Relato | Mentiras, drogas, racismo, agressões e exploração financeira.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição incluindo uma fotografia de uma pessoa fictícia aleatória, pra fins de ilustração do texto. Esse é o relato de uma pessoa que passou por um relacionamento abusivo. Por questões de privacidade, substituiremos o nome dela pela letra aleatória A.

“Quatro anos atrás eu estava inscrita em um desses sites de relacionamento. Foi lá que conheci um rapaz. Ele veio falar comigo e eu me senti prestigiada, pois estava em um momento difícil da vida, onde meu pai havia falecido e eu estava frágil e carente. A vinda desse rapaz veio de encontro à minhas necessidades de acolhimento, principalmente por todos os elogios que ele fazia, que era bem o que eu queria ouvir.

Em dado momento, aconteceu de sairmos do virtual para o mundo real. Fomos nos encontrar. Mas algo não ia bem. Ele estava muito agitado, ansioso, preocupado. Olhava para todo lado como se estivesse com medo de ser visto por alguém. Aquilo me deixou um alerta, mas logo eu abafei aquilo da minha cabeça, pois sempre que eu recuava de insegurança sobre ele, ele mudava tentando passar uma imagem melhor. E assim as coisas foram acontecendo, mesmo que já de início os sinais ruins estivessem lá.

Em seis meses, ele já havia me proposto casamento. Eu me sentia contemplada e na época nem percebia o quão cega e vulnerável eu estava. Ele queria que eu encontrasse um vestido de noiva e planejamos até uma festa. Eu tinha minha vida relativamente estável, com um bom trabalho, meu apartamento, meu carro. Ele dizia ter trabalho e de início me pareceu tudo plausível. Tínhamos realidades um pouco diferentes nesse sentido, mas isso não era nenhum problema para mim.

Eu tinha um filho de relacionamento anterior e ele também anunciava ter um. Não demorou muito pra que ele começasse a contar histórias pra me pedir dinheiro. Alegava que o filho dele estava passando por problemas com droga e diante do contexto, eu ajudava. Mas, cada vez era uma necessidade diferente. De repente era um carro quebrado ou outra coisa qualquer. Eu não via nada daquilo na ocasião. Ele sempre tentava demonstrar que estava estudando ou trabalhando, mas tudo vinha muito só da boca pra fora. Quando algo não parecia muito crível ele se esforçava pra reverter a situação.

O casamento ocorreu no civil, abandonamos a ideia da festa, porque o buffet havia dado errado. Foi o começo de mais situações. Ele passava a depender muito de mim, me pedia dinheiro pra muita coisa e, provavelmente, se aproveitava do fato de eu ter um bom trabalho ou de simplesmente ter um trabalho, já que eu nunca soube se ele realmente tinha um também. Quando eu não dava dinheiro à ele, ele ficava agressivo, me ofendia, discutíamos e mais um sinal estava alí, sem eu notar bem o que estava acontecendo.

Houveram momentos em que o descontrole dele evidenciou o racismo. Ele branco e eu negra, dividíamos um teto pra que eu ouvisse dele expressões horríveis que nunca mais vou esquecer. Diante de meu pai, tudo isso parecia o pior cenário. Tentativas de agressões físicas ocorreram, mas a presença dos meus pais, em especial a minha mãe, foram um oportuno freio. De alguma forma ele tentava passar uma imagem positiva na frente dos meus pais, para ganhar a simpatia deles. Mas, como citei, em momentos mais drásticos, nem isso impedia ele de expressar as piores palavras nos cenários mais errados. Já não havia mais nada de bom alí. Eu só estava me sentindo derrotada.

As mentiras dele foram aparecendo e eu fui me dando conta de que ele mentia para tudo. O filho dele não tinha problema algum com drogas e o mais triste é que, era ele mesmo quem estava mergulhado nelas. Me pedia dinheiro pra sustentar o vício em álcool e cocaína. Os cursos que dizia fazer, nunca frequentou ou sequer existiram. Frequentemente era demitido dos trabalhos e eu não me dava conta desse imenso sinal. A nossa vida sexual era ruim, bem ocasional. Nunca suspeitei que o motivo disso fosse os hábitos dele com drogas. Eu só fui me dar conta da loucura que eu estava vivendo dentro de casa, quando eu encontrei um pino de cocaína no bolso da calça dele. Pensei o quão ruim era tudo aquilo, tendo eu um filho novo em casa. Eu não queria nada daquilo pra mim e nem pra minha família.

Não havia motivos consistentes pra estarmos juntos. Tudo que havia era exploração, agressão, mentiras e ciúmes. Com o meu sucesso profissional e meu círculo de trabalho e amizade, ficou muito claro na mente dele que eu tinha um cenário positivo na minha frente e não faria sentido nenhum eu estar com uma pessoa abusiva como ele. Por isso começaram as críticas ensinuando todo tipo de coisa ou tentando controlar minha vida. Roupas curtas eram um problema e até meu trabalho se tornou um alvo pra ele. De certo ele se sentia fracassado e susbtituível e ele se sentiria mais confiante e seguro se eu perdesse o meu bom emprego.

Mas, eu escolhi ouvir a mim mesma e a observar friamente todo cenário. Passei cerca de um ano observando tudo e percebi finalmente que estava em um relacionamento abusivo do qual eu não deveria aceitar jamais. Depois de tudo isso, estava decidida a me separar. Planejei o melhor momento e maneira pra fazer isso. Surgiu a grata oportunidade de uma viagem à trabalho pra outro país. E foi a brecha que eu precisava pra fazer todas as mudanças na minha vida. Anunciei a separação e assim que ele saiu de casa eu pedi que minha mãe trocasse a fechadura da porta. Finalmente me vi livre daquele sujeito. Eu segui a minha vida, aprendi com tudo isso. Ficou a lição de que a vulnerabilidade gerada pela carência foi o que permitiu tudo isso acontecer. Não sei se posso, mas, talvez, chamaria de sorte por isso não ter desviado pra situações piores. Sabemos de tantos outros casos onde as pessoas são ameaçadas, espancadas, violentadas, perseguidas e mortas. Eu sou grata por ter enxergado tudo, antes que tivesse o risco de conhecer cenários piores e de desperdiçar a minha vida em mais anos com alguém que apenas me usava e nunca gostou de mim.

De divórcio assinado e vida reconstruída, hoje eu invisto em mim mesma e não quero saber mais de nada disso. Quero apenas que meu relato sirva de alerta e de motivação para que outras mulheres consigam perceber eventuais relacionamentos abusivos, mesmo que sejam diferentes dessa minha experiência particular. Que todas elas possam se empoderar e descobrir a mulher forte e cheia de potenciais que são. Que todas elas possam desviar de mentiras, observando melhor os claros sinais. Que elas se tornem mais cuidadosas consigo mesmas e que estejam firmes pra não se deixarem levar por falsos elogios ou promessas. Precisamos, todas nós, nos afastar daquilo que não soma nada em nossa vida, de preferência antes mesmo de começar.

Hoje, o que eu quero mesmo é dançar e brilhar, seguir o meu trabalho e sorrir diante dos novos planos que surgiram pra minha vida. Convites aqui, convites por lá, eu sei que tenho muitas opções para dar saltos ainda maiores. Eu já venci e se você focar em você mesma também poderá brilhar.”

A.

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Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

Vício em lixo é falta de amor-próprio.

2017_mes03_dia18_12h00_vicio_em_lixo_e_falta_de_amor_proprio

Todo mundo conhece alguém que já aceitou situações ou pessoas que não deveria. Conhecemos inúmeras pessoas que consomem produtos, mídias ou serviços que são absolutamente dispensáveis. Isso nunca foi novidade. O vício em lixo acompanha o ser humano há eras, pois a humanidade não mudou muito ao longo do tempo. Estamos claramente vendo que o ser humano aceita todo esse prejuízo porque não tem amor-próprio. E isso não precisa ser assim.

Pense da seguinte maneira: se você gosta de alguém, você dá um presente à essa pessoa, algo bom, interessante. Certo? Não há como dar papel higiênico usado como presente de aniversário pra alguém, à menos que você não goste da pessoa. Estamos entendidos?

E quais são as coisas que você anda se dando ao longo da vida? Quem são as pessoas com quem você está se relacionando? Em quais situações você se coloca? Que tipo de ocorrências você permite em seu meio? Você absorve as ofensas que lhe entregam ou as recusa? Você acredita na palavra dos opressores ou dos amigos? Qual a qualidade dos amigos que você mantém? Tudo isso (e muitas outras coisas) são os presentes que você dá pra si mesmo. Agora é só analisar se esses presentes são bons ou ruins.

Se estiver se dando muito lixo, então você não está se gostando. E se esse for o caso, precisa trabalhar sua mente, suas memórias e seus traumas. Porque razão passou a se ver sem valor a ponto de não gostar de si mesmo? O que te fez chegar ao sentimento de inferioridade que tem? E se isso veio de alguma situação ou pessoa, me diga algo simples: você quer se dar presentes bons ou a opinião de pessoas e situações que te reduzem? Se quer se dar presentes bons, terá, automaticamente, que apagar a importância dessas pessoas ruins que te fizeram sentir-se inferior ou sem valor. E, então, automaticamente, você se empodera, se recoloca no seu lugar e deixa de se sentir inferior. Você começa a se valorizar, se gostar, ter amor-próprio. Esse é o começo da sua nova vida. É daí que vai se estruturar pra se conhecer novamente, pois até então não se conhecia tal como é, mas apenas tal como outros queriam que você fosse ou como lhe fizeram acreditar que você fosse, mesmo não sendo. Hora de mudar e avançar!

Nessa equação, ajuda muito se você se desintoxicar de todo lixo e vício que tenha. Comece mudando seus hábitos na internet. Pare de assistir e ler coisas sem valor que só trazem lama e superficialidade. Comece a consumir coisas que te coloquem num patamar mais elevado, onde você realmente merece estar. Não se permita mais se rebaixar aos conteúdos ruins das televisões, revistas, jornais, sites, grupos e também das conversas entre seus contatos.

Repense também seu emprego, suas metas, seus objetivos e suas formas de se relacionar com as pessoas. Se está acostumado a ver sempre os mesmos grupos, isso pode ser uma segurança, mas se constantemente está criticando ou armando brigas nas conversas e comentários, então está viciado em lixo. Se as páginas só te servem pra humor de baixa qualidade e os vídeos do Youtube lhe parecem muito ruins, é chegada a hora de dar um basta e se livrar desses consumos.

Quando a gente se desintoxica de vícios, sejam eles psicológicos ou químicos (incluindo os alimentares), precisamos estar prontos para coisas novas. Não nos será permitido que retomemos a certas coisas, pois corremos o risco de desistirmos da solução e voltarmos rapidamente para mais lixo. E, sabemos, o amor-próprio não se relaciona com essa conduta. Para se ajudar, progredir e se sentir feliz e satisfeito consigo mesmo, terá que tomar a decisão mais difícil: aceitar-se ou destruir-se, amar-se ou odiar-se. E isso só você pode fazer por você mesmo.

Se eventualmente você achar que está passando por situações muito além do que consegue lidar sozinho, busque ajuda profissional ou ao menos entre em contato com bons amigos (esqueça os ruins) e comece a buscar as respostas sobre aquilo que precisa pra erguer-se de maneira coerente. Deixe de lado aquelas ideias simplistas de que pensar positivo e sorrir diante da guerra é tudo que se precisa. Quem te diz isso, pouco se importa com suas dores e problemas. Dê-se, até mesmo nessa fase de ajuda, as pessoas que realmente podem te fazer algum bem. Queira por perto pessoas que te dão, na cara, as realidades que você precisa absorver pra começar a retomar as rédeas da sua própria vida.

É preciso controlar-se para não tropeçar na terrível ilusão de que se vale menos do que de fato vale e, claro, de não acabar se superestimando além da realidade. Seja realista. Pare de alimentar monstros e comece a alimentar seus potenciais, seus talentos, sua personalidade, suas vontades e desejos. E trabalhe, trabalhe muito. Deixe sua marca no mundo e mostre à todos aquilo que só você pode mostrar. Se precisar de uma mão em algum projeto, me chame.

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Rodrigo Meyer

Explicando a televisão para um alienígena.

2017_mes03_dia11_19h00_explicando_a_televisao_para_um_alienigena

Muita gente mora na Terra e desconhece as coisas das quais consome. A televisão é uma recordista nesse sentido. A maioria das pessoas que assistem não conhecem exatamente o que ela é. São, portanto, as vítimas perfeitas. Então a explicação que daríamos à um alienígena, pode servir muito bem para os terráqueos que ainda se veem presos à essa caixa.

Se um extraterrestre chegasse na Terra curioso pra saber pra que servem algumas coisas daqui, cedo ou tarde eu teria que falar da televisão, pois, infelizmente, é uma das coisas mais populares no mundo todo. Seria obrigado a explicar que temos Síndrome de Estocolmo em níveis estratosféricos. Talvez eu espante o alienígena com a descrição do telespectador encantado pela televisão ou, no máximo, o deixe interessado de invadir a Terra por ser um ambiente tão fácil de ser controlado. Deixaria a seguinte explicação à ele:

Veja, aqui na Terra inventaram algo sublime que foi a transmissão de imagens de um ponto à outro. Televisão é, em resumo, uma visão à distância, pois podemos conectar uma captação em um lugar e fazê-la visível em outro. A invenção é ótima, mas o que fizeram com ela foi catastrófico. Assim como a descoberta da divisão do átomo foi algo notório, mas o uso das bombas atômicas foi o trágico desfecho. Em tudo que o ser humano torto toca, ele entorta, para se adequar à sua ignorância, sua má índole e assim por diante. Com a televisão não foi diferente.

Passaram-se longas décadas, mas ainda é assim. A televisão evoluiu em tecnologia, mas não em função. Ela continua sendo um aparelho que se coloca na frente dos olhos para ter uma dose diária de vazio, manipulação, opressão, preconceito, aprisionamento da mente, estímulos de consumo de produtos absolutamente desnecessários e modelagem da mente para que os consumidores enxerguem tudo isso com bons olhos ao invés de se opor.

Sejam canais abertos ou pagos, o entulho é o mesmo. Te entregam com imagem,som e mensagens subliminares, reportagens falsas, notícias editadas para favorecer criminosos, ruídos para ocupar sua mente o dia todo e evitar que você aproveite o silêncio para pensar e olhar pra dentro de si mesmo. Também gastam bilhões nisso, pois o retorno é garantido. Como é algo que funciona bem e as pessoas assistem com gosto, diversas empresas buscam a televisão para anunciar produtos, serviços e ideologias. Lá se espalha tudo que se queira, com tanto que se pague bem e que seus ideais estejam alinhados com a opressão da emissora que vai transmitir a programação.

Os canais são muitos, mas todos eles são praticamente a mesma coisa. A ilusão de diversidade é uma meta. Na verdade, essas mídias competem todo dia pra ver quem ganha mais audiência, pois audiência é lucro. Se mais gente se predispõem a levar chicotada nos olhos e apreciar cada vez mais os períodos de propaganda entre uma manipulação e outra, mais consumo acontece e todos ficam satisfeitos com o sucesso da prática de exploração.

Você poderia imaginar que, sendo esses conteúdos tão ruins e sendo vantajosos apenas para os exploradores, que eles devem ser oferecidos gratuitamente para que não haja a barreira financeira com o público. Mas não demorou muito pra que eles tentassem cobrar das próprias vítimas pela manipulação que elas sofriam. E fizeram isso tão bem que os preços até subiram. Chamam de televisão paga ou televisão à cabo. Ela também é transmitida por satélite. Os canais por lá são outros que não estão na televisão aberta e, por isso, muita gente acredita que são canais especiais, com conteúdos especiais. Mas, mesmo estando pagando por eles, os canais são até piores, pois se tornaram especializados. Agora a manipulação chega mais fundo, encontra mais pessoas, e as manipula de forma mais eficiente.

Enquanto na televisão aberta o conteúdo é mais genérico e, sendo gratuito, geralmente entregue aos pobres, na televisão à cabo, tenta-se colocar conteúdos para uma classe que pretende pagar pela chicotada nos olhos. As mensalidades da tv paga sobem sempre de preço e se você deseja comprar o pacote mais barato de canais, te entregam somente os canais que ninguém quer assistir, pois assim você já gasta um dinheiro em vão logo no começo pra ficar insatisfeito e desejar pagar mais dinheiro pra ter pacotes com outras opções de canais. E assim você avança no gasto proporcionalmente. Se desejar ter canais específicos, vai precisar, praticamente, comprar planos completos, onde você financia 90% dos canais que não quer assistir para ter acesso à 10% de canais que realmente quer assistir. E o preço, claro, fica tão desproporcional que a exploração fica notória até pros mais cegos.

Quando as pessoas percebem que estão jogando dinheiro no lixo, os canais e empresas de acesso, recorrem à uma boa propaganda, mostrando que jogar dinheiro no lixo é o máximo do valor, do luxo e da qualidade de vida. Poder ostentar 500 canais de televisão e assistir apenas 2 é como comprar uma plantação de arroz para comer só uma colher dele. A ostentação do poder aquisitivo, nesse público, é defendida como ideal de vida, como algo de qualidade. E, claro, sem cultura como são, concordam e repetem essa mentira aos quatro cantos do planeta.

Nos canais da televisão aberta, jogam imagens e notícias de violência, mas com uma edição. Seria mais ou menos como dizer que todo Universo é branco, apenas porque filmam o sol, com a câmera desregulada e dizem que tudo que há no Universo é aquela luz branca ocupando a tela toda. Não pensantes como são, os telespectadores agradecem pela notícia falsa e pedem mais. Saem nas ruas acreditando que 1% é mais importante que 99%. Passam a acreditar que a bicicleta de rodas quadradas é o padrão das bicicletas pelo mundo todo. Há muita eficiência na manipulação dos fatos, pois as pessoas foram acostumadas a acreditar que Fotografia e Vídeo são reflexos da realidade, por conta do realismo gráfico dessas mídias. Elas são capazes de confundir uma novela ou filme com realidade.

Por aqui na Terra, especialmente em países mais pobres, você verá telespectadores que saem na rua e encontram atores que interpretaram vilões e lhes xingam, como se o ator fosse um vilão na vida real. Essa associação entre televisão e realidade é tanta que as pessoas dão como fato qualquer notícia que apareça por lá. No rádio, que não é tão diferente da televisão, muitas coisas nesse sentido marcaram época de tão ridículas. Orson Welles que o diga, quando narrou uma ficção no rádio, onde contava a invasão alienígena. As pessoas que ouviam, acreditaram como se fosse real e se desesperaram. Foi um caos generalizado. Isso mostra que, a falta de cultura pode fazer as pessoas não distinguirem ficção de realidade.

O investimento de cada telespectador nas mídias e nos equipamentos são constantes. Uma televisão antigamente mal chegava nas 14 polegadas e com o tempo elas foram ficando maiores e mais sofisticadas. Atualmente a disputa é por televisões cuja imagem tenha o máximo de definição possível, mesmo que 99% de todo conteúdo que é transmitido nela, não tenha essa qualidade para ser aproveitada. É como comprar uma Ferrari pra dirigir numa rua esburacada em um engarrafamento de metrópole. Custou caro e nunca sairá do lugar na velocidade que tem potencial de sair. É apenas um gasto inútil mesmo. Mas tem dado muito certo. Os modelos mais caros continuam a ser os mais desejados.

Sobre detalhes da programação eu teria que dizer aos poucos, pois posso acabar te fazendo vomitar ou te fazer dormir de tanto tédio. Tentarei. Pela manhã os falsos jornais, tentam dizer em que você deve se interessar, como deve pensar, com o que deve se indignar e quais outras coisas você deve ver com bons olhos. Te dão um ‘bom dia’ falso enquanto te exploram e riem da sua cara. De tarde fazem a mesma coisa, lá pela hora do almoço, quando muita gente senta-se pra comer enquanto trava o pescoço em posição pra assistir televisão. É perfeito, pois como estão comendo, a resistência à manipulação é ainda menor. Alguns até sorriem diante de cada chicotada nesse horário. Talvez a combinação do prazer da comida barata e super temperada causa uma associação de prazer com as imagens vistas, similar ao que acontecia em certa cena do filme “Laranja Mecânica”, onde o personagem tinha os olhos presos para que ficassem abertos diante de cenas passando adiante.

De noite, quando muitos chegam do trabalho, sentam-se no sofá ou na cama mesmo e a primeira coisa que fazem é ligar a máquina de opressão. A televisão ganha um status novo agora. Ela tem até um tal de “horário nobre” onde a disputa por audiência é mais acirrada, pois toda massa chegou em suas casas e estão ávidos por um pouco mais de manipulação. A sede por exploração é tanta que os telespectadores chegam a brigar nas famílias pra ver quem detém a posse do controle remoto, um aparelho que “facilita” a vida do explorado, por poder ligar, desligar e alternar os canais sem ter que se levantar. Isso ajuda a ser manipulado mais vezes e de forma mais precisa, pois ele mesmo ajusta a maneira com que deseja receber o chicote nos olhos. Funciona tão bem que nunca se abandonou esse acessório nas televisões, mesmo depois de tanta tecnologia percorrida.

As programações em horário nobre, de nobre não possuem nada. Mas se dessem o nome verdadeiro, não seriam o que são: manipulação extrema. As novelas são histórias mal escritas, mas repletas de boas manipulações. A história em si importa pouco, mas o que se mostra por cima dela tem grande importância para os manipuladores. Despejam, por exemplo, a ideia de que o pobre deve sempre ser omisso, pacato e aceitar sua condição, pois se assim o fizer, haverá uma recompensa posterior. Claro que na vida real é o inverso, mas a fantasia das novelas transforma essa visão facilmente. Nas novelas, você pode ver as pessoas acordando 11 horas da manhã e dedicarem quase duas horas para um tranquilo café da manhã em uma casa ensolarada, tomando um suquinho de laranja sorridentes. É tanta tranquilidade que parece um cemitério diante de um sol glorioso.

O reforço da ideia de que vulgaridade, ignorância, fama e valor, andam lado a lado é algo constante, durante as 24 horas de transmissão. Programas que encarceram voluntários para serem filmados comendo, dormindo, tomando banho, defecando ou tendo conversas frívolas ganham muita audiência e gera, inclusive, fãs alucinados por cada um desses anônimos que rapidamente ganham a oportunidade de se destacarem socialmente pois se tornaram os novos ídolos de uma massa que carecia de gente vazia pra admirar. São admirados, sobretudo, porque possuem uma imagem dentro dos padrões que a mídia vende como os únicos aceitáveis e também porque figuraram na televisão, o palco onde só “grandes pessoas” aparecem. É um show de horrores, no pior sentido do termo.

Os desenhos animados que são comprados pra serem distribuídos para crianças e adultos, visam  alimentar estereótipos, sexismo, violência e tudo que não for proveitoso pro engrandecimento humano ou pro raciocínio. A diversão é tão ruim que frequentemente precisa usar um recurso artificial de risadas gravadas, pra estimular no cérebro humano a “vontade” de rir do que assistem. Dessa maneira, conseguem rir de qualquer coisa, independente de ser ou não engraçado. Programas de stand-up comedy ficaram na moda nos últimos tempos e tem sido uma boa maneira de fingir que a televisão tá entregando algo de útil. Se as pessoas estão rindo, então parece ser algo para o benefício delas. Mas a ilusão está no fato de que, infelizmente, foram colocadas pra rir de violência, de racismo, de machismo, de todo tipo de preconceito e conduta deplorável. O humor real não tem espaço por lá e quem tenta fazê-lo não consegue muito sucesso, pois está no reino errado, com os telespectadores errados. O público que consome televisão não quer informação, diversão ou reflexão. Lá, quanto mais inútil for o conteúdo, mais desejado é.

Os programas de entrevista são acordos por interesse. Pessoas que estavam esquecidas, pagam algum valor para aparecerem em certos programas e voltarem a ter visibilidade. Quase sempre é mero pretexto pra divulgar trabalho, produto ou serviço ou recolocar alguma pessoa insignificante de volta na memória das pessoas, como se nunca tivesse deixado de ser lembrado e desejado. As pessoas não se importam de ver mais do mesmo. Pode-se contar a mesma piada infinitas vezes e repetir os filmes toda semana por décadas. Elas vão até interpretar isso como vantagem. Para alguns, isso lhes permite assistir aquele conteúdo que perderam da última vez. E tudo bem se já tiverem assistido sessenta ou setenta vezes o mesmo filme ou episódio de série, pois elas gostam de relembrar as cenas, imitar as falas que já sabem de cór ou tirar um pouco de prazer com a nostalgia de um conteúdo tão antigo.

Cada país tem seus pontos fortes na manipulação. No Brasil, calhou de ser a transmissão de partidas de Futebol. Um clássico da ‘taxa de retenção’, que faz qualquer youtuber ficar com inveja. O telespectador consegue ficar quase duas horas assistindo pessoas jogando bola. Cientes do excesso, algumas empresas começaram a fabricar televisões próprias pra isso, colocando iluminação  na parte traseira da televisão de forma que projete um tom similar ao que estiver passando na tela. Se o indivíduo estiver horas assistindo um gramado verde na transmissão de Futebol, ficará com a vista menos cansada de olhar o contraste daquele retângulo verde luminoso enorme no meio da parede branca. Então uma transição mais suave funciona como um cabresto, que mantém o telespectador mais confortável e concentrado somente na programação, sem distrações ou incômodos que o tirem do ambiente.

O mais curioso nessas transmissões de Futebol é que quem assiste não está participando do jogo e, mesmo virando torcedor fanático, nunca chega a receber absolutamente nada do time ou dos jogadores que faz questão de patrocinar. Há, inclusive, quem se disponha a ir pedir fotos e autógrafos para jogadores que saíram da cadeia por assassinato e ocultação de cadáver. Isso deixa claro, que fama e crime não precisam se afastar. As pessoas não ligam se você for um assassino, estuprador ou um ladrão. Tudo que importa é que você é famoso e já apareceu na televisão. Outro caso que comprova isso foi quando pessoas quiseram tirar fotos junto à um famoso ladrão que estava em fuga por um aeroporto. Reconhecer um criminoso na rua e saber que já o viram na televisão é o ápice do dia de um telespectador comum.

Mas, claro, a programação não se resume só nisso. Há também muito sexo, mais sexo e sexo até onde não deveria haver sexo. Entre um sexo e outro, inserem uma coleção variada de sexo. Quando as pessoas se cansam de ver sexo, eles mudam um pouco o foco e transmitem sexo com micro-censuras, onde se colocam tarjas ou efeitos de desfoque nas imagens para ocultar o que passaram o resto do tempo destacando. Estipulam limites, pois senão o telespectador pode acabar se interessando mais em fazer sexo do que ver sexo pela televisão. Então as emissoras controlam a intensidade e frequência dos estímulos.

Claro que isso constrói a ideia de que corpos e sexualidade não possuem nenhum valor que precise ser respeitado, mas isso gera lucro, então é feito. Violência doméstica, machismo, estupro e todo tipo de efeito brota de uma cultura acostumada a menosprezar relações e pessoas, mas a televisão nunca fala disso, a menos que seja para um nicho específico onde haja demanda por esse tema, afinal, lucrar sempre vai bem na visão das emissoras. Mas claro que, até certo ponto, pois se as pessoas se engajam demais, elas abandonam a televisão e começam a seguir adiante com suas lutas, absorvendo e produzindo cultura real e útil.

Apesar de todo estímulo a estupidez, ao sensacionalismo, a maledicência, ao escárnio com a vida humana, aos preconceitos, as opressões, às induções de consumo de lixos caros, à disseminação de ódio, de falácias, de protecionismo à bandidos, corruptos e todo tipo de entulho social, abre-se espaço para coisas boas também. Você deve estar curioso pra saber, não é? A brecha que toda emissora não consegue controlar bem é a incompletude de sua mídia. Como elas são transmissoras de programação específica para aparelhos televisores, os computadores e celulares quase não os consomem. Poucos aparelhos que não são televisores, possuem a função de transmitir essa programação. Os computadores de mesa, exigem, geralmente, equipamento adicional para captar sinal de televisão e os celulares mais convencionais não oferecem essa possibilidade. A razão pra televisão não ter ido para esses outros aparelhos é que eles não são tão fixos e limitados como a televisão e dão margem pro usuário se dispersar.

Na internet, por exemplo, as pessoas podem assistir à um vídeo no Youtube à qualquer hora e, por isso, elas não estão presas à um sofá ou horário que as faça ficar horas de frente pra área do vídeo. Claro que, contudo, muitos passam horas de frente pro navegador “assistindo” o Facebook, o que é igualmente prejudicial se mal utilizado. No fim, o que muitas pessoas fazem ao sair da televisão e ir pro computador ou celular é apenas mudar o estilo da chicotada no olho. Alguns mais aficionados por interação e tecnologia podem acabar preferindo apertar botões para controlar a intensidade e o fluxo do próprio desperdício de vida. Isso traz uma sensação de autonomia, mesmo que seja falsa.

A internet, por um tempo, imaginou-se ser a grande ameaça para a televisão. Um espaço onde as pessoas teriam total liberdade de escolher o que absorver e, mais do que isso, ter a chance de elas mesmas criarem conteúdos para o mundo, fez a televisão se sentir frágil, pois ela nem permitia interação e o pouco que permite hoje em dia é tão superficial que nem dá pra chamar de interação. Esse medo que a televisão tem da internet é tão real que muitos canais passaram a incluir conteúdos próprios da internet pra dentro da televisão. Se as pessoas passam horas vendo vídeos que viralizaram na internet, que tal levar esses vídeos para serem descarregados na tela do telespectador? É como pagar duas vezes pelo mesmo conteúdo e, de quebra, manter firme e forte o império da manipulação. Com o tempo, as emissoras foram se adequando e levando um pouco da televisão pra internet e um pouco da internet pra televisão. Agora isso está fundido de tal maneira, que não se ampliou a diversidade, mas só se diversificou as formas de se replicar a mesmice.

Eu nunca fui muito fã de televisão. Meu foco sempre esteve mais em filmes específicos, alguns pouquíssimos desenhos de humor e o resto eu torcia pra que pegasse fogo o quanto antes. Não consumo televisão há muito e muito tempo e já venho soltando minhas amarras dos cantos da internet que não somam nada pra minha liberdade e crescimento. Esse é um trabalho difícil. Se tivesse que recomendar conteúdo para as pessoas, eu teria imensa dificuldade, pois são tão poucos, que a lista que ofereci há 10 anos atrás ainda continua sem novas inserções. Terei prazer em trazer textos futuros pra indicar filmes, livros, sites, artistas, escritores, coletivos de empoderamento, sugestões de atividade e aprendizado fora desses alicerces mais comuns e, quem sabe, ajudar mais gente a participar do ato urgente de falir esse amontoado de emissoras. Basta que cessem o consumo de todo esse lixo e passem mais tempo se desintoxicando desses vícios psicológicos. Com o tempo a Síndrome de Estocolmo pode ir amenizando até o ponto em que a chicotada no olho comece a causar dor e não prazer. E, quem sabe, a dor te faça sair dali e começar a cobrar o fim de seus próprios opressores.

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Rodrigo Meyer

As consequências do medo.

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O medo é uma reação natural, mas não é natural estar refém dele quando não necessário. Também não é natural causá-lo em outro ser se não for por instinto de defesa. O ser humano tem uma história longa de desenvolvimento e observação da natureza. Conforme as sociedades foram se sofisticando em alguns aspectos, o medo começou a servir de ferramenta de manipulação de maneiras menos óbvias.

Na era das cavernas, se um humanoide se sentisse ameaçado pela presença de outro, poderia reagir grunhindo e se colocando em posição de ataque. Embora simples, essa é uma expressão eficiente de comunicação do medo. Ela externa para outro indivíduo que você está em posição de defesa e ataque. Apenas por saber disso, o outro indivíduo traduz essa comunicação percebida para o campo emocional e psicológico. Em poucos segundos, uma expressão corporal se torna uma arma que faz outro indivíduo sentir-se inseguro, preocupado, ficando em alerta, entre outras coisas.

Claro que, de forma mais sofisticada, o termo ‘medo’ não se refere só à este sentimento drástico de se sentir fisicamente ameaçado. O ser humano é capaz de se sentir acuado de muitas maneiras. Podemos citar, por exemplo, o medo de falhar, o medo de se relacionar, o medo de viajar de avião, o medo do escuro, o medo da morte, o medo de perder o emprego, o medo de ficar sozinho, de não ser aceito e o que mais você puder imaginar.

Cada pessoa terá um ou mais medos. As possibilidades são inúmeras, principalmente quando flexibilizamos um pouco os significados. Mas, a maioria desses medos, embora recorrentes na sociedade, não são naturais. Estar suscetível à fraqueza de senti-los faz parte da psique humana. E é só isso que é natural. Sabendo disso, pessoas exploram a fraqueza de muitos, plantando medo para obtenção de certos efeitos. A manipulação das sociedades em diversos níveis é algo que vemos ocorrer frequentemente em quase todas as culturas, países e governos.

Sabe-se, por estudo, que o ser humano tende a reagir de forma previsível diante de uma situação planejada. Causar medo de escassez de água, por exemplo, pode fazer as pessoas estocarem água, comprarem mais água e até a valorizarem mais esse recurso natural ou produto. Imagine que pessoas podem se beneficiar do medo de outra, pra lucrar mais ou mudar uma conduta.

Também é comum em diversos governos a estratégia de plantar medo pela repressão como forma de controlar as massas. Através da repressão violenta, por meio de símbolos de repressão como armas, escudos, trajes, ruídos e tudo que disso se derive, tal como gritos de guerra, formação em fila, entre tantas outras coisas, as pessoas podem ser levadas a desistir de protestos e outras ações, pelo medo que a repressão lhes causa. Ocorrências de exemplo podem reafirmar esse medo, quando uma das pessoas reprimidas termina presa, ferida ou com a dignidade abalada. Os métodos covardes de tentar impor o que se quer encontram repercussão pela facilidade com que são validados pelas próprias vítimas.

Em situações onde o coletivo da sociedade tem controle sobre uma minoria, é desastroso permitir que uma minoria mal intencionada lhe tome a liberdade e a tranquilidade por conta de uma manipulação de sua fraqueza. E para evitar isso, é preciso reeducar as pessoas a se sentirem mais unidas entre si, com um verdadeiro senso de coletividade e unidade. Quando a afronta à liberdade e a dignidade humana estiverem ameaçadas, é dever de toda pessoa reagir por efeito manada e colocar os pretensiosos intrusos para fora.

Em uma comunidade de elefantes, quando notam que um deles está ameaçado por outro animai ou mesmo por um ser humano, eles comunicam um alerta entre o bando e prontamente todos se colocam à disposição pelo grupo, enfrentando o intruso e espantando ele por demonstrações de ameaça. Entre os seres humanos, uma das formas mais sofisticadas de ameaça é perseverar em tranquilidade. Quando diversas pessoas se veem pressionadas por repressores e tomam a decisão de continuar, apesar disso, o repressor se dá conta de que não está conseguindo causar medo nessas pessoas e, portanto, sua única arma de poder está inutilizada. Quem acaba com medo é o próprio opressor, por ver que ninguém desistiu diante de suas ameaças.

Lembro-me de inúmeras situações onde iniciativas de governos e instituições de repressão saíram às ruas com a tentativa de eliminar protestos e, apesar de toda brincadeira com armas, uniformes, acessórios, carros e um suposto treinamento, se colocaram a correr por medo de uma multidão desarmada fisicamente, mas completamente armada de motivação, confiança e intransigência diante do contexto. Cenas assim deixam claro que a repressão não é poderosa nem mesmo quando detém mais poder bélico que suas vítimas. E, com isso, fica notório a covardia e a fragilidade desses repressores.

Não quero com esse texto te incentivar a fazer coisas das quais irão lhe causar prejuízos. Se empoderar na temática da coragem não significa que você precise, por exemplo, ignorar ameaças de morte ou de violência. Mas, o objetivo inegável desse texto é mostrar que grande parte das estratégias criadas para nos causar medo, são muito mais frágeis que os próprios alvos. Pense, por exemplo, que somos 200 milhões de brasileiros. Mesmo que você considerasse apenas metade dessas pessoas como disponíveis para uma ação concreta, ainda seríamos 100 milhões de pessoas. Quem é que recuaria primeiro? 100 milhões de pessoas engajadas e unidas ou 20, 50, 300 ou 500 repressores do lado oposto? Não há cordão de isolamento que segure, não há munição suficiente que dê baixa. É preciso, portanto, acreditar no senso coletivo e na união.

Não é apenas porque somos maiores em número. Trata-se de como encaramos as situações e em como nos sentimos permissivos às tentativas alheias. Até mesmo Dalai Lama disse que devemos demonstrar desaprovação. E é isso que nossa reação deve ser sempre. Nunca se deixe ser paralisado pelo medo. Se as situações parecem difíceis, não fuja delas, encare. Tudo bem ponderar e ter sensatez sobre o que lhe convém. Apenas não passe a vida acreditando que é você quem precisa ter medo dos patrões, medo dos políticos, medo das polícias, medo das pessoas em geral. Una-se como uma família entre os seus e empodere-se. Não cobro que pensem e ajam como eu, mas pessoalmente levo o seguinte lema: Prefiro morrer de pé (resistindo), do que viver ajoelhado (desistindo).

Também conheço bem a frase que muitos me diriam, de que ‘é mais fácil dizer do que fazer’, justificando que, na hora, não se escolhe tão facilmente assim. E eu rebato dizendo que, para essas pessoas, o medo já dominou e os opressores estão tendo sucesso em suas empreitadas. Não é meu papel, jamais, culpar as vítimas pelo medo que sentem nas diversas situações da vida, mas quero ajudá-las a enxergar um novo modo de nos livrarmos tanto do medo quanto dos opressores, pois se perdemos o medo deles, acabamos deixando-os em alerta, amedrontados pela nossa perseverança. Assim como funciona a tentativa deles de impor medo nas pessoas, poderá funcionar a tentativa das pessoas de impor medo neles. E se essa minoria fica sob controle, acabamos dando um recado claro ao mundo, de que aquelas tentativas não terão vez por aqui e que se alguém ousar, acabará mal.

Passam a vida nos dizendo isso, para diversos assuntos. Que tal invertermos o jogo de transformar o medo em coragem e deixar os inimigos com medo? Você não faz greve por medo de perder o emprego? E se eu te dissesse que empregadores só ameaçam demitir grevistas porque possuem um medo enorme das greves? E porque eles tem tanto medo da greve? Porque se todos resolvessem parar até que suas reivindicações fossem atendidas, os empregadores não teriam trabalho, não teriam produto, serviço ou dinheiro. Se você, que é a força de tudo que ali está, resolver atravancar, você obriga que o empregador te ouça. E, entenda, que também é ameaça por medo, aquela história de que se você sair, haverá um monte de desempregados pra te substituir pelo mesmo salário ou condição que você não aceitou. Mas nunca se esqueça que se todos os trabalhadores estiverem devidamente esclarecidos e empoderados, empresa nenhuma conseguiria fazer essa troca, sem ter que se alinhar aos requisitos do trabalhador. E somente os empregadores é que ficariam com medo.

Claro que, se feito por um e não por todos, o efeito não é o esperado. Ações coletivas exigem coletividade. Esse texto pretende instigar dentro de cada um a aspiração por cada vez mais coragem e união. Não vamos ser todos livres da noite pro dia e o medo não desaparecerá de forma homogênea em toda a sociedade. Precisamos ir alimentando isso até o ponto em que nos encontremos como um bloco sólido, uma união.

Deixando um pouco de lado esses medos que são planejados para manipular, vamos falar um pouco dos medos que geramos “sozinhos”. O medo de se relacionar, de praticar um determinado esporte, medo de falhar ou medo de nos dar qualquer benefício similar, são medos que normalmente são alimentados por traumas.

Uma pessoa que perdeu um ente querido precocemente, por exemplo, pode acabar tendo medo de se relacionar profundamente em namoros, por receio de que, ao se envolverem demais, estarão sob o risco de perder também essa pessoa, uma vez que a mente faz uma analogia entre apego emocional e perda / abandono. Às vezes de  forma consciente, mas geralmente de forma inconsciente, as pessoas  com esse tipo de trauma não superado, acabam se afastando das pessoas que gostam, quando notam que as coisas estão realmente ficando interessantes. E pra piorar a situação, existe um reforço desse trauma quando o próprio traumatizado se vê mais uma vez perdendo a pessoa amada, muitas vezes porque essa pessoa amada se cansa de não ser recebida plenamente e, de fato, acaba partindo e concretizando a “previsão” do traumatizado de que amores são ruins, porque os amados sempre partem.

O ser humano é complexo e é compreensível que traumas deixem medos. Mas esse é um outro tipo de medo. Esse medo, de certa forma, tem fundamento, embora deva ser resolvido e superado. Embora seja compreensível, não é algo que faz o indivíduo viver da melhor maneira que pode. Quando um trauma limita a capacidade do ser humano de ir além, esse trauma, assim como ocorre com os demais tipos de medo, faz a pessoa paralisar. E como eu sempre digo: “Medo paralisa. E coisas paradas não repercutem.”.

Terei outras oportunidades de falar um pouco melhor sobre outros aspectos do medo, especialmente sobre os traumas humanos, mas por hoje eu gostaria de deixar apenas essa abertura geral do tema, esperando ter lhe causado um pouco mais de coragem, porque de medo a sociedade já está saturada. Espero conhecer mais pessoas, mais histórias e realidades que poderão ter participação fundamental para outros projetos que desenvolvo. Vamos em frente!

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Rodrigo Meyer

Persistência ou teimosia?

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Estar motivado para seguir adiante normalmente é bom. Tudo que se pretende fazer depende dessa dose de combustível. Mas nem todo combustível vem pela razão certa. Alguns se impulsionam contra a realidade pela gana e desespero em ter seu egoísmo atendido. E não terão, à menos que seja por alguém que está com sérios problemas de autoestima.

A persistência é boa, diferente da teimosia que geralmente é associada com a prática desgastante de tentar sem levar em conta o bom-senso e as pessoas ao redor. É um abuso, um conflito, um estorvo. O teimoso é enxergado como aquela pessoa que não se percebe como desnecessário mesmo depois de ter sido desaprovado sucessivamente.

De memória, tenho meus parentes pra citar. Quase todos eles, perdidos em meio a visão restrita do mundo e o foco constante apenas no que eles querem, se esquecem de ler os sinais ao redor sobre o que os outros querem, dizem e fazem. Frequentemente batem a cara em portas fechadas, duras e secas. Não compreendem a solidez da negativa, porque não perceberam ela nem quando ela era flexível. E a teimosia em seguir adiante os faz não só ignorantes sobre a própria realidade como também tóxicos para os que convivem junto.

Desde sempre eu tracei os meus planos de isolamento para contenção de danos. Com o passar do tempo, essas pessoas tiveram cada vez menos espaço na minha realidade. De que serviu a teimosia delas, senão para prejudicar a si mesmas? Eu, persistente em minhas metas, em minha busca de liberdade e paz pessoal, segui adiante, apesar dessas barreiras. Os teimosos estão por toda parte. Eles não querem ceder, não querem parar de bater a testa na ponta da faca. Já estão sangrando e desmaiando na vida, mas insistem em voltar e piorar ainda mais a própria situação.

Ser persistente é encontrar algo que se deseja fazer e colocar todo seu empenho naquilo. É ter confiança e ação para contornar barreiras, tentar mais uma vez e não desanimar apesar dos resultados iniciais. Mas persistência não tem relação com teimosia. A persistência ocorre visando a própria liberdade e não o atropelo de ninguém. Claro que às vezes, garantir nossa liberdade acaba sendo uma ação que priva a liberdade de outros. Quando você está em um cativeiro, por exemplo, e prende o sequestrador pra poder sair de lá, você acaba tirando a liberdade de quem tentava tirar a sua liberdade. Mas a persistência não tem isso como objetivo inicial, como premissa. Isso é (quando ocorre) uma consequência de nossas buscas. Aliás, nesse contexto o teimoso é o sequestrador que não se conforma em não ter e força a obtenção.

Ao persistir em algo você vai encontrar barreiras naturais. Para saber se o que você tem é persistência ou teimosia, precisa analisar o objetivo essencial por trás da sua ação. Vamos supor, por exemplo, que você está em uma situação onde um relacionamento não é correspondido. Você quer alguém que não quer você. Tentar que esse relacionamento aconteça forçosamente é teimosia, porque já se tem claro que a pessoa de lá está recusando suas tentativas. E livres como as pessoas precisam ser, é natural que toda teimosia acabe sendo “mero” estorvo.

O persistente sabe onde quer chegar, mas nunca deixa de lado a observação da sua própria realidade. Ele contorna barreiras ao invés de atropelá-las. Quando, por exemplo, uma pessoa persistente quer muito alugar uma casa e não encontra uma no bairro inicial, ela não deve roubar uma casa para resolver o problema. Ao contrário, ela repensa seu plano e tenta descobrir onde seria melhor para encontrar um espaço para alugar, talvez indo em outros bairros, mudando de imobiliária ou até mesmo estabelecendo outros parâmetros de busca no bairro inicial, como valores, localidade ou qualidade. Se é algo que e a pessoa quer muito e não está tirando a liberdade de ninguém, ela pode inclusive ser paciente, melhorar suas próprias condições e voltar em outro momento da vida para tentar morar lá novamente!

Já o teimoso é o inverso disso. Na mesma situação, ele teria continuado a tentar encontrar casas no mesmo lugar, sem mudar absolutamente nada de seus parâmetros. Ficaria tocando a campainha de todas as casas e, mesmo não tendo o necessário para alugá-las, continuaria. Em algum tempo ele seria o estorvo da cidade. E até mesmo onde ele poderia alugar uma casa, as pessoas começam a descartá-lo, porque ele já se tornou um problema como pessoa antes mesmo de ser um problema como inquilino. Os corretores de imóveis começam a deixar de atendê-lo, vão se afastando e com o tempo ele termina sozinho, triste e irritado. O teimoso não percebe que o egoísmo dele dá o que ele planta. Ele planta “eu” em tudo que pede, atropela os demais para conseguir isso e no final, fica ele com ele mesmo, pois todos os demais que não querem ser atropelados, já saíram de perto e o isolaram.

Na vida, você precisa ser o persistente e não o teimoso. Evite estar em cursos dos quais você não tem condições de estar, não tente vencer em profissões sem aprendê-las, não se entoque em relacionamentos que não tem futuro, não deseje pessoas que não querem você por perto, não fique buscando coisas e situações que não correspondem com suas capacidades, sua personalidade, suas reais vontades, etc. Deixar de ser teimoso é começar a se beneficiar, é se dar presentes, se dar coisas boas, se ver vencer. Acreditar que o que você precisa ter ou ser é aquela coisa que não se encaixa em você, é perda de tempo, ignorância e falta de amor-próprio. Lembre-se que reciprocidade é a chave.

Todos nós temos habilidades em uma ou outra coisa. Podemos aprimorar os pontos fracos e chegarmos a ter novas habilidades. Mas, nunca transforme suas fraquezas em ferramentas para busca das coisas. Isso não ajuda nem à você mesmo, nem aos demais. Com o tempo, as pessoas vão percebendo que quanto mais elas se resolverem por dentro, mais fácil é a vida lá fora e mais feliz e próspero fica o mundo todo. Viver bem em sociedade é, no final das contas, viver bem individualmente. Um indivíduo saudável é uma peça funcional e harmoniosa no coletivo.

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Rodrigo Meyer

Pais ruins não fazem falta.

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É imenso o número de pessoas que desenvolvem insegurança, complexos e outros problemas por causa de pais ruins, principalmente na infância. As crianças buscam, a princípio, aceitação dos pais, presença e amor. Mas, frequentemente não encontram nada disso. Por vezes a mãe ou o pai sequer estão presentes fisicamente, mesmo podendo estar.

O fato é que pais ruins não fazem a menor falta. Sei que não basta dizer isso pra que todos cresçam seguros de si. A mente humana ainda é bastante dependente de certos padrões e estímulos, por mais simbólicos e artificiais que eles eventualmente sejam. Quando somos crianças, a aprovação paterna e materna tem mais peso do que de fato deveria ter.

Crescemos um pouco mais e nos damos conta de que pai não é quem gera filhos, é quem os cria. Da mesma forma as mães. Aprendemos que irmãos são quaisquer pessoas nesse mundo dispostas a ser. Definitivamente, pais ruins não fazem falta e parente nenhum nos faz falta se ruins forem. Esqueça padrões sociais ilusórios, conceitos deturpados, auto-cobranças sobre ser um bom filho ou não. Nada disso é real. E você descobre, se quiser, cedo ou tarde.

Somos uma sociedade marcada por abandono paterno e muitas vezes também materno. Inúmeros são os casos onde o homem abandona a mulher ao descobrir a gravidez. Pais desse tipo nada poderiam oferecer de bom aos filhos e é até um benefício que se afastem. As únicas coisas úteis que podem oferecer são a pensão e as obrigações jurídicas diante do contexto.

Às vezes, essas figuras não abandonam a família, mas atuam com similar ausência. Isso, por si só, prova que não faz a menor diferença e que não fazem a menor falta. Estando ou não associados à uma casa ou família, se não são presentes de verdade e se não possuem qualidade interior pra serem pais, não precisamos deles.

O que toda criança precisa é de bons pais / mães, que sejam presentes, interessados, envolvidos, atenciosos, carinhosos, que as respeitem e valorizem. Um pai pode ser a própria mãe da criança, e uma mãe pode ser o próprio pai dela, como também podem ser os tios / tias, os irmãos / irmãs, os avós ou qualquer pessoa que tenha afeto e interesse de ver aquela criança feliz. Esses padrões sociais não interferem em nada e a sociedade precisa parar de pressionar, para facilitar que mais gente ignore isso e fique feliz e inteiro mais brevemente.

Na cultura tibetana ocorre algo interessante que é um valor social onde a mãe não é limitada a uma única figura. Quando a mãe biológica de uma criança está ausente por um determinado momento, outra mulher assume o papel de mãe para aquela criança. Existe um sentimento de empatia e senso de colaboração na comunidade. As pessoas transmitem amor e cuidado aos demais de forma espontânea e por isso acordos sociais como esse são tendências fáceis de se ver ocorrer.

No final da equação, tudo que importa é receber amor. Não somará para nosso crescimento pessoal se tivermos a figura conectada mas não recebermos conteúdo relevante dela. Não precisamos de pais ou mães que maltratam seus filhos, rejeitam, desprezam, ofendem, ridicularizam, agridem, abusam. Não precisamos de pais que nos façam sentir incapazes, sem valor ou dignidade. Também não são necessários aqueles que se ausentam nos momentos importantes e depois tentam se aproximar como se nada tivesse ocorrido.

Conexões e experiências ruins são totalmente desnecessárias, exceto para nos fortalecer e nos ensinar que podemos ser livres e maiores sem tudo aquilo, que podemos e devemos ter amor-próprio antes de tudo. Na fase da infância, se não recebermos a devida atenção podemos crescer acreditando que não temos valor. A perda da autoestima vai acabar nos deixando derrotados na nossa mente, mesmo se tivermos todo potencial do mundo.

A mente que acredita em algo, vive esse algo. Nossa mente é poderosa. Mudar padrões na mente é mudar realidades. Tudo aquilo que superamos, some como num passe de mágica. Superar momentos ruins pode ser difícil, dependendo das ocorrências e de cada pessoa. Mas tudo pode ser revisto e sempre podemos recomeçar novos dias, novas histórias, novas experiências, novas emoções, com novas pessoas.

Nunca se prenda a pessoas tóxicas apenas por achar que deve algo à elas, que deve obediência ou respeito. Figuras biológicas não significam absolutamente nada. O que marca valor em uma pessoa não é a origem do material genético. O mesmo vale pra qualquer outra pessoa no mundo. O critério é apenas a qualidade dessa pessoa. Esteja por perto de pessoas de valor que querem lhe ver livre e feliz.

Eu repito uma frase por anos e anos e vou repeti-la enquanto houver gente que não aprendeu: “Quem ama, quer ver o outro livre e feliz. Qualquer coisa diferente disso não é amor.”

Considero a minha história familiar um completo desastre. Reconheço os pontos positivos da minha mãe, mas tenho severas desaprovações sobre os pontos negativos. Sobre meu pai, posso resumir como sendo um completo desperdício de átomos. Não há pontos positivos. Não tenho contato com ele desde meus 18 anos, provavelmente. Cheguei a escrever algumas descrições sobre o tipo de “pessoa” que ele foi e ainda é, mas preferi omitir por entender os limites que me cabem e/ou convém. Me sito tão bem estando longe que não tenho nenhum interesse de me aproximar, ainda mais se for por conta de algum processo judicial contra mim. Que continue longe, seja lá onde estiver. Que morra rápido e que não reencarne no mesmo mundo que eu. Que assim seja e assim será.

Se você passa por momentos difíceis em seu contexto familiar, com algum tipo de sofrimento ou desprazer, esteja sempre pronto a dividir essas situações com uma pessoa de sua confiança. Se tiver idade suficiente e/ou condições de estar em outro ambiente, procure essa alternativa como forma de se afastar do problema e se libertar.

Não deixe que as situações da vida acabem por lhe tirar a confiança e a vontade de viver. Tenha em mente que sua autoestima deve estar relacionada à você e a valorização através das pessoas certas e não de qualquer pessoa. Empodere-se o quanto antes para se ver sempre disposto a desenvolver todos os seus potenciais. Nunca se limite por um conceito, pela ausência de um conceito, por uma pessoa ou pela ausência de uma pessoa.

Existem situações das mais diversas ocorrendo pelas famílias ao redor do mundo. Seria impossível em um único texto abranger e dar a devida recomendação pra toda essa gama de possibilidades. Espero poder contribuir no decorrer de novos textos e ser útil pra cada caso.

Alguns contatos que podem ser úteis para informações ou ajuda em casos de maus-tratos:

Secretaria de Direitos Humanos
LGBT
Pessoa com Deficiência
Crianças e Adolescentes
Pessoa Idosa
Delegacia da Mulher (em São Paulo, podendo procurar por CEP qual a unidade mais próxima de você).

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Rodrigo Meyer