma satisfação. Queremos ocupar nosso tempo de uma forma que faça valer o momento, simplesmente pra não nos sentirmos entediados ou sem propósito. Chegamos no mundo sem descobrir porquê e passamos nossa existência buscando ocupar da melhor forma possível esse intervalo misterioso até o falecimento do nosso corpo.

É nesse cenário que passamos a buscar entretenimento, às vezes assistindo um filme, conversando com alguém, dividindo uma piada, contemplando ou fazendo arte, se desafiando em um videogame, lendo um livro, escrevendo um poema, visitando a natureza ou mesmo observando o movimento na rua. Nossa mente precisa sempre se sentir ocupada pra que nossa existência faça algum sentido. Porém, infelizmente, muitos de nós se perde nessas buscas ou não encontra acesso ou interesse por variedades eficientes de entretenimento.

Quem já visitou um asilo de idosos alguma vez, provavelmente se deparou com uma cena desoladora. Ao menos dos que conheci no Brasil e os que pude deduzir pelas mídias de outros países, certamente é global a tendência de abandono pra essa fase da vida. Por vezes, sem recursos financeiros ou estrutura mínima pra essa comunidade, ficam sem ter como produzir algum entretenimento que contemple as necessidades, limitações e anseios dos tutorados. Não é preciso dizer que são frequentes os casos de depressão entre idosos. Estou citando essa parcela da população, justamente porque este contexto destaca uma questão primordial no ser humano de todas as idades. A sensação de não estar mais ativo, em uma espera passiva pelo dia da morte é o desprazer que mais assombra o ser humano. Enquanto jovem,  o ser humano luta para fugir basicamente de duas coisas: da velhice e da morte. E, claro, mesmo assim, sempre terá esse desfecho.

A vida nos exige que façamos algo dela e é exatamente por isso que estamos sempre em conflito com o que não ocupa o nosso tempo. Apesar de tantas coisas terem sido criadas para supostamente entreter o ser humano, muitas vezes isso não o está preenchendo de fato, podendo apenas estar conduzindo ele para uma morte passiva. Entenda que o problema não é sermos conduzidos até a morte, afinal isso é natural e todos nós chegaremos nela. O problema real é quando, eventualmente, a vida se torna tão somente a ligação vazia e direta entre nascer e se aproximar do fim. Esse intervalo é tudo que temos e por isso nos é sagrado, caro, de valor inestimável. Por isso, para todos nós, a vida não se resolve apenas por existirmos, sendo importante, portanto, exatamente aquilo que fazemos de nossa existência e quanta satisfação conseguimos obter dela.

Existem inúmeras formas de entretenimento para resolver o intervalo da vida junto da curiosidade humana. Em todas elas podemos experimentar momentos bons ou ruins, a depender da veracidade desses momentos. Dividir uma conversa, por exemplo, pode ser muito engrandecedor, mas se o assunto ou o interlocutor nos parece desagradável, podemos nos sentir entediados, cansados ou até irritados. Nesse caso, podemos facilmente identificar que tal entretenimento foi ruim e não nos preencheu, porém, existem outros tipos que, de tão comuns e maquiados pela sociedade, passam pela absorção do público sem o filtro da crítica. Ocorre, por exemplo, quando se trata de um programa de pseudo-humor com piadas sem graça, que ao invés de nos preencher o vazio,  apenas despeja referências rasas de sexo, preconceitos ou até discursos de ódio.

Por muitos anos na televisão aberta brasileira se via os quadros de programa como os de ‘videocassetadas’ onde se expunha uma compilação de vídeos de pessoas se machucando, caindo, escorregando, etc. Essa suposta demanda justificou, inclusive, a criação dos posteriores programas de violência ainda maiores e até mais explícitas, como os programas de tv nomeados de ‘policiais’, onde o público já insatisfeito se nutria de mais insatisfação, cultivando mais motivos pra odiar as pessoas enquanto enaltecia a violência até entrar no padrão mental do desprezo, do preconceito, da opressão, etc.

De tanto ver desgraça, mentira, preconceito e outros entulhos, dentro e fora da televisão, a mente fica insensível a todos esses estímulos, aceitando níveis cada vez piores de “conteúdo” e realidade. Manter a população acostumada ao inaceitável é a meta de muita gente que lucra as custas da ruína do público, durante essas milhares de horas diante desse falso entretenimento dentro e fora das mídias. Por isso, é importante filtrarmos aquilo que nos sujeitamos ou não a absorver ou vivenciar.

Você já deve ter ouvido a expressão “comer isopor” em referência a alimentos que, embora sejam visualmente volumosos, não sustentam o organismo, gerando, muito em breve, vontade de comer novamente. Da mesma forma ocorre com o falso entretenimento que, justamente por ser falso ou raso, te mantém vazio. Com este tipo de entretenimento, você tem a impressão temporária de preenchimento do vazio da vida, mas logo se apercebe que apenas “comeu isopor”. Esse hábito pode se tornar um vício e degenerar sua saúde física e mental. Enquanto a vida não para e o vazio continua, os viciados se tornam intolerantes com a ausência desse falso entretenimento, por efeito da crise de abstinência, similar ao que ocorre com o cigarro de nicotina que mesmo inútil, é requerido como se fosse necessário. Muita gente, inclusive, tem o ato de fumar nicotina, como equivocada tentativa de preenchimento do vazio da vida, perdendo saúde, tempo e dinheiro com algo tão vazio que nem mesmo dá “brisa” ou prazer real.

Quem em sã consciência compraria isopor para o almoço? Quem em sã consciência preencheria os dias de sua vida tentando rir do que não é engraçado ou tentando aliviar o estresse assistindo conteúdos estressantes? Se a conta não fecha, você está fazendo errado. Eu não quero dizer o que é que você tem ou não que escolher pra se entreter, pois isso é completamente subjetivo a cada pessoa. Algumas pessoas se ocupam em estudar idiomas, outras não possuem afinidade ou curiosidade por isso. Algumas se preenchem tocando um instrumento musical ou escrevendo poesias, enquanto outras podem preferir passar longe disso e desfrutar seu tempo cozinhando ou dividindo o prazer de uma refeição com alguém querido. Não importa que tipo de área se tenha interesse, desde que encontre meios sinceros de se entreter nessa atividade, pra não ser enganado com os tais “isopores” da vida. Descobrir aquilo que nos preenche, pode nos eliminar o medo desse incógnito vazio da vida e nos motivar em nossa missão, seja ela qual for.

Rodrigo Meyer

Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer